Por Papa Bento XVI
Tradução: Vaticano
Fonte: Vaticano

Queridos irmãos e irmãs!

Depois do tempo das festas voltamos às nossas catequeses. Eu tinha meditado convosco sobre as figuras dos doze Apóstolos e de São Paulo. Depois começámos a reflectir sobre as outras figuras da Igreja nascente e assim hoje desejamos reflectir sobre a pessoa de Santo Estêvão, festejado pela Igreja no dia seguinte ao Natal. Santo Estêvão é o mais representativo de um grupo de sete companheiros. A tradição vê neste grupo o germe do futuro ministério dos “diáconos”, mesmo se é preciso ressaltar que não se encontra esta denominação no Livro dos Actos. A importância de Estêvão resulta contudo do facto que Lucas, neste seu livro importante, lhe dedica dois capítulos inteiros.

A narração de Lucas parte da constatação de uma subdivisão no interior da Igreja primitiva de Jerusalém; ela era, sem dúvida, totalmente composta por cristãos de origem hebraica, mas alguns deles eram originários da terra de Israel e eram chamados “hebreus”, enquanto outros de fé hebraica veterotestamentária provinham da diáspora de língua grega e eram chamados “helenistas”.

Eis o problema que se estava a delinear: os mais necessitados dos helenistas, especialmente as viúvas privadas de qualquer apoio social, corriam o risco de serem descuidadas na assistência para o sustentamento quotidiano. Para resolver esta dificuldade os Apóstolos, reservando para si a oração e o ministério da Palavra como sua tarefa principal, decidiram encarregar “sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria” para que desempenhassem a tarefa da assistência (Act 6, 2-4), ou seja, do serviço social caritativo. Para esta finalidade, como escreve Lucas, a convite dos Apóstolos os discípulos elegeram sete homens. Deles conhecemos também os nomes. Eles são: “Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócuro, Nicanor, Timão, Parmenas e Nicolau de Antioquia. Foram apresentados aos Apóstolos que, depois de orarem, lhes impuseram as mãos” (Act 6, 5-6).

O gesto da imposição das mãos pode ter vários significados. No Antigo Testamento o gesto tem sobretudo o significado de transmitir um cargo importante, como fez Moisés com Josué (cf. Nm 27, 18-23), designando assim o seu sucessor. Nesta continuidade também a Igreja de Antioquia utilizará este gesto para enviar Paulo e Barnabé em missão aos povos do mundo (cf. Act 13, 3). A uma análoga imposição sobre Timóteo, para lhe transmitir um cargo oficial, fazem referência as duas Cartas paulinas a ele dirigidas (cf. 1 Tm 4, 14; 2 Tm 1, 6). Que se tratava de uma acção importante, a ser realizada depois do discernimento, deduz-se de quanto se lê na Primeira Carta a Timóteo: “Não imponhas as mãos a ninguém precipitadamente, nem te tornes cúmplice de pecados alheios” (5, 22). Por conseguinte vemos que o gesto da imposição das mãos se desenvolve no seguimento de um sinal sacramental. No caso de Estêvão e companheiros trata-se certamente da transmissão oficial, da parte dos Apóstolos, de um cargo e ao mesmo tempo da imploração de uma graça para o exercer.

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O mais importante que se deve fazer notar é que, além dos serviços caritativos, Estêvão desempenha também uma tarefa de evangelização em relação aos concidadãos, dos chamados “helenistas”; com efeito, Lucas insiste sobre o facto de que ele, “cheio de graça e de fortaleza” (Act 6, 8), apresenta em nome de Jesus uma nova interpretação de Moisés e da própria Lei de Deus, relê o Antigo Testamento à luz do anúncio da morte e da ressurreição de Jesus. Esta releitura do Antigo Testamento, releitura cristológica, provoca as reacções dos Judeus que compreendem as suas palavras como uma blasfémia (cf. Act 6, 11-14). Por esta razão ele é condenado à lapidação.

E São Lucas transmite-nos o último discurso do santo, uma síntese da sua pregação. Dado que Jesus tinha mostrado aos discípulos de Emaús que todo o Antigo Testamento fala dele, assim Santo Estêvão, seguindo o ensinamento de Jesus, lê todo o Antigo Testamento em chave cristológica.

Demonstra que o mistério da Cruz está no centro da história da salvação narrada no Antigo Testamento, mostra que Jesus, o crucificado e ressuscitado, é realmente o ponto de chegada de toda esta história. Portanto, mostra também que o culto do templo terminou e que Jesus, o ressuscitado, é o novo e verdadeiro “templo”. Precisamente este “não” ao templo e ao seu culto provoca a condenação de Santo Estêvão, o qual, neste momento diz-nos São Lucas fixando o olhar no céu viu a glória de Deus e Jesus que estava à sua direita. E vendo o céu, Deus e Jesus, Santo Estêvão disse: “Olhai… eu vejo os Céus abertos e o Filho do Homem de pé, à direita de Deus” (Act 7, 56). Segue-se o seu martírio, que de facto é modelado sobre a paixão do próprio Jesus, enquanto ele entrega ao “Senhor Jesus” o próprio espírito e reza para que o pecado dos seus algozes não lhes seja atribuído (cf. Act 7, 59-60).

O lugar do martírio de Estêvão em Jerusalém é tradicionalmente colocado um pouco fora da Porta de Damasco, a norte, onde surge agora precisamente a Igreja de Saint-Étienne ao lado da famosa École Biblique dos Dominicanos. O assassínio de Estêvão, primeiro mártir de Cristo, foi seguido por uma perseguição local contra os discípulos de Jesus (cf. Act 8, 1), a primeira que se verificou na história da Igreja. Ela constituiu a ocasião concreta que levou o grupo dos cristãos judaico-helenistas a fugir de Jerusalém e a dispersar-se. Expulsos de Jerusalém, eles transformaram-se em missionários itinerantes: “Os que tinham sido dispersos foram de aldeia em aldeia, anunciando a palavra da Boa Nova” (Act 8, 4). A perseguição e a consequente dispersão tornam-se missão. O Evangelho propagou-se assim na Samaria, na Fenícia e na Síria até à grande cidade de Antioquia, onde segundo Lucas ele foi anunciado pela primeira vez também aos pagãos (cf. Act 11, 19-20) e onde se ouviu pela primeira vez o nome de “cristãos” (Act 11, 26).

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Em particular, Lucas anota que os apedrejadores de Estêvão “depuseram as capas aos pés de um jovem chamado Saulo” (Act 7, 58), o mesmo que, sendo perseguidor, se tornará apóstolo insigne do Evangelho. Isto significa que o jovem Saulo certamente ouviu a pregação de Estêvão, e portanto conhecia os conteúdos principais. E São Paulo estava provavelmente entre os que, seguindo e ouvindo este discurso, “se encheram intimamente de raiva e rangeram os dentes contra Estêvão” (Act 7, 54). A este ponto podemos ver as maravilhas da Providência divina. Saulo, adversário obstinado da visão de Estêvão, depois do encontro com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco, retoma a leitura cristológica do Antigo Testamento feita pelo Protomártir, aprofunda-a e completa-a, e assim torna-se o “Apóstolo das Nações”. A Lei cumpre-se, como ele ensina, na cruz de Cristo. E a fé em Cristo, a comunhão com o amor de Cristo é o verdadeiro cumprimento de toda a Lei. É este o conteúdo da pregação de Paulo. Ele demonstra assim que o Deus de Abraão se torna o Deus de todos. E todos os crentes em Jesus Cristo, como filhos de Abraão, se tornam partícipes das promessas. Na missão de São Paulo cumpre-se a visão de Estêvão.

A história de Estêvão diz-nos muitas coisas. Por exemplo, ensina-nos que nunca se deve separar o compromisso social da caridade do anúncio corajoso da fé. Era um dos sete encarregados sobretudo da caridade. Mas não era possível separar caridade e anúncio. Assim, com a caridade, anuncia Cristo crucificado, até ao ponto de aceitar também o martírio. Esta é a primeira lição que podemos aprender da figura de Santo Estêvão: caridade e anúncio caminham sempre juntos.

Sobretudo, Santo Estêvão fala-nos de Cristo, do Cristo crucificado e ressuscitado como centro da história e da nossa vida. Podemos compreender que a Cruz permanece sempre central na vida da Igreja e também na nossa vida pessoal. Na história da Igreja nunca faltarão a paixão, a perseguição. E precisamente a perseguição torna-se, segundo a célebre frase de Tertuliano, fonte de missão para os novos cristãos. Cito as suas palavras: “Nós multiplicamo-nos todas as vezes que somos ceifados por vós: o sangue dos cristãos é semente” (Apologetico 50, 13: Plures efficimur quoties metimur a vobis: semen est sanguis christianorum). Mas também na nossa vida a cruz, que jamais faltará, se torna bênção. E aceitando a cruz, sabendo que ela se torna e é bênção, aprendemos a alegria do cristão também nos momentos de dificuldade. O valor do testemunho é insubstituível, porque a ela conduz o Evangelho e dela se alimenta a Igreja. Santo Estêvão ensina-nos a valorizar esta lição, ensina-nos a amar a Cruz, porque ela é o caminho pelo qual Cristo vem sempre de novo entre nós.


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