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Meditações e explicações da Santa Missa, retiradas do livro “O Tesouro da Tradição – Guia da Missa Tridentina”

 

A Sor Lucía Caram: é preferível ser um ortodoxo hipócrita do que um heterodoxo sincero

Autor: José Miguel Arráiz
Fonte: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php
Trad.: Carlos Martins Nabeto

Sim, Sor Lucía, eu sei que ambas as coisas são ruins.

O ortodoxo hipócrita, porque diz que alguém deve fazer algo, porém ele mesmo não faz. Sobre estes advertiu Jesus, quando disse:

– “Fazei, pois, e observai tudo o que eles vos disserem; porém, não imiteis sua conduta, porque dizem mas não fazem” (Mateus 23,3).

Porém, maior dano ao próximo comete o heterodoxo sincero, porque ensina que não há problemas em se fazer aquilo que não deve ser feito, e ele mesmo é feliz por também fazer o que não deveria ser feito.

– “Ai daqueles que chamam o mal de ‘bem’ e de ‘bem’ o mal; aqueles que têm trevas por luz e luz por trevas; que oferecem o amargo por doce e o doce por amargo!” (Isaías 5,20).

Um diz e não faz. O outro diz o mal e faz o mal.

Esclareço isto a Sor Lucía em resposta a um artigo que reúne as suas declarações, publicado em Religion Digital[1]. Nesse artigo, ela denuncia aqueles que chama “os fariseus de hoje, raça de víboras e sepulcros caiados”, e afirma que “não se deve dar atenção aos doentes de ortodoxia hipócrita”.

Depois de ter lido tudo o que ela disse, quero responder-lhe com algumas observações pontuais, a partir da perspectiva de um simples católico de missa dominical, que não pertence a nenhuma ordem religiosa.

Antes de começar, deixo claro que não dou razão ao qualificativo que você atira ao vento, chamando os outros de “fariseus hipócritas”, porque para que você tivesse razão, deveria apontar concretamente e comprobar que esses a quem você acusa [abstratamente] realmente dizem mas não fazem.

O JESUS DO “NÃO-JUÍZO” 

Começa Sor Lucía:

– “Este era o qualificativo e a queixa de Jesus perante os fariseus, hipócritas, puritanos, que se dedicavam a esfolar a todos que não eram como eles ou aos que, segundo suas curtas visões, se afastavam da ortodoxia de uma religião que havia se tornado letra morta, no cumprimento vão (‘cumpro’ e ‘minto’)…. Se acreditavam no direito de julgar e condenar. Jesus os recriminou por se dedicarem a enxergar a palha no olho alheio sendo porém incapazes de enxergar a viga que tinham no próprio olho. Conformados com suas elucubrações e juízos implacáveis, permaneciam fechados à Boa Nova que Jesus trazia da parte de Deus e ao anúncio do seu Reino, no qual Deus se manifesta como misericórdia, perdão, acolhida, felicidade, paz, ‘não-juízo’”. 

Quando eu, um simples paroquiano, me ponho a ler a Bíblia, encontro muito daquilo que você menciona. Encontro, por exemplo, Jesus anunciando um tempo de graça e misericórdia:

– “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar aos pobres a Boa Nova; me enviou para proclamar a libertação aos cativos e a vista aos cegos; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor” (Lucas 4,18-19).

É certo também que criticou aqueles que julgavam os outros sem corrigir suas próprias faltas:

– “Como é que enxergas a palha que há no olho do teu irmão e não reparas na viga que há em teu olho?… Hipócrita! Tira primeiro a viga do teu olho e então poderás enxergar para tirar a palha do olho do teu irmão” (Mateus 7,3.5).

Porém, em todas essas oportunidades eu encontro um Jesus um pouco diferente daquele que você prega. É um Jesus que anuncia, sim, misericórdia e perdão àqueles que vivem em pecado, porém para que se arrependam e deixem de pecar. Ele não teme em estar acompanhado de pecadores, porém nunca os deixa no pecado; pelo contrário, os convida a segui-Lo e mudar. O caso da adúltera que está a ponto de ser apedrejada é claro e contundente, pois ao mesmo tempo que a perdoa, pede-lhe que não torne mais a pecar:

– “Tampouco eu te condeno. Vai-te e daqui por diante não peques mais” (João 8,11).

Com um paralítico que Jesus cura, repete-se a mesma cena; porém ali Jesus, inclusive, o adverte que, se continuar pecando, lhe poderá ocorrer algo pior:

– “Mais tarde, Jesus o encontrou no Templo e lhe disse: ‘Olha: estás curado; não peques mais, para que não te ocorra algo pior” (João 5,14).

Tampouco é correto que Jesus não fala de juízo. O Jesus do “não-juízo” é uma invenção sua. Uma coisa é que, em sua primeira vinda, não tenha vindo para julgar mas para convidar-nos a receber sua graça; e, outra coisa, que eventualmente o vá fazer. Por isso, ainda que sempre ofereça o perdão àquele que se arrepende, também adverte àqueles que são duros de coração sobre o destino que os aguarda, caso não se convertam:

– “Por isso eu vos digo que no dia do Juízo haverá menos rigor para com Tiro e Sidon do que para convosco. E tu, Cafarnaum, que te elevas até os céus? Afundarás até o Hades! Porque se em Sodoma tivessem sido feitos os milagres que foram feitos em ti, teria subsistido até o dia de hoje. Por isso eu vos digo que no dia do Juízo haverá menos rigor para com a terra de Sodoma do que para contigo”(Mateus 11,22-24).

– “Os ninivitas se levantarão no Juízo contra esta geração e a condenarão; porque eles se converteram pela pregação de Jonas e eis que aqui está alguém maior que Jonas” (Mateus 12,41).

Jesus tampouco disse que não iria julgar. Ele disse precisamente o contrário:

– “Porque o Pai não julga ninguém, mas entregou todo juízo ao Filho” (João 5,22).

– “E disse Jesus: ‘Por uma razão vim a este mundo: para que os que não enxergam passem a enxergar e para que os que enxergam se tornem cegos’” (João 9,39).

– “Quando o Filho do homem vier em sua glória, acompanhado de todos os seus anjos, então se assentará no seu trono de glória. Serão reunidas diante Dele todas as nações e Ele separará umas das outras, tal como o pastor que separa as ovelhas dos cabritos” (Mateus 25,31-32).

Não se trata portanto de um Jesus adocicado, que nunca julga nem condena, mas de um Jesus que em sua infinita misericórdia nos dá a oportunidade de nos converter uma e outra vez, para que, ao final, quando formos julgados por Ele, não venhamos a ser condenados.

AS “CARGAS PESADAS” QUE NINGUÉM PODE CARREGAR

Você também reprova aqueles a quem chama “fariseus” que colocam cargas pesadas sobre outras pessoas, cargas que nem eles próprios podem carregar. Você diz:

– “A estes, Jesus hoje também os chamaria ‘raça de víboras e sepulcros caiados’, porque impõem cargas pesadas [a outros] que eles mesmos são incapazes de carregar. A estes, lhes faz mal uma Igreja em movimento, uma Igreja que escuta, perdoa e acolhe; uma Igreja que vai às periferias e oferece resposta às interrogações reais das pessoas e que é capaz de acolher seus problemas, para os quais o Evangelho sempre tem uma proposta. A esses doutores sem cátedras de bondade, lhes contraria uma Igreja que foge do poder e que prefere o serviço; que é austera e quer ser pobre com os pobres; que prefere mais a mesa simples do que os grandes banquetes”. 

Eu não vejo que esses a quem você hoje chama de “fariseus” tenham alguma objeção em ser uma Igreja “em movimento”, que “acolhe”; e se alguém tivesse algo contra isso, tal coisa seria um outro problema. O péssimo é que se rotule como “cargas pesadas” os Mandamentos de Deus e se condene àqueles cujo único “pecado” é ensinar que [os Mandamentos] devem ser cumpridos. Lembre-se que o mesmo Jesus misericordioso de quem você fala também disse:

– “Mas se quiseres entrar na Vida, cumpre os Mandamentos” (Mateus 19,17).

– “Porém, aquele que descumprir um destes mandamentos, ainda que seja o menor deles, e assim vier a ensinar aos homens, será ele o menor no Reino dos Céus; ao contrário, aquele que os cumprir e os ensinar, esse será grande no Reino dos Céus” (Mateus 5,19).

Não somos protestantes, nem cremos que somente pela fé já somos declarados justos. Cremos que Sua graça nos faz justos e nos capacita para cumprir os Mandamentos:

– “Não sofrereis tentação superior à medida humana. Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças. Pelo contrário, com a tentação vos dará um modo de poder resisti-la com êxito” (1Coríntios 10,31).

Para um católico, os Mandamentos não são “letra morta” e nem algo tão alheio que não possamos cumprir com a Sua graça. É o próprio Deus quem nos adverte:

– “Porque estes Mandamentos que Eu te prescrevo hoje não são superiores às tuas forças, nem estão fora do teu alcance. Não estão no céu, para que precises dizer: ‘Quem subirá por nós ao céu para buscá-los, para que os ouçamos e os ponhamos em prática?’ Nem estão do outro lado do mar, para que precises dizer: ‘Quem irá por nós até o outro lado do mar para buscá-los, para que os ouçamos e os ponhamos em prática?’ Eis que a palavra está bem próxima de ti: está na tua boca e no teu coração, para que a ponhais em prática” (Deuteronômio 20,14).

Perceba que ao criticar que existam pastores que recordem ao povo a importância de se cumprir os Mandamentos, o que você critica é que cumpram com o dever que lhes foi confiado; ou, dito de outro modo: que sejam coerentes com sua fé. E aqui passo ao ponto seguinte.

COERÊNCIA POR DEUS. COERÊNCIA!

Nos tempos dos meus avós havia muitos pecadores, porém, por justiça, preciso dizer que eram pecadores coerentes. Não se lhes ocorria chamar o mal de “bem”, nem o bem de “mal”. Reconheciam-se pecadores, admitiam que era mal o que faziam e, precisamente por isso mesmo, tinham a oportunidade de posteriormente receber a graça do arrependimento. É que para poder se arrepender é necessário que primeiro se tenha consciência de que agiu mal, do contrário terminaríamos cegos como os fariseus da época de Jesus:

– “Se fosses cegos, não teríeis pecado; porém, como dizeis: ‘enxergamos’, vosso pecado permanece” (João 9,41).

O problema é que atualmente temos pastores que ao invés de denunciarem algo como pecado, para não incomodar e ser politicamente corretos, optam por não chamar o pecado pelo seu nome próprio.

Eu, quando decidi continuar católico, decidi fazê-lo de forma coerente. Dito de outro modo: se um dia eu deixo de professar a fé católica, não posso permanecer na Igreja; teria que admitir que já não o sou e sair dela.

A ação contrária seria incoerente; seria como se eu fosse um professor que já não crê na matemática e, por isso, pretendo ensinar biologia em seu lugar. E se alguém me reprova, o acuso de intolerante. “Porém, estamos numa aula de matemática!”, dirão alguns alunos e eu insistirei que sou professor de matemática, da mesma maneira que hoje há uma infinidade de teólogos que continuam insistindo que são católicos enquanto pregam ideologia e doutrinas protestantes.

Coloquemos o seu próprio caso como exemplo, Sor Lucía. Por um lado o ensino oficial da Igreja, manifestado em seu Catecismo, nos ensina que os atos homossexuais, por serem intrinsecamente desordenados, não podem receber aprovação em caso nenhum:

– “’Os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados’ (Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração ‘Persona Humana’, nº 8). São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementariedade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados” (Catecismo da Igreja Católica, nº 2357).

Entretanto, você ensina que a Igreja deve abençoar qualquer espécie de amor, incluindo as relações homossexuais:

– “Sor Lucía Caram pede à Igreja para não se meter na decisão daqueles que abortam e abençoar toda espécie de amor”[2]

Eu posso entender que você não esteja de acordo com o Catecismo e o ensino da Igreja; porém, se você não crê no que ensina a Igreja Católica, não é incoerência pretender continuar dizendo que é católica? Quem é o hipócrita? Aquele que coerentemente recorda e ensina o que diz o Catecismo ou aquele que carrega o Catecismo debaixo do braço mas não crê no que está dito ali?

Passemos agora para o caso do aborto. Na entrevista anteriormente citada, você diz que um católico não deve dizer nada a uma mulher que deseje abortar:

– “Contudo, quem deve tomar livremente a decisão (de abortar) são as pessoas. A Igreja não pode se meter aí. Nem sequer Deus, que nos fez livres” (Sor Lucía Caram).

Porém, por outro lado, a Igreja ensina que o aborto é sempre um crime, um assassinato de um ser indefeso no seio de sua mãe, e que sua mãe não tem o direito moral de tirar-lhe a vida. O Papa Francisco, que você sempre elogia, disse isso bem claramente:

– “O Papa Francisco declara que o aborto é SEMPRE um crime”[3]

E se é assim e o Papa tem razão, você está dizendo que nem a Igreja, nem Deus, nem ninguém pode dizer nada a uma mulher que se dispõe a cometer um crime. Isso é tão absurdo quanto não se poder dizer nada a um assassino que se dispõe a matar a sua vítima, alegando que Deus lhe deu liberdade (você deve aprender a diferenciar entre “liberdade moral” e “liberdade psicológica”).

O que você acha que Jesus pensaria – Ele que também não duvidou em expulsar a chicotadas os mercadores do templo – de uma freira que, dizendo-se “católica”, afirma que devemos ficar de braços cruzados quando alguém vai cometer um crime e que qualquer espécie de amor deve ser abençoado? E se eu, amanhã, me apaixonar por um animal, Ele também abençoará? Me parece que Ele provavelmente a expulsaria do convento.

A RAIZ DO PROBLEMA

Segundo o meu modo de ver, uma das principais doenças de que sofrem os católicos hoje é a mesma que acomete o mundo inteiro: buscar a paz a todo custo, evitando confrontos. Por exemplo, se o ensino do Catecismo incomoda os homossexuais, a solução para alguns seria pedir-lhes perdão por crermos no que cremos:

– “Cardeal Marx: a Igreja deve pedir perdão aos homossexuais. ‘Não se pode dizer que uma relação (homossexual) entre dois homens, se são fiéis, não tem nenhum valor'”[4]

(Quanto a isto, lamentei ver como o Papa, ao ser consultado, evitou o centro da questão.)

E assim temos que enquanto o Catecismo oficialmente ensina que as relações homossexuais “não podem receber aprovação em nenhum caso”, um cardeal “católico” diz que não só podem receber aprovação, como também têm valor inclusive. Como dizemos aqui em meu país: ou é carne ou é limonada; ou ensinam uma coisa, ou ensinam outra; entretanto, se prosseguirmos assim, contrairemos um transtorno bipolar.

O mais grave é que neste estado de patetismo espiritual, o cumprir o dever cristão de denunciar objetivamente aquilo que é pecado converte aquele que o faz naquilo que Sor Lucía Caram chama de “ortodoxo hipócrita”. Não haverá uma Sor Lucía Caram à altura de um São João Batista, capaz de perder a cabeça ao denunciar o adultério do rei Herodes; pelo contrário, as Sor Lucía Caram de hoje seriam o equivalente às Herodíases, que pedirão a cabeça de João com a desculpa de não se condenar ninguém (cf. Marcos 6,24).

Contudo, se todos nos tornarmos católicos diluídos, patéticos, pusilânimes, incapazes de denunciar o que é mal, já não seremos luz do mundo, nem sal da terra; só serviremos mesmo para ser pisoteados:

– “Vós sois o sal da terra. Mas se o sal perde seu sabor, com o que se salgará? Já não serve para mais nada; será lançado fora e pisoteado pelos homens” (Mateus 5,13).

Hoje há uma grande escassez de católicos combatentes, diferentemente de outras épocas em que abundaram e foram a glória da Igreja. Precisamos hoje de um Santo Agostinho e suas incontáveis apologias contra os erros; ou de um Santo Ireneu, que enfrentou todas as heresias do seu tempo. Se vivesse hoje Santo Atanásio, teólogos como José Antonio Pagola, Andres Torres Queiruga e muitos outros não encontrariam lugar para se esconderem. Hoje é melhor calar: “viva e deixe viver”, apesar de Jesus nos dar, no Evangelho, uma mensagem curta mas contundente:

– “Crês que vim aqui para trazer paz à terra? Vos asseguro que não, mas divisão. Porque a partir de agora haverá cinco em uma casa e estarão divididos: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai; a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra” (Lucas 12,51-53).

Pregar a verdade sempre poderá trazer confrontos porque a mensagem evangélica nos obriga a tomar partido. Ou és luz ou és trevas. Ou denuncias o mal ou te calas covardemente. Não há nada de errado em dizer ao outro que ele está equivocado, quando por nossa fé temos a certeza de que ele está errado. Não se trata de impor nossas razões, não se trata de obrigá-los a crer; trata-se de expor a verdade como um ato de caridade para com o irmão. Se nós estivéssemos equivocados e alguém soubesse disso, é claro que quereríamos que isso nos fosse dito.

Para que compreendam na prática esta doença que acomete o mundo de hoje e que tem infectado também os católicos que querem ser sempre politicamente corretos e estarem de bem com Deus e com o diabo, convido que assistam a este interessante vídeo sobre a ideologia do gênero. Ainda que não trate do nosso tema em específico, reflete com lucidez esse tipo de mentalidade.

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NOTAS:
[1] http://www.periodistadigital.com/religion/opinion/2016/08/14/religion-iglesia-espana-opinion-sor-lucia-caram-no-hay-que-hacerles-caso-a-los-enfermos-de-ortodoxia-hipocrita.shtml
[2] http://infocatolica.com/?t=noticia&cod=19779
[3] https://www.aciprensa.com/noticias/que-lo-sepa-todo-el-mundo-el-aborto-siempre-es-un-crimen-afirma-el-papa-francisco-37048/
[4] http://www.periodistadigital.com/religion/mundo/2016/06/27/religion-iglesia-mundo-marx-iglesia-homosexuales-perdon-justicia-reconocimiento.shtml

Martinho Lutero tinha razão?

Autor: José Miguel Arráiz
Fonte: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php
Trad.: Carlos Martins Nabeto

Já há algum tempo temos ouvido de altos prelados da Igreja reconhecimentos e elogios à figura de Lutero. Se tem dito de tudo, desde coisas moderadas (em que se admite que ele pode ter sido movido por uma boa e reta intenção) até louvores desmedidos (situando-o como parte da grande Tradição da Igreja ou até se admitindo que teve razão no que diz respeito à doutrina da justificação). A partir da ponto de vista de um leigo, quero neste artigo compartilhar o que considero acertado e desacertado nestes elogios politicamente corretos feitos em nossa época sobre a figura e doutrina de Lutero.

SOBRE AS BOAS INTENÇÕES DE MARTINHO LUTERO 

Saber exatamente quais eram as intenções de Lutero para agir como agiu nos tempos da Reforma Protestante é algo impossível, pois como todos nós sabemos, o fôro interno só é conhecido por Deus. O que podemos, sim, fazer é formar uma opinião aproximada e falível, evitando cair em juízo temerário quanto ao que o próprio Lutero admitia e o estudo objetivo dos fatos históricos. A partir desta perspectiva, o máximo que se poderia admitir, na melhor das hipóteses, como mera possibilidade, é que Lutero pode ter agido com o que chamamos “consciência reta” ainda que errônea.

Tal como tradicionalmente nos foi ensinado, age em “consciência reta” quem julga da bondade ou malícia de um ato com fundamento e prudência, diferentemente da “consciência falsa”, que julga com irreflexão e sem fundamento sério. Ao contrário, age com “consciência verdadeira” aquele que além de agir em consciência reta, acerta em seu juízo e age de acordo com ao ordem moral objetiva. Não se deve confundir a “consciência reta” com a “conciência verdadeira”. Uma pessoa pode agir com consciência reta quando, com suas limitações, colocou todo o empenho em agir corretamente independentemente de acertar (consciência verdadeira) ou se equivocar por algum erro especulativo (consciência errônea). Age em consciência reta invencivelmente errônea quem, depois de ter feito todo o possível para agir corretamente, ainda assim erra, porém age de acordo com o que a sua consciência lhe dita, consciência que, neste caso, estaria deficientemente formada.

Nos próprios escritos de Lutero o encontramos admitindo que passou por uma intensa luta interior, onde lhe atormentava pensar que poderia ter agido equivocadamente, mas que finalmente ficou convencido de que agia para a glória de Deus. A este respeito, escreveu Lutero:

– “Certa vez [o diabo] me atormentou e quase me estrangulou com as palavras de Paulo a Timóteo; tanto que o coração se me queria dissolver no peito: ‘Tu foste a causa de que tantos monges e monjas abandonassem seus mosteiros’. O diabo habilmente me tirava da vista os textos sobre a justificação… Eu pensava: ‘Quem ordena estas coisas és somente tu; e, se tudo for falso, tu serás o responsável por tantas almas caírem no inferno’. Com essa tentação cheguei a sofrer tormentos infernais, até que Deus me tirou dela e me confirmou que meus ensinamentos eram palavra de Deus e doutrina verdadeira” (Martinho Lutero, Tisch. 141,I,62-63).

– “Antes de tudo, o que temos que estabelecer é se nossa doutrina é palavra de Deus. Se isto se verifica, estamos certos de que a causa que defendemos pode e deve ser mantida, e não há demônio que possa lançá-la abaixo… Eu, em meu coração, já rejeitei qualquer outra doutrina religiosa, seja ela qual for, e venci aquele molestíssimo pensamento que o coração murmura: ‘Tu és o único que possuis a palavra de Deus? E os demais, não a têm?’… Tal argumento o acho válido para todos os profetas, àqueles que também se lhes foi dito: ‘Vós sois poucos, o povo de Deus somos nós’” (Martinho Lutero, Tisch. 130,I,53-54).

Parece que Lutero nunca se livrou da dúvida e, ao longo dos anos, retornava a ele um persistente peso de consciência, que identificava como tentações do demônio. No ano de 1535, já na avançada idade de 52 anos, admite todavia que acha o argumento “bastante capcioso e robusto dos falsos apóstolos”, que lhe impugnam deste modo: “Os apóstolos, os Santos Padres e seus sucessores nos deixaram estes ensinamentos; tal é o pensamento e a fé da Igreja. Pois bem, é impossível que Cristo tenha deixado a sua Igreja errar por tantos séculos. Somente tu sabes mais que tantos homens santos e que toda a Igreja… Quem és tu para atrever-te a dissentir de todos eles e para colocar-nos violentamente um dogma diverso? Quando Satanás urge este argumento e quase conspira com a carne e com a razão, a consciência se aterroriza e desespera, e é preciso entrar continuamente dentro de si mesmo e dizer: ainda que os santos Cipriano, Ambrósio e Agostinho; ainda que São Pedro, São Paulo e São João; ainda que os anjos do céu te ensinem outra coisa, isto é o que eu sei de certo: que não ensino coisas humanas, mas divinas; ou seja, que [no negócio da salvação] tudo o atribuo a Deus e nada aos homens” (WA 40,1; pp.130-131).

O certo é que se tal boa intenção existiu, a soberba pouco a pouco o levou a afastar-se cada vez mais do ideal evangélico, enchendo seu coração de ódio e maldições, como ele mesmo admitiu:

– “Visto que não posso rezar, tenho que maldizer. Direi: ‘Santificado seja teu nome’, porém acrescentarei: ‘Maldito, condenado e desonrado seja o nome dos papistas e de todos quantos blasfemam o teu nome’. Direi: ‘Venha teu reino’, e acrescentarei: ‘Maldito, condenado e destruído seja o papado com todos os reinos da terra, contrários ao teu reino’. Direi: ‘Faça-se tua vontade’, e acrescentarei: ‘Malditos, condenados, desonrados e aniquilados sejam todos os pensamentos e planos dos papistas e de quantos maquinam contra a tua vontade e conselho’. Verdadeiramente, assim rezo todos os dias, sem cessar, oralmente e com o coração; e comigo, todos quantos crerem em Cristo” (WA 30,3; p.470).

O cardeal Joseph Ratzinger, antes de se tornar Papa, pontualizou a este respeito:

– “Há que se levar em conta que não só existem anátemas por parte católica contra a doutrina de Lutero, como também existem desqualificações bastante explícitas contra o Catolicismo por parte do reformador e de seus companheiros; reprovações que culminam na frase de Lutero de que restamos divididos para a eternidade. É este o momento de referir-nos a essas palavras cheias de raiva pronunciadas por Lutero em relação ao Concílio de Trento, nas quais restou finalmente clara sua rejeição à Igreja católica: ‘Teria que fazer prisioneiro ao Papa, aos cardeais e a todos esses canalhas que o idolatram e santificam; tê-los por blasfemos e logo arrancar-lhes a linguagem coalhada; colocá-los todos na fila da forca… Então se lhes poderia permitir que celebrassem o Concílio, ou o que quer que seja, a partir da forca ou no inferno, com os diabos’” (Card. Joseph Ratzinger, “Igreja, Ecumenismo e Política: novos ensaios de eclesiologia”, Biblioteca de Autores Cristãos, Madri, 1987, p. 120).

Uma vez mergulhado nessa espiral de loucura, todos aqueles que divergiam de Lutero em qualquer ponto de doutrina ou o consideravam inimigo era objeto dos qualificativos mais sujos e vulgares: ao duque Jorge da Saxônia, chama-o de “assassino”, “traidor”, “infame” “assassino profissional”, “derramador de sangue”, “patife sem-vergonha”, “mentiroso”, “maldito”, “cão”, “sanguinário”, “demônio”. Os insultos contra o Papa sempre foram uma constante e é quase impossível contabilizá-los: “anticristo maldito”, “burro papal”, “asno papal”, “bispo dos hermafroditas e Papa dos sodomitas”, “apóstolo do diabo”. Não só os católicos eram objeto de seus opróbrios, como também passaram a alcançar os próprios protestantes: a Tomás Münzer chama-o de “arquidemônio que não realiza senão latrocínios, assassinatos e derramamentos de sangue”; seu aliado Andreas Karlstadt, quando passa a divergir dele, se transforma em um “sofista, essa mente louca”, “muito mais louco que os papistas”; o mesmo ocorre com Ulrico Zwinglio, que quando nega a presença de Cristo na Eucaristia passa a ser “digníssimo de santo ódio, pois age tão indecente e maliciosamente em nome da santa palavra de Deus” e um “servidor do diabo”.

É evidente que Lutero não era precisamente a pessoa ideal para tentar reformar a Igreja; e já passados tantos séculos desde aqueles acontecimentos, resta claro que a figura do reformador protestante não tem por que seguir separando católicos e protestantes. Eu mesmo, que não nutro simpatia por tão sinistro personagem, não teria problema em admitir que pode ter tido, no começo, justa indignação pelos abusos no tráfico de indulgências, ou que estava sinceramente convencido de estar na verdade. E ao admitir isto, não vejo que esteja sendo concedido a ele qualquer grão de razão.

DO OBSCURECIMENTO DO SENTIDO DA GRATUIDADE DA SALVAÇÃO NA IGREJA CATÓLICA 

Porém, outro dos louvores que se costuma ouvir a respeito da figura de Lutero e que já começa a ser preocupante, é aquele onde se admite e sustenta que durante séculos perdeu-se, na Igreja Católica, o sentido da gratuidade da salvação divina e foi Lutero quem teve o mérito de recuperá-la. Quanto a isso, pode-se mencionar concretamente a pregação feita pelo padre Rainiero Cantalamessa, em março deste ano [de 2016], na Basílica de São Pedro, em que afirmou o seguinte:

– “Existe o perigo de que alguém ouça falar da justiça de Deus e, sem saber o significado, ao invés de animar-se, se assuste. Santo Agostinho já o havia explicado claramente: “A ‘justiça de Deus’ – escrevia ele – é aquela pela qual Ele nos faz justos mediante sua graça; exatamente como ‘a salvação do Senhor’ (Salmo 3,9) é aquela pela qual Ele nos salva” (Do Espírito e da Letra 32,56). Em outras palavras: a justiça de Deus é o ato pelo qual Deus faz justos, agradáveis a Ele, aos que crerem em seu Filho. Não é um ‘fazer-se justiça’, mas um ‘fazer justos’. Lutero teve o mérito de trazer à luz esta verdade, depois de que, durante séculos, pelo menos na pregação cristã, se havia perdido o sentido; e é isto, sobretudo, o que a Cristiandade deve à Reforma, a qual no próximo ano cumpre o quinto centenário. “Quando descobri isto – escreveu mais tarde o reformador – senti que renascia e me parecia que se me abriram de par em par as portas do paraíso”” (Prefácio às obras em latim, ed. Weimar 54, p.186).

Se bem que seja possível que na época de Lutero alguns pregadores de indulgências pudessem deixar em segundo plano a doutrina sobre a gratuidade da graça (desconheço até que ponto), não é justo atribuir isto à pregação cristã da Igreja durante séculos. Como bem fez notar o sacerdote e doutor em teologia José María Iraburu em um artigo publicado recentemente[1], sustentar isto é cometer uma grande injustiça para com aqueles pregadores que mais prestígio e influência tiveram na Cristiandade de seu tempo, tanto antes como depois da época de Lutero, e que ensinaram sempre a verdadeira doutrina católica da graça e da justificação, e estavam livres de toda espécie de pelagianismo ou semipelagianismo; entre eles, recordou: Santa Hildegarda de Bingen (+1179), São Domingo de Gusmão (+1221), São Francisco de Assis (+1226), Santo Antonio de Pádua (+1231), Beato Ricério de Múcia (+1236), Davi de Augsburgo (+1272), São Tomás de Aquino (+1274), São Boaventura (+1274), Santa Gertrudes de Helfta (+1302), Santa Ângela de Foligno (+1309), mestre Eckahrt (+1328), Taulero (+1361), Beato Henrique Suson (+1366), Santa Brígida da Suécia (+1373), Santa Catarina de Sena (+1380), Ruysbroeck (+1381), Beato Raimundo de Cápua (+1399), São Vicente Férrer (+1419), São Bernardino de Sena (+1444), São João de Capistrano (+1456), Tomás de Kempis (+1471), Santa Catarina de Gênova (+1507), Barnabé de Palma (+1532), Francisco de Osuna (+1540), Santo Inácio de Loiola (+1556), São Pedro de Alcântara (+1562), São João d’Ávila (+1569), e tantos outros.

Realmente se pode afirmar com justiça que estes santos, doutores, pregadores e mestres espirituais desconheceram em suas pregações a gratuidade da justificação do homem pela graça que na fé tem seu início? Obscureceram em seu tempo, “durante séculos”, “ao menos na pregação” ao povo, o entendimento da salvação como pura graça concedida pelo Senhor gratuitamente? As pregações de todos esses mestres e doutores, conservadas hoje em dia, são uma clara evidência de que isso não é certo; e ainda que tenhamos o mais nobre desejo de melhorar as relações com nossos irmãos luteranos, a solução não pode ser lançada injustamente contra os nossos antepassados na fé…

DIFERENÇAS ENTRE A DOUTRINA CATÓLICA E A LUTERANA 

Para compreender quais são as diferenças reais que subsistem entre a doutrina católica e a luterana, temos que resumir, ainda que seja bem brevemente, os erros do ex-monge alemão:

A concupiscência é sempre pecado 

Nós, católicos, cremos que se comete pecado ao consentir o impulso pecaminoso, não simplesmente ao senti-lo. Para Lutero, ao contrário, a concupiscência é pecado já em si mesma, formal e imputável. Este primeiro erro conduziu Lutero a uma vida de tormento, porque apesar de todas as boas obras que tentava fazer, não conseguia alcançar a paz interior ao sentir-se constantemente em pecado mortal e próximo da condenação eterna.

Neste estado psicológico, Lutero foi conduzido ao seu segundo erro: a negação total da liberdade humana.

O homem não é livre 

Tal como sustenta Lutero, em sua obra “De Servo Arbitrio”, o pecado original destruiu totalmente o livre arbítrio da pessoa humana. Para o ex-monge alemão, o homem é já incapaz de fazer alguma obra boa; portanto todas as suas obras, ainda que tenham uma aparência bela, são, não obstante e provavelmente, pecados mortais… E se as obras dos justos são pecado, como afirma sua conclusão, com maior motivo o são as dos que ainda não foram justificados.

A doutrina católica ensina, ao contrário, que em razão do pecado original o livre arbítrio encontra-se debilitado, porém não aniquilado, e que ainda que para efetuar atos saudáveis (atos que conduzem à salvação) é imprescindível a graça de Deus, podendo realizar sem a ajuda da graça obras moralmente boas.

O homem se justifica somente pela graça através da fé fiducial ou fé somente 

O terceiro erro de Lutero parte do anterior, pois conclui que se o homem não é livre, aqueles que se salvam o conseguem porque Deus lhes outorga a salvação de uma forma absolutamente passiva e extrínseca. O homem não coopera em nada para sua salvação, mas tudo se resolve pela certeza subjetiva de ter sido justificado pela fé graças à imputação dos méritos de Cristo. Basta aceitar Cristo como salvador e confiar em estar salvo para assegurar a salvação, independentemente se age conforme à vontade de Deus ou se descumpre os Mandamentos.

A partir desta perspectiva, o homem continua sendo pecador, porém é declarado justo, de uma forma semelhante como se tomássemos um homem maltrapilho e sujo e o cobríssemos sem lavá-lo com uma túnica esplêndidamente branca. Ao olhar para ele, o Juiz miraria a túnica branca e resplandecente (que representa Jesus Cristo, o qual morreu por nossos pecados) ao invés da sujeira que se encontra debaixo dela.

Nós, católicos, ao contrário, cremos que podemos cooperar na nossa justificação, não com nossas próprias forças, mas porque a graça nos inspira e nos capacita para fazê-lo. Cremos, ademais, que Deus não só nos declara justos, como também nos faz justos; que nos santifica e renova, de modo que, por meio da graça, somos uma nova criatura. Consequentemente, devemos viver como nova criatura. A fé deve fazer-se efetiva no amor, no cumprimento dos Mandamentos e nas obras de caridade.

A doutrina luterana, ainda que piedosamente envernizada e ainda que pretenda dar primazia à graça, no fundo apresenta uma noção deficiente da mesma, crendo que ela é impotente na hora de transformar o homem, não o tornando verdadeiramente santo, conformando-se então por declará-lo somente justo, permanecendo imundo e pecador.

Os justificados não podem perder sua salvação 

Se se conclui erroneamente que o homem se salva somente pela fé, é compreensível que se conclua que o crente justificado não pode perder sua salvação ainda que não obedeça os Mandamentos e cometa pecados graves. Daí que em 1521, a 1º de agosto, escreve Lutero em uma carta a Melanchthon:

– “Se és pregador da graça, prega uma graça verdadeira e não fictícia; se a graça é verdadeira, deves cometer um pecado verdadeiro e não um fictício. Deus não salva os que são somente pecadores fictícios. Seja um pecador e peca audazmente, porém crê e alegra-te em Cristo ainda mais audazmente… enquanto estivermos aqui [neste mundo] temos que pecar… Nenhum pecado nos separará do Cordeiro, ainda que forniquemos e assassinemos mil vezes ao dia”. 

Nós, católicos, ao contrário, cremos que o crente justificado pode decair do estado de graça de Deus se comete pecado mortal. O Evangelho está cheio de advertências neste sentido. Cristo nos fala daquele ramo (crente) que deixa de dar fruto (fazer boas obras) e é cortado e lançado ao fogo (João 15); deixa claro que não somente aquele que confessa sua fé Nele entrará no Reino dos Céus, como também aquele que faz a vontade de Deus (Mateus 7,21). Quando o jovem rico pergunta a Jesus o que deve fazer para salvar-se, Ele lhe responde que cumpra os Mandamentos (Mateus 19,17). A epístola de São Tiago, em seu capítulo 2, contém praticamente uma refutação formal às teses de Lutero, a ponto de que este tentou por todos os meios excluí-la da Bíblia e a qualificou como “a epístola de palha”.

OS ERROS DERIVADOS DA DOUTRINA DE LUTERO 

Porém, os erros de Lutero não acabaram ali e, como uma fila de peças de dominó que cai um atrás do outro, seguiram-se multiplicando. Nesse sentido pontualizou o cardeal Joseph Ratzinger:

– “Lutero, após a ruptura definitiva, não só rejeitou categoricamente o papado, como também qualificou de idolátrica a doutrina católica da missa, porque via nela uma recaída na Lei, com a consequente negação do Evangelho. Reduzir todas estas confrontações a simples mal-entendidos é, no meu modo de ver, uma pretensão iluminista, que não indica a verdadeira medida do que foram aquelas lutas guiadas pela paixão, nem o peso da realidade presente em suas alegações. A verdadeira questão, portanto, pode unicamente consistir em nos perguntar até que ponto, hoje, é possível superar as posturas de então e alcançar um consenso que vai além daquele tempo. Em outras palavras: a unidade exige passos novos e não se realiza mediante artifícios interpretativos. Se em seu dia [a divisão] se realizou com experiências religiosas contrapostas, que não podiam encontrar espaço no campo vital da doutrina eclesiástica transmitida, tampouco hoje a unidade se forja somente mediante discussões multifacetadas, mas com a força da experiência religiosa. A indiferença é um meio de união tão somente na aparência” (Card. Joseph Ratzinger, “Igreja, Ecumenismo e Política: novos ensaios de eclesiologia”, Biblioteca de Autores Cristãos, Madri, 1987, pp. 120-121).

Dito em linguagem simples: as diferenças existem e ignorá-las não fará que desapareçam, ponto este que tratarei a seguir.

ESTAMOS HOJE DE ACORDO, CATÓLICOS E PROTESTANTES, NO QUE DIZ RESPEITO À DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO? 

O Papa Francisco, aludindo ao Acordo Católico-Luterano a respeito da justificação, de 1999[2], declarou em uma entrevista que “hoje em dia, os protestantes e os católicos estão de acordo quanto a doutrina da justificação”.

Com todo o respeito que o Papa merece e compreendendo que este tipo de declaração pode ser motivada pela boa intenção de buscar uma aproximação entre católicos e protestantes, creio que se somos realistas temos que aceitar que a situação é bem diferente. Em primeiro lugar, teria que matizar que a referida declaração somente foi firmada pela Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial. Tal Federação representa apenas um conjunto de igrejas luteranas, as quais não abarcam nem 7% do protestantismo e nem sequer a totalidade do luteranismo. É um fato lamentável porém certo que a rejeição do acordo foi praticamente total pelas demais denominações cristãs, incluindo as batistas, metodistas, calvinistas, pentecostais, etc.

E como fez notar acertadamente Luis Fernando Pérez em um artigo publicado em Infocatólica[3], inclusive dentro do próprio luteranismo tal acordo foi amplamente rejeitado por centenas de teólogos e pela Igreja Evangélica da Dinamarca (luterana), com um argumento cheio de senso comum: trata-se de um texto que o próprio Lutero teria rejeitado, pois se aproxima da doutrina católica sobre a justificação e se afasta do “sola fide” do ex-monge agostiniano alemão.

O teólogo protestante José Grau explicou isso da seguinte maneira:

– “O chamado Acordo sobre a Justificação, de 1999, da mesma forma que as conversações que serviram de prolegômenos nas duas últimas décadas do século XX, faz com a doutrina da justificação o mesmo que fez Trento com o agostinianismo: se aproxima semanticamente de Lutero (ainda que sem condená-lo nominalmente, especificamente, sem tampouco levantar a excomunhão vaticana que pesa sobre ele). E assim como em Trento a Igreja Romana descafeinou Agostinho (nota nossa: isto é falso), agora estes luteranos, de braços dados com os católicos, descafeínaram Lutero. O resultado prático não é outro senão a inutilização da ‘dinamite’ da mensagem reformada, luterana, protestante e sobretudo bíblica (o Evangelho é poder ‘dinamite’ de Deus ‘para salvação de todo aquele que crê’, Romanos 1:16), anulando a espoleta das doutrinas da graça mediante uma terminologia teológica que parece do agrado de todos quando lida de passagem, sem se aprofundar nos conceitos. Umas afirmações equilibram as outras de sinal diferente, sem entrar quase nunca no miolo fundamental da questão. Como escreve Pedro Puigvert, na carta a ‘La Vanguardia’ (de 05/11/1999): ‘Os católicos não cederam em nada, porque isso de confessar que a justificação é obra da graça de Deus o têm crido sempre, juntamente com a cooperação humana que agora resulta que também é fruto da graça, ainda que a Escritura o desminta quando diz: ‘Àquele que age não se lhe conta o salário como graça, mas como dívida; mas ao que não age e crê Naquele que justifica o ímpio, sua fé lhe é contada por justiça’ (Romanos 4:5-6). Roma ganhou a batalha doutrinária. Ah, se Lutero erguesse a cabeça!”. 

Pessoalmente, gostaria de compartilhar daquela apreciação do Papa e crer que os católicos e evangélicos verdadeiramente chegamos a professar uma mesma fé a respeito do tema “justificação”; porém, a crua realidade é outra: nem sequer os próprios protestantes, entre eles mesmos, estão de acordo neste tema.

LUTERO TEVE RAZÃO NO QUE DIZ RESPEITO À DOUTRINA DA JUTIFICAÇÃO? 

Hoje está na moda dar razão a Lutero: é politicamente correto. Cremos agora, católicos e evangélicos, que o homem é justificado por meio da graça de Deus? Sim, porém sempre temos crido nisso. O problema está quando se afirma, a respeito das diferenças doutrinárias reais que existiram e existem entre a doutrina católica e a luterana, que Lutero era quem tinha razão.

Se a doutrina de Lutero, que foi condenada dogmaticamente por um Concílio Ecumênico e dogmático, resulta na doutrina verdadeira, seria melhor apagar as luzes e irmos embora, porque então terão razão também os protestantes ao afirmarem que não precisamos nem de Papas nem de Concílios, já que se é como eles sustentam, [Papas e Concílios] podem equivocar-se quando definem aquilo que é dogma de fé.

E se tudo se trata de um gesto diplomático, é necessário recordar, como nos foi sempre ensinado, que um ecumenismo que não encontra-se fundamentado na verdade não é um verdadeiro ecumenismo, e por mais que posemos juntos e sorridentes para as fotos, não estaremos mais próximos hoje uns dos outros como estávamos há 500 anos.

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NOTAS:
[1] http://infocatolica.com/blog/reforma.php/1603310952-370-elogiando-a-lutero-1-cant
[2] http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/documents/rc_pc_chrstuni_doc_31101999_cath-luth-joint-declaration_sp.html
[3] http://infocatolica.com/blog/coradcor.php/1606291202-no-hay-acuerdo-real-catolico

Deus castiga? (Parte 1: O paradoxo de Epicuro)

Autor: José Miguel Arráiz
Fonte: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php
Trad.: Carlos Martins Nabeto

Como “promessa é dívida”[1], inicio aqui uma nova série de artigos, em que analiso a nova edição do livro “Deus não castiga”, de Alejandro Bermúdez Rosell, que está à venda na Amazon. Neste artigo começarei analisando uma das principais objeções: a de que, segundo suas próprias palavras, nunca recebeu resposta. Eis o que ele diz:

– “Nunca recebemos uma resposta direta às imensas objeções que apresentamos, filosófica e teologicamente, se se afirma que, com efeito, Deus castiga… A filosofia levanta o desafio que tradicionalmente é conhecido como ‘paradoxo de Epicuro’. O desafio atribuído ao filósofo grego Epicuro (341-270 a.C.) é este:

‘Ou Deus quer evitar o mal e não pode;
ou Deus pode e não quer;
ou Deus não quer e não pode;
ou Deus pode e quer’

Portanto, se o mal existe, ou Deus é perverso, ou Deus não existe.

Ao longo de 2014, aqueles que afirmam que ‘Deus castiga’ foram incapazes de explicar a resposta filosófica que o Catolicismo possui diante deste paradoxo e se limitaram a repetir citações do Magistério e da Escritura…

Aqueles que vêm insistindo [na tese] de que Deus castiga jamais responderam como sua proposta teológica – que creem confirmada pelo mero apelo a citações – é compatível com a resposta filosófica católica. No máximo, um dos ‘castigadores’ se limitou a apontar no Twitter que coisa NÃO significa que Deus castiga… e sem explicar que coisa, sim, significa que assim seja!”

Não é verdade que não lhe foi dada uma resposta. Antes de começar, é necessário esclarecer – em honra à verdade – que a afirmação de que não lhe foi dada uma resposta para essa questão não é verdadeira. Quero recordar a Alejandro que a essa exata objeção dediquei um artigo completo intitulado:

– “Resposta a Alejandro Bermúdez: O castigo é um mal que Deus pretende em ordem a um bem maior”[2]

E não só eu, como também Nestor Martinez, professor de filosofia católica e meu companheiro aqui em Infocatólica, o fez em:

– “A razão teológica e o castigo divino”[3]

Outra grave falta à verdade verifico quando ele sustenta que “no máximo, um dos ‘castigadores’ se limitou a apontar no Twitter que coisa NÃO significa que Deus castiga… e sem explicar que coisa, sim, significa que assim seja!”. Isto também é falso, visto que eu dediquei a primeira intervenção[4] para explicar o que se deve entender quando é dito que Deus castiga.

Não acho bom, tampoco, que ele se refira ambiguamente ao Fr. Nelson Medina como “um dos ‘castigadores’”, perseverando na atitude de esconder dos seus leitores a identidade e os argumentos dos seus oponentes. Frei Nelson Medina é um conhecido teólogo e pregador internacional, que contribuiu para o debate, primeiro no Twitter e depois no seu blog[5]. Em tal intervenção, Fr. Nelson não pretendia tornar a repetir o que já havíamos dito, mas ajudar a esclarecer como NÃO SE DEVE entender o castigo divino, de modo a não transmitir uma imagem distorcida de Deus. O mesmo fez Mons. José Ignacio Munilla, bispo de San Sebastián, quando participou do debate e afirmou que era um erro negar que Deus castigava; porém, disse que era necessário entender isto corretamente[6].

O problema filosófico de Epicuro

Uma vez esclarecido o anterior, podemos mergulhar de cabeça na análise do problema filosófico de Epicuro e se ele realmente representa uma objeção quanto ao tema do castigo divino. Porém, antes é oportuno repassar brevemente alguns conceitos básicos de Teologia, como o são o significado de castigo, pena, mal, etc.

– O castigo é simplesmente a pena que se impõe a quem cometeu um delito ou falta.

– A pena é a privação de um bem, que uma criatura racional sofre involuntariamente por uma culpa própria. A pena é, portanto, um mal (“malum poenae”) derivado de otro mal (“malum culpae”).

– O mal não é outra coisa senão a ausência de bem.

O problema filosófico de Epicuro levanta [a hipótese de] que se Deus existisse, não poderia existir o mal, salvo se Deus não fosse bom ou não fosse onipotente. Alejandro parte daqui e recorre a um sofisma que faz ver que, como o castigo é um mal, Deus não pode nunca querer castigar.

Por trás deste raciocínio, existem dois erros; é importante revelá-los:

1) Não distingue entre o mal físico e o mal moral; e entre ser a causa direta e indireta.

Alejandro insiste que Deus não castiga porque não pode ser causa direta do mal. Pois bem: não está em discussão que possa sê-lo, porque como já dissemos, o mal não tem causa direta, por ser a ausência de bem. Dizer o contrário seria cair em Maniqueísmo. Eu mesmo afirmei que Deus não pode ser causa direta do mal em meu livro “Deus Castiga”, na página 43.

O que ocorre é que, por Deus não ser causa direta do mal, não se deduz que não castigue. Tampouco se deduz que não possa pretendê-lo, querê-lo ou ser sua causa indireta.

“Espere um instante! Você quer dizer que Deus pode ser causa indireta do mal? Você quer dizer que Deus pode pretender o mal ou querê-lo?” – É neste ponto que devemos nos deter e pensar com calma, para não confundir.

Em primeiro lugar, devemos distinguir entre o “mal físico” (a doença, o sofrimento, etc.) e o “mal moral” (o pecado). Quanto ao “mal moral”, Deus não o pretende nem o quer, nem como meio nem como fim; isto porque, além de repugnar à santidade infinita de Deus, envolve ainda a subversão da ordem necessária que toda criatura inteligente e livre diz acerca de Deus como último fim. Contudo, isto não impede que Deus permita sua existência; isto porque essa permissão não envolve uma aprovação do mesmo, e de outro lado, Deus não tem nenhuma obrigação de impedir sua existência.

Porém, quanto ao “mal físico”, Deus pode, sim, pretendê-lo como um meio para obter um fim superior: pode querer uma doença para obter uma conversão; ou um sofrimento específico para purificar-nos.

Portanto, negar que Deus possa, em determinada circunstância, pretender o mal físico como meio para obter um bem maior não implica somente negar que Deus castigue, como também negar que possamos ser purificados através dos sofrimentos. Ainda que o sofrimento e o castigo sejam conceitos distintos e nem sempre necessariamente relacionados (já que nem todo sofredor sofre porque está em pecado), sabemos que ambos são ordenados pela Providência Divina para obter um bem maior. No Evangelho vemos uma infinidade de exemplos, desde o caso do cego de nascença (que o próprio Jesus afirma que assim nasceu para que se manifestasse a glória de Deus) até o caso do emudecimento temporário de Zacarias (assim castigado e então purificado de sua incredulidade).

Quanto a isto, sugiro a leitura integral da explicação do Cardeal Zeferino González, em sua obra “Filosofia Elementar”[7], que coloquei ao final, nas Notas. Você também encontrará aí uma explicação completa de São Tomás de Aquino[8].

2) Reduz a pena a um mero mal

Eis aqui otro erro de Alejandro porque, como explica São Tomás, é errôneo ignorar que a pena contém dois elementos, isto é, a “razão de mal” (já que é a privação de algum bem) e a “razão de bem” (já que tanto é justa quanto ordenada). Segundo São Tomás, este erro foi cometido também por alguns filósofos pagãos, como Cicero; daí deduziram que o castigo não provinha de Deus.

A seguir, compartilho a explicação de São Tomás que, apesar de ter sido escrita há muito tempo, mostra que a objeção não mudou em absolutamente nada; até parece que enxergamos o próprio São Tomás participando do debate atual:

– “Se a pena ou castigo procede de Deus – Primeiramente, se procede assim: parece que a pena não procede de Deus, porque todo mal é inverso a algum bem. Porém, a pena é um mal, eis que provoca dano; portanto, é contrária a um bem. Entretanto, o que é contrário a um bem não pode proceder do Sumo Bem, porque o Sumo Bem não seria autor da paz, mas da luta e da dissensão, se Dele procedessem coisas contrárias. Logo, o castigo não procede de Deus. / Ademais, tudo o que está além da intenção do agente, deve-se a algum defeito. Porém, todo mal está além da intenção do agente, como diz Dionísio: ‘Porque ninguém age em vista do mal’. Logo, todo mal deve-se a algum defeito. Contudo, nada do que se deve a um defeito tem Deus como sua causa, como foi mostrado. Logo, não procede de Deus. / Ademais, o que não é causa da ação, não é causa daquilo que é causado pela ação, como foi dito. Porém, existem muitas penas que se infligem a alguns pelos pecados de outros, pois muitos são castigados com aflições por aqueles que injustamente os oprimem. Logo, como Deus não é causa da culpa, parece que tampouco seja causa de qualquer pena. / Ademais, tudo que procede de Deus tende ao bem. Mas algumas penas se inclinam ao mal, como a fome e outras coisas semelhantes. Logo, nem toda pena procede de Deus. / Ademais, para aquilo cuja geração é boa, sua corrupção é má. Porém, a geração da graça é boa, porque procede de Deus. Assim, a corrupção da graça é má. Entretanto, a corrupção da graça é uma pena ou castigo. Logo, nem toda pena procede de Deus, pois Deus é causa apenas dos bens.

Por outro lado, contrário a isto, tudo o que é justo, é bom; e tudo o que é bom, procede de Deus. Porém, toda pena é justa, como provou Agostinho na distinção anterior. Logo, toda pena ou castigo procede de Deus. / Ademais, a quem pertence a remuneração, pertence também a condenação, isto é, àquele a quem corresponde julgar os atos bons e maus. Ora, premiar as boas obras é próprio de Deus; logo, também é próprio Dele infligir as penas.

Respondo:

Deve-se dizer que a pena contém duas coisas, isto é: a “razão de mal”, já que é a privação de algum bem; e a “razão de bem”, já que é justa e ordenada. Portanto, alguns antigos, que consideravam somente a pena, já que é um defeito e um mal, disseram que as penas não procediam de Deus; nesse erro incorreu também Cicero, como vemos por sua obra ‘De Officiis’. Estes homens negaram, portanto, a Providência de Deus sobre os atos humanos, pelo qual a ordem que a pena tem em relação à culpa não diziam que se devesse à Providência Divina, mas à justiça dos homens que infligiam a pena; e que o defeito que há na pena não era ordenado por Deus, mas que ocorria pela necessidade das causas segundas, pois afirmavam que Deus dava o ser às coisas como o faz um agente movido por necessidade natural, de modo tal que de uma primeira origem, que não tem nenhum defeito, procederia um primeiro originado distante de sua perfeição; e diziam, segundo, que maior era a distância em relação a um primeiro, pela ordem das causas e dos efeitos, quanto mais defeituosa tal coisa fosse. / Esta tese é errônea, como se mostrou no l.1,d.39, onde se diz que a Providência Divina se estende a tudo. E, portanto, há que se dizer que os castigos procedem de Deus, embora a culpa não proceda de Deus, por mais que ambas as coisas sejam más. / A razão disso é que a cada coisa se lhe atribui uma causa eficiente, segundo o modo em que essa coisa procede de dita causa. Porém, a culpa tem razão de mal e de defeito, segundo proceda de sua causa eficiente, que não ordena sua ação ao fim devido; e, assim, à culpa não se lhe pode atribuir uma causa que não possa cair em algum defeito. A pena, ao contrário, não tem razão de mal nem de defeito, segundo procede de sua causa eficiente, porque esta inflige o castigo por uma ação ordenada, mas que tem razão de defeito e de mal somente no que recebe a ação, o qual é privado de algum bem por uma justa ação. / E, assim, Deus é autor da pena, mas de modo diverso, segundo a diversidade das penas. Porque há uma pena de dano, como a subtração da graça e coisas semelhantes, e destas penas Deus é causa, não por fazer algo, mas por não fazer mais bem, pois pelo fato de que Deus não influi a graça se segue, no castigado, a privação da graça. Há uma pena de sentido, que se inflige por alguma ação e, desta, Deus é autor fazendo algo também.

Ao primeiro [argumento], portanto, há que se dizer que um bem particular é inverso a outro bem particular, como o quente em relação ao frio; e que ambos procedem de Deus. E não se segue, por isto, que Deus não seja autor da paz, porque a própria luta entre os contrários se ordena a alguma união, pois convêm na forma do misto, e também porquanto no universo se ordenam por modo de certa consonância. Assim, pois, não é inconveniente, por mais que o bem natural proceda de Deus, que também a pena, que contraria esse bem natural, proceda, enquanto é boa, de Deus.

Ao segundo, há que se dizer que nenhum mal nem nenhum defeito é pretendido nem por Deus nem por nenhum outro agente; mas que todo mal e defeito se devem a algum defeito, quer da causa eficiente, quer da matéria recipiente. Pois bem: o mal de culpa resulta do defeito da causa eficiente; e, portanto, não pode ser reduzido à Causa Eficiente, que não pode falhar. Porém, o mal da pena se deve a um defeito da matéria, como se vê por isto: o juiz justo tende a implantar a ordem da justiça em seus súditos; essa ordem não pode ser recebida no pecador senão que é castigado por algum defeito, e assim, por mais que esse defeito, por cuja causa a pena é um mal, não seja pretendido pelo juiz, senão a ordem da justiça; no entanto, o juiz justo é autor da pena, já que a pena é algo ordenado, e assim Deus é autor das penas.

Ao terceiro, há que se dizer que, por mais que Deus não seja autor da ação torpe, já que comporta uma deformidade, no entanto, é causa sua, já que é certa ação, e, portanto, também pode ser chamado causa daquilo que é efetuado por essa ação.

Ao quarto, há que se dizer que a pena não inclina ao mal de culpa diretamente, por modo de hábito e disposição, mas indiretamente, já que pela pena alguém é privado de algo pelo qual era retraído da culpa. E isto não é inconveniente; que se diga que Deus subtrai aquilo pelo qual alguém se conservava imune da culpa, isto é, a graça.

Ao quinto, há que se dizer que por mais que a corrupção da graça em si seja algo mau, no entanto, que este que é indigno da graça seja privado dela é bom e justo; e, deste modo, procede de Deus como Ordenador” (São Tomás de Aquino, Comentário às Sentenças, l.2, d.37, q.3, a.1).

Obviamente, uma coisa é que estas respostas tenham sido dadas em seu momento, e outra coisa é que Alejandro não tenha se convencido delas. Porém, isto é uma coisa, e outra é dizer aos seus leitores que não recebeu resposta, deixando, ao mesmo tempo, de indicar-lhes onde se encontram os argumentos dos seus oponentes, para assim oferecer-lhes somente a sua versão, fechando-se numa bolha. Alejandro alega em sua nova introdução que não houve um verdadeiro debate porque não lhe responderam a essas objeções, porém, eu sustento que, se não houve verdadeiro debate foi porque ele não foi suficientemente honesto com seus leitores, para permitir-lhes ouvir o que tínhamos a dizer.

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NOTAS
[1] Artigo em espanhol: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php/1502010840-novedades-sobre-el-debate-de
[2] Artigo em espanhol: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php/1405210504-respuesta-a-alejandro-bermude
[3] Artigo em espanhol: http://infocatolica.com/blog/praeclara.php/1406250544-title
[4] Artigo em espanhol: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php/1404050617-idios-castiga-o-no-castiga
[5] Artigo em espanhol: http://fraynelson.com/blog/2014/06/14/en-torno-a-una-polemica-teologica/
[6] Foi isto o que disse Mons. José Ignacio Munilla, bispo de San Sebastian, quando foi consultado acerca deste debate: “Em primeiro lugar, deve-se distinguir entre o ‘castigo eterno’ e o ‘castigo temporário’. Por ‘castigo eterno’ entendemos o castigo definitivo aos ímpios, relatado explicitamente em Mateus 26 (na Sagrada Escritura), e não é, absolutamente, incompatível com [o fato de] que ‘Deus é amor’. Dizer que ‘Deus é amor’ e, portanto, não pode existir o castigo eterno é contrapor os conceitos de maneira infantil. Em Deus a justiça e a misericórdia não são duas coisas: elas se fundem e são uma só. / No tocante ao ‘castigo temporário’, pode-se dizer que Deus não envia castigos temporais? Não, não se pode dizer tal coisa. Na Sagrada Escritura há passagens muito claras, onde se fala dos castigos de Deus, como quando fala das pragas de Egito; ou de Davi, que após ter pecado, Deus lhe pediu que escolhesse entre diversos castigos. Não cabe dizer que ‘Deus não castiga nunca’; seria incorreto. Nosso Papa emérito Bento XVI, no Sínodo dos Bispos do ano de 2008, disse uma frase que chamou a atenção de muita gente; ele disse: ‘…Deus teve que recorrer com frequencia ao castigo…’”. A explicação completa está nesta url (podcast em espanhol): http://www.apologeticacatolica.org/Descargas/MunillaDiosCastiga.mp3
[7] Assim explica o cardeal Zeferino González, em sua obra “Filosofia Elementar”: “1ª) Por mais que Deus não pretenda o mal físico ‘per se’ ou como fim, já que não se deleita no mal de suas criaturas, e longe de chatear-se, ama tudo o que criou, é induvidável que pode escolhê-lo ou querê-lo, como meio proporcional para realizar algum fim bom. A razão é que, neste caso, a volição do mal físico por parte de Deus, tem por termo e como fim o bem que pressupõe a existência do mal físico como meio, ou falando com mais propriedade, como condição hipotética da existência do bem pretendido por Deus; e digo hipotética, porque a existência e realização de determinados bens, como resultante de tais ou quais males físicos, se acham em relação com o grau de perfeição relativa que Deus quis comunicar a este mundo, e que poderia ser superior em outro dos possíveis [mundos]. / 2ª) No que toca ao mal moral, Deus não o pretende ou quer, nem como meio nem como fim, porque, além de repugnar à santidade infinita de Deus, o mal moral envolve a subversão da ordem necessária que toda criatura, e mais que todas, a criatura inteligente e livre, toca a Deus como último fim da Criação. Contudo, isto não impede que Deus permita sua existência, porque esta permissão não envolve uma aprovação do mesmo, e por outra parte, nenhuma obrigação tem Deus de impedir sua existência. Ainda mais, todavia: dada a existência de seres inteligentes e livres, pode-se dizer conveniente e até natural a permissão do mal moral por parte de Deus; porque a verdade é que a Deus, como governador supremo e universal do mundo, corresponde permitir que cada ser aja em conformidade com as condições próprias da sua natureza. A vontade humana é de sua natureza defectível, flexível em ordem ao bem e ao mal, e livre e responsável em seus atos. Logo, a Deus, como previsor universal do mundo e em especial do homem, só lhe corresponde dar a este os meios e auxílios necessários para operar o bem moral, porém sem o matar nem anular sua liberdade, impondo-lhe a necessidade física de agir bem. Isto sem contar que a realização do mal moral serve também: a) para manifestar que o homem, quando faz o bem, o faz livremente, e é credor de prêmio; b) para revelar a paciência e longanimidade do mesmo Deus; c) para manifestar sua misericórdia, perdoando, e sua justiça, castigando. / 3ª) Infira-se do que foi dito até aqui: 1º – que nem a existência do mal físico, nem a do mal moral, envolvem repugnância ou contradição absoluta com a Providência e a bondade de Deus; 2º – que até podemos apontar razões plausíveis e fins racionais e justos para sua existência; 3º – que Deus, absolutamente falando, poderia impedir a existência do mal físico e moral, quer com a criação de outro mundo, quer com uma disposição diferente deste [mundo]; 4º – que ainda que possamos apontar alguns fins prováveis da permissão do mal moral, ignoramos a causa final desta permissão por parte de Deus, já que não sabemos com certeza qual seja o fim principal e os motivos divinos desta permissão, devendo, portanto, dizer com a Escritura: ‘Quis cognovit sensum Domini, aut quis consiliarius ejus fuit?’. Com maior razão, é aplicável esta reflexão à nossa ignorância em relação aos fins particulares, a que se subordina a existência do mal físico e moral no ser A ou B. / Que a volição do mal físico, no sentido exposto, não se opõe à bondade divina, prova-se ademais porque, na hipótese contrária, Deus não poderia querer e realizar certos bens e perfeições de uma ordem superior. A pouco que se reflita, se reconhecerá, sem dúvida, que a ausência absoluta e completa do mal físico levaria consigo a ausência da paciência, da fortaleza, da magnanimidade, da constância e, para dizê-lo de uma vez, das características mais belas e sublimes da virtude em todas suas múltiplas manifestações. Ainda mais, todavia: a ausência de todo mal físico levaria consigo à morte ou à atonia absoluta da sociedade humana, com suas artes, ciências e indústrias, que vêm a ser a luta perseverante da humanidade contra o mal físico.
[8] São Tomás, Suma Teológica, l.2, q.108, a.4: “Pode-se considerar a pena de dois modos: primeiro, como castigo; e, neste sentido unicamente, o pecado a merece, porque por ela se restabelece a igualdade da justiça, enquanto que aquele que pecando se excedeu, seguindo sua própria vontade, padece contra sua vontade algum dano; pelo que, como todo pecado é voluntário, inclusive o original, conforme o que foi dito (l.2 q.81 a.1), se segue que ninguém é castigado desta forma senão pelo pecado voluntário. / E, a partir de outro ângulo, a pena pode ser considerada como remédio, que não só é curativo do pecado passado, mas que tem assim mesmo virtude para preservar do pecado futuro e para empurrar-nos a fazer algo bom. Conforme a isto, alguém é castigado algumas vezes sem culpa, embora nunca sem causa. No entanto, há que se ter em conta que nunca o remédio priva de um bem maior visando um bem menor — por exemplo, deixar alguém cego para curar-lhe o calcanhar —, mas, às vezes, causa um dano no [bem] menor para prestar ajuda no [bem] mais importante. E como os bens espirituais são os de maior valor, e os temporais, os de menor, é que às vezes se castiga alguém nestes últimos, sem culpa — por exemplo, com muitas penalidades nesta vida presente, que Deus inflige para que sirvam de humilhação ou de prova. Ao contrário, não se castiga a ninguém nos bens espirituais sem culpa própria, nem nesta nem na outra vida, já que na vida futura as penas não são remédio, mas consequência da condenação espiritual”.

Seita “Crescendo em Graça” – agora “Rei de Salém” – tem novo “deus” (ou “deusa”)

Autor: José Miguel Arráiz, o 1.03.15 às 4:54 PM
Fonte: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php/
Trad.: Carlos Martins Nabeto

Há 6 anos escrevi um artigo sobre a “Crescendo em Graça”. Esta seita peculiar possuía um líder chamado José Luis de Jesus Miranda, que primeiramente afirmava ser a reencarnação de São Paulo e, posteriormente, o próprio Jesus Cristo e o Anticristo ao mesmo tempo. Ele anunciou o Armagedon para 2012, ocasião em que o seu corpo (e os dos seus seguidores) se tornaria glorioso, destruiria o Vaticano e passaria a governar o mundo com cetro de ferro. Além disso, mandava seus seguidores tatuarem a marca da besta (666) nos braços ou na fronte, tal como ele mesmo o havia feito. Apesar de ter afirmado várias vezes que nunca adoeceria nem morreria – ainda que ele mesmo tentasse se matar – morreu de cirrose hepática por abuso do álcool, tal como foi anunciado no blog da Rede Iberoamericana de Estudos das Seitas. Isto gerou tal desconcerto em seus seguidores que um de eles, inclusive, cometeu suicídio.

Depois de tão estrondoso desastre no cumprimento de suas profecias, ao mais puro estilo dos adventistas e testemunhas de Jeová, cheguei a pensar que era uma questão de tempo para que a seita desaparecesse. No entanto, da mesma forma que nos casos anteriores, isto não ocorreu. O que fizeram foi imitar uma outra seita da Coreia do Sul, maior e mais antiga, chamada “A Igreja de Deus – Sociedade Missionária Mundial”, quando morreu seu fundador, Ahn Sahng-Hong, que também afirmava ser Jesus Cristo: em ambos os casos suas respectivas esposas herdaram o império e passaram a afirmar ser a Rainha-Mãe, a Jerusalém do alto, uma Deusa-Mãe.

No caso da seita “Crescendo em Graça”, agora renomeada para “Rei de Salém”, apresentou-se uma nova “dispensação”, na qual a esposa de Miranda, que agora se faz chamar “Cristo Lisbeth” é a nova deusa, a reencarnação do arcanjo Miguel e a mãe Jerusalém. A seita desta vez afirma que aqueles que creram que Miranda não morreria caíram sob um poder enganoso, enviado pelo próprio “deus” José Luis de Jesus Miranda, que caiu em uma “elocubração vinda da sua carne”, e que agora a nova verdade encontra-se com sua mãe-consorte Lisbeth, tal como se observa neste vídeo (em espanhol) hospedado no canal de YouTube da seita:

Desde logo a seita já enfrenta o seu primeiro cisma: Martin Guio, bispo responsável pela sucursal da seita na Colômbia, separou-se, de modo que a nova “deusa” o acusa de ser a “encarnação do diabo“. Ao mesmo tempo, a nova líder ameaça os seus adeptos de que irão para o inferno se não crerem nela, como se observa neste outro vídeo (em espanhol):

O que mais me surpreende é a ingenuidade dos adeptos que, apesar de tudo o que ocorreu, ainda creem em tudo o que lhes diz a seita. Deus os livre da sua cegueira.

Catolicismo Primitivo – 1. A Didaqué

Autor: José Miguel Arráiz, o 20.06.15 às 9:57 PM
Fonte: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php
Trad.: Carlos Martins Nabeto 

“Didaqué” é uma palavra grega que significa “ensinamento”. Daí que o título completo da obra seja “A instrução do Senhor aos gentios através dos Doze Apóstolos” ou, de uma forma mais resumida, “Instruções dos Apóstolos”. É considerada como um dos documentos mais importantes da Igreja primitiva, pertencente ao grupo de escritos dos Padres Apostólicos[1]. Ainda que a data da sua composição não seja conhecida com exatidão, alguns autores opinam que foi escrita, aproximadamente, entre os anos 50 a 70, enquanto que outros a situam entre inícios e meados do século II.

O Batismo

Na Didaqué se encontra informação de valioso interesse apologético, porque são descritas as práticas católicas de batizar, tanto por imersão[2] quanto por infusão[3]:

– “Sobre o batismo, batiza desta maneira: ditas com anterioridade todas estas coisas, batiza em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo em água viva [corrente]. Se não tens água viva, batiza com outra água; se não podes fazê-lo com água fria, faz com quente. Se não tiveres uma nem outra, derrama água na cabeça três vezes, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Antes do batismo, jejuem o batizante e o batizando, e alguns outros que o possam. Ao batizando, contudo, lhe mandarás jejuar um ou dois dias antes” (Didaqué 7,1-4).

Isto é relevante porque algumas denominações protestantes têm entendido que só é válido o batismo por imersão. Argumentam que a palavra “batismo” é uma romanização (“bapto” ou “baptizo”), cujo significado é “lavar” ou “submergir”, implicando que a forma de batizar deve ser dessa maneira. É por isso que se costuma aplicar o batismo por imersão em comunidades eclesiais protestantes, como as batistas e evangélicas, além de algumas seitas como A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias [mórmons] e os Testemunhas de Jeová. No entanto, o texto da Didaqué demonstra que para os primeiros cristãos o significado da palavra não estabelecia uma maneira fixa para a administração do sacramento, e que este poderia variar de acordo com as circunstâncias[4].

O texto da Didaqué também lança muita luz sobre a antiga polêmica relacionada à fórmula batismal, sobre se na Igreja primitiva se batizava somente em nome de Jesus, como menciona Atos 2,38; 8,16; 10,48; 19,5, ou em nome da Trindade, como Jesus ordena em Mateus 28,19. Isto, porque a Didaqué também faz referência ao batismo “em nome do Senhor” (Didaqué 9), porém, quando indica as palavras a serem empregadas no momento de batizar, diz que deve-se fazer “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”:

– “Que ninguém coma nem beba de vossa ação de graças, senão os batizados em nome do Senhor…” (Didaqué 9).

– “…batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Didaqué 7).

Isto apoia a tese de que, efetivamente, quando na Escritura se faz referência ao batismo “em nome de Jesus”, o que se fazia era uma referência de forma abreviada ao batismo “em nome da Trindade”, diferenciando-o assim de outros batismos como o de João Batista. [Ademais, a presença da fórmula na Didaqué] também descarta a tese de que a fórmula trinitária foi uma interpolação tardia, originada no século IV, tal como supõem algumas seitas que rejeitam a doutrina da Trindade[5].

A forma de orar

No que diz respeito à forma de orar, a Didaqué apresenta instruções muito interessantes de ordem apologética em face às críticas do Protestantismo em relação às “orações pré-fabricadas” católicas. Isto porque ainda que o Protestantismo enxergue tradicionalmente neste tipo de oração uma forma de “oração vã”, [a Didaqué] precisamente ensina aqui a recitar o “Pai Nosso” – certamente uma “oração pré-fabricada” – em contraposição à oração dos hipócritas[6]:

– “Tampouco oreis à maneira dos hipócritas; ao contrário, tal como o Senhor ordenou em seu Evangelho, assim orareis: ‘Pai nosso celeste, santificado seja teu nome, venha teu reino, faça-se tua vontade assim no céu como na terra. O pão nosso de nossa subsistência dai-nos hoje e perdoa-nos nossa dívida, assim como também perdoamos a nossos devedores, e não nos leves à tentação, mas livra-nos do mal. Porque teu é o poder e a glória pelos séculos’. Assim orareis três vezes ao dia” (Didaqué 8,2-3).

A celebração da Eucaristia

Ainda que na Didaqué não encontremos um testemunho explícito a favor da presença real de Cristo na Eucaristia – doutrina católica rejeitada quase que unanimemente pelo Protestantismo – encontramos, porém, um texto que a insinua implicitamente, ao exigir que só possam se aproximar dela os batizados, por ser um alimento sagrado:

– “No tocante à ação de graças, dareis graças desta maneira. Primeiramente, sobre o cálice: ‘Te damos graças, Pai nosso, pela santa vinha de Davi, teu servo, que nos deste a conhecer por meio de Jesus, teu servo. A ti seja a glória pelos séculos’. Depois, sobre o fragmento: ‘Te damos graças, Pai nosso, pela vida e o conhecimento que nos manifestaste por meio de Jesus, teu servo. A ti seja a glória pelos séculos. Como este fragmento estava disperso sobre os montes e, reunido, se fez um, assim seja reunida tua Igreja dos confins da terra em teu Reino. Porque tua é a glória e o poder, por Jesus Cristo, eternamente’. Que ninguém, contudo, coma nem beba da vossa ação de graças senão os batizados no nome do Senhor, pois acerca disso disse o Senhor: ‘Não deis o sagrado aos cães’” (Didaqué 9,1-4).

Muitas denominações cristãs não-católicas, seguindo a Reforma Protestante, têm rejeitado também o caráter sacrificial da Eucaristia, ao ler em Hebreus 9,28 que “Cristo foi oferecido em sacrifício uma só vez, para quitar os pecados de muitos”; por isso, para eles a Missa católica é uma abominação[7]. Na Didaqué, pelo contrário, vemos que os primeiros cristãos enxergavam a Eucaristia como o sacrifício puro e perfeito profetizado pelo profeta Malaquias: “Pois desde o nascer do sol até o poente, grande é meu nome entre as nações e em todo lugar se oferece a meu nome um sacrifício de incenso e uma oblação pura” (Malaquias 1,11).

– “Reunidos a cada dia do Senhor, fracionai o pão e dai graças, …porque este é o sacrifício de que disse o Senhor: ‘Em todo lugar e a todo tempo se me oferece um sacrifício puro, porque eu sou Rei grande – diz o Senhor – e meu nome é admirável entre as nações” (Didaqué 14,1-3).

Cabe ressaltar que a doutrina católica não ensina que Cristo se “ressacrifica” a cada Missa, como assumem muitos protestantes de forma equivocada. O que [a Igreja] ensina é que o único sacrifício de Cristo é apresentado a Deus Pai em cada Eucaristia e, por isso, no Catecismo oficial da Igreja Católica se ensina que “atualiza o único sacrifício de Cristo Salvador” (CIC 1330) e não que “o repete”.

Confissão dos pecados

Em contraposição à prática comum do Protestantismo, onde a pessoa se confessa diretamente com Deus, na Didaqué encontramos um testemunho inicial da disciplina penitencial da Igreja primitiva, que no princípio implicava uma confissão pública dos pecados diante dos presbíteros e da comunidade, tal como se menciona na Sagrada Escritura (Atos 19,18; Tiago 5,16) e cuja forma se desenvolveu paulatinamente até a confissão auricular que conhecemos hoje em dia[8]:

– “Reunidos a cada dia do Senhor, fracionai o pão e dai graças, depois de haver confessado vossos pecados, a fim de que o vosso sacrifício seja puro” (Didaqué 14,1).

A esmola

Encontra-se também uma breve menção à esmola como obra piedosa ordenada pelo Evangelho.

– “No tocante às vossas orações, esmolas e todas as demais ações, as fareis conforme o tens ordenado no Evangelho de Nosso Senhor” (Didaqué 15,4).

Agora, esta esmola se referiria também à contribuição voluntária dos fiéis para o sustento da Igreja e a ajuda dos mais necessitados, mencionada em Romanos 15,26-28; 1Coríntios 16,1; 2Coríntios 8,10? Ainda que o texto não o indique, isto é bastante provável. O que parece ser seguro, também, é a ausência total da prática do dízimo, tal como foi adotada pelo Protestantismo e que é derivada da Lei Mosaica prescrita no Antigo Testamento. A norma cristã refletida na Didaqué é, pelo contrário, a própria norma evangélica onde cada fiel deve contribuir não com exatos 10%, mas “segundo o ditame do seu coração; não de má vontade nem forçado, pois: ‘Deus ama a quem dá com alegria’” (2Coríntios 9,7).

A segunda vinda de Cristo

Conforme se observa na Didaqué, os cristãos da Igreja primitiva pensavam que não era possível prever o momento da segunda vinda de Cristo, tentação esta em que têm caído uma e outra vez numerosas seitas (Adventistas, Testemunhas de Jeová, Crescendo em Graça, etc.). Ao contrário, para os primeiros cristãos, era preciso estar preparado porque ao não saberem nem o dia e nem a hora, o mais prudente era evitar que fossem pegos desprevenidos:

– “Vigiai sobre vossa vida; não se apaguem vossas lanternas, nem descarregai vossos lombos, mas estai preparados, porque não sabeis a hora em que  vosso Senhor virá” (Didaqué 16,1-2).

Justificação e Salvação

Quanto à doutrina da justificação, a Didaqué, embora um texto cristão tão breve e antigo, contribui ricamente nesta doutrina. Rejeita, por um lado, e com antecipação, o Pelagianismo, heresia que surgiu formalmente no século V, onde o homem se justifica por seus próprios méritos e não pela graça de Deus mediante a fé:

– “Logo, tampoco nós, que fomos por Sua vontade chamados em Jesus Cristo, nos justificamos por nossos próprios méritos, nem por nossa sabedoria, inteligência e piedade, ou pelas obras que fazemos em santidade de coração, mas pela fé, pela qual o Deus onipotente justificou a todos desde o princípio” (Didaqué 32,4).

Porém, ao mesmo tempo, rejeita antecipadamente a heresia adotada por Lutero e o Protestantismo, onde só a fé basta para salvar-se (“Sola Fides”) mesmo que não esteja acompanhada da obediência aos mandamentos e uma vida conforme à vontade de Deus. Rejeita, ainda, a ideia de que a salvação não pode ser perdida (doutrina protestante que afirma: “uma vez salvo, sempre salvo”), assinalando que de nada serve ter tido fé durante muito tempo se a morte não surpreender o fiel na graça de Deus[9]:

– “Reuni-vos com frequencia, inquirindo o que convém a vossas almas. Porque de nada vos servirá todo o tempo de vossa fé se não estiverdes perfeitos no último momento” (Didaqué 16,2-3).

Você pode ler uma tradução católica (em espanhol) da Didaqué nesta url:

– A Didaqué – http://mercaba.org

Também pode ler a tradução protestante (em espanhol) nesta outra:

– A Didaqué – http://escrituras.tripod.com

—–
NOTAS:
[1] São conhecidos como Padres Apostólicos aqueles autores do Cristianismo primitivo que tiveram algum contato com um ou mais Apóstolos. São um subconjunto dentro dos Padres da Igreja, que se compõe de escritores do primeiro século e inícios do segundo, cujos escritos têm uma profunda importância para o conhecimento da Fé Cristã primitiva. Caracterizam-se por ser textos descritivos ou normativos, que tratam de explicar a natureza da novidade da doutrina cristã.
[2] O batismo por imersão realiza-se mergulhando totalmente a batizando na água.
[3] O batismo por infusão realiza-se derramando água sobre a cabeça [do batizando].
[4] Da mesma maneira que a Sagrada Escritura observa que a forma de batizar nem sempre pode ser por imersão. A este respeito pode-se mencionar o fato de que São Paulo parece ter sido batizado em uma casa e de pé. Atos 22,16 narra um batismo em Jerusalém, de 3000 pessoas em um mesmo dia e, visto que se trata de uma cidade que não possui nenhum rio, faz-se difícil crer que essa quantidade de pessoas foi mergulhada em algum tanque ou poço de água potável.
[5] Os que argumentam que a fórmula batismal em nome das Três Divinas Pessoas, mencionada em Mateus 28,19, é uma interpolação tardia, buscam apoio nos escritos de Eusébio de Cesareia, historiador da Igreja do século IV, fazendo observar que antes do Concílio de Niceia (ano 325) Eusébio citava Mateus 28,19 escrevendo: “Fazei discípulos a todas as gentes, bautizando-os em meu nome”, e só posteriormente começou a citar o texto como o conhecemos hoje. Isto, no entanto, mais que provar que na Antiguidade se constumava citar a Escritura de forma não-textual, não tem força em relação à evidência documental, já que na totalidade de manuscritos bíblicos existentes (incluindo os mais antigos) lê-se a fórmula completa: “…batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (quanto a isto, leia: “Batismo só em nome de Jesus?”).
[6] No Catolicismo não se crê que uma oração seja vã por ser “pré-fabricada”. Crê-se que quando Jesus adverte que ao orar não se deve “falar muito como os gentios, que se caracterizam por crerem que pelo palavrório serão ouvidos” (Mateus 6,7) não está criticando a repetição em si mesma, já que o próprio Jesus chegou a empregar repetições (Mateus 26,43-44) e as encontramos frequentemente em orações da Sagrada Escritura (Isaías 6,2-3; Daniel 3,52-57; Salmo 136; 150; Apocalipse 4,8; etc.); nem está criticando a oração longa, da qual o próprio Senhor deu exemplo no Getsemani (Mateus 26,39.42.44), permanecendo a noite inteira em oração. Crê-se, ao contrário, que a crítica se refira à forma de orar dos pagãos, que enxergavam a oração como uma espécie de fórmula mágica que, sendo repetida mecânicamente, alcançavam seus objetivos; era o que faziam, por exemplo, os sacerdotes de Baal no Antigo Testamento, com práticas intermináveis na oração (1Reis 18,26) (quanto a isto, consulte o meu livro “Conversas com meus Amigos Evangélicos”, Createspace, 2014, 1ª Edição, p. 170).
[7] Por otro lado, se se lê a Epístola aos Hebreus no seu contexto (capítulos 9 e 10), observa-se que o seu propósito não era rejeitar o caráter sacrificial da Eucaristia, mas admoestar aqueles cristãos, que estranhavam os sacrifícios rituais da Antiga Aliança, a não cair neles e judaizar. O cristão não tem necessidade dos ditos sacrificios, que não eram mais que uma prefiguração do sacrifício Eucarístico.
[8] Ainda que a confissão auricular pôde desenvolver-se em sua forma exterior através do tempo, sua essência, que reside no fato reconhecido da reconciliação do pecador por meio da autoridade da Igreja, se depreende do poder que Cristo outorgou a seus Apóstolos quando lhes disse: “a quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os retiverdes, eles lhes serão retidos” (João 20,23).
[9] Para mais detalhes a respeito da doutrina católica sobre a justificação, consulte os meus livros “Conversas com meus Amigos Evangélicos”, Createspace, 2014, 1ª Edição, p. 52s) e “Compêndio de Apologética Católica”, Creatspace, 2014, 2ª Edição, p. 205.

Eis o que ensinam no curso de Eclesiologia Católica da Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, em Goicoechea, na Costa Rica

Autor: José Miguel Arráiz
Fonte: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php
Trad.: Carlos Martins Nabeto

Um leitor da Costa Rica me escreveu preocupado com o que lhe estão ensinando na sua paróquia em um curso de “Introdução à Eclesiologia”, ministrado pelo professor Luis Boschini López. Trata-se da Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, na cidade de Goicoechea, distrito de Guadalupe, província de São José de Costa Rica.

Tal como me comentou este nosso amigo, algumas das afirmações do professor deixaram diversos alunos bastante desconcertados:

1) As palavras do Evangelho ao apóstolo Pedro – “E eu, da minha parte, te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela. A ti te darei as chaves do Reino dos Céus; e o que atares na terra será atado nos céus, e o que desatares na terra será desatado nos céus” (Mateus 16,18-19) – são um acréscimo posterior ou uma interpolação tardia do século II ou III; consequentemente, não fazem parte do texto bíblico original.

2) Pedro não foi o primero Papa; nunca esteve em Roma; e Jesus nunca lhe entregou quaisquer chaves do Reino dos Céus.

Para justificar que seu ensino é “católico”, o professor escreveu por e-mail aos seus alunos:

“Diante de um comentário que me remeteu um de vocês, pedindo mais detalhes acerca do tema de que Pedro não foi o primeiro líder da Igreja, envio-lhes o seguinte:

a) O melhor comentário atual de São Mateus, que dedica várias páginas ao texto citado, é de um professor alemão, Ulrich Luz: http://es.scribd.com/mobile/doc/208234345/Luz-Ulrich-El-Evangelio-Segun-San-Mateo-02. Sobre a citação de Mateus 16,13-20, o podem encontrar nas páginas 595 em diante.

b) Da mesma forma, anexo um escrito de Pablo Richard, chileno radicado em nosso país, sacerdote e teólogo, considerado um dos melhores biblistas do nosso país. Inclusive, deu cursos e palestras na Universidade de La Salle.

Observem que os dois documentos apontam que Pedro não foi o primeiro cabeça da Igreja e, segundo, que houve acréscimo. Estes são dois documentos sérios e de peso; porém, vocês podem pesquisar no ‘Google Scholar’, que é onde se encontram documentos de pessoas preparadas.”

Passarei agora a analisar esses argumentos.

1) Mateus 16,18-19 é uma interpolação?

O tema das interpolações na Sagrada Escritura é bem extenso; e fica ainda mais complicado porque há textos “incômodos”, que para alguns, por razões ideológicas, são difíceis de se aceitarem, razão pela qual atribuí-los a um acréscimo posterior resulta como solução fácil. Há outros textos, no entanto, para os quais há evidência certa de que foram interpolados e, por isso, foram removidos de diversas edições críticas da Bíblia.

No caso do texto em questão, não há evidências de que o mesmo foi interpolado, eis que tal como o conhecemos hoje encontra-se em TODOS os códices e versões mais antigas existentes; da mesma maneira, é citado pelos autores mais antigos da Cristandade e, por isso mesmo, o encontramos unanimemente nas traduções antigas e modernas da Bíblia, tanto católicas quanto protestantes.

A aqueles que queiram estudar mais a fundo o tema das interpolações, sugiro consultar os dois artigos que Pato Acevedo (meu colega blogueiro em Infocatólica) escreveu no seu blog:

– O lucrativo negócio das interpolações[1]

– O negócio das interpolações (Parte 2)[2]

No tocante a Mateus 16,18-19 e sua possível interpolação, sugiro ainda ler a resposta do sacerdote e teólogo Miguel Ángel Fuentes:

– São originais os versículos de Mateus 16,18-19?[3]

Em resumo: se alguém, além de razões ideológicas e meras suposições, possui uma evidência real e tangível para excluir Mateus 16,18-19 do texto bíblico, que publique o seu próprio texto crítico das Sagradas Escrituras e veja se lhe tomam a sério. Porém, enquanto não for assim, melhor agir como diz o ditado: “É melhor ficar calado”.

2) Argumento de autoridade X falácia de autoridade

Por outro lado, salta à vista que o professor, ao invés de apresentar provas, sustenta sua argumentação naquilo que ele considera “documentos de peso”, constante de um comentário bíblico do teólogo protestante de tendência liberal Ulrich Luz, e de um sacerdote católico chileno Pablo Richard, ligado à Teologia da Libertação.

A primeira coisa que me chamou a atenção é: por que um professor que compartilha cursos em uma paróquia católica considera que um comentário bíblico protestante é o melhor comentário bíblico da atualidade sobre o Evangelho de Mateus? Por que considerá-lo melhor – por exemplo – do que o “Comentário do Evangelho de Mateus”, do professor Josef Schmid, acadêmico católico de origem alemã, cuja obra editada e publicada pela Editora Herder conta com as devidas licenças eclesiásticas? Se se vai estudar a primazia de Pedro na Igreja primitiva, por que não recorrer a historiadores católicos que têm obras especializadas sobre o tema, como “O Pontificado Romano na História”, de José Orlandis, que foi catedrático de História do Direito da Universidade de Zaragoza, Decano da Faculdade de Direito Canônico e primeiro Diretor do Instituto de História da Igreja, que escreveu mais de 200 trabalhos e mais de 20 livros, e foi considerado um dos mais importantes historiadores católicos da atualidade?

Obviamente, eu poderia citar mais bibliografia católica contradizendo suas teses, já que abundantíssima, porém seria perder de vista o erro principal da argumentação: a de que a autoridade (ou “o peso”, como a chama este professor) na Igreja Católica não reside em tal ou qual comentário bíblico, mas no ensino da Igreja Católica por seu Magistério.

Com efeito, quem se auto-intitula “católico”, mesmo sendo teólogo e sacerdote, porém sustenta postulados contrários à fé – como sustentam estes autores – simplesmente já não pode ser tido como católico. Ou é tão “católico” quanto podem ser outros teólogos que infiltram suas próprias obras nas livrarias católicas, mas que nem sequer deveriam ser considerados como “cristãos”, já que negam a divinidade de Cristo, a realidade da sua ressurreição e dos seus milagres, a historicidade dos Evangelhos e tudo mais quanto sua falta de fé lhes impede crer.

Em suma: se o trunfo do professor reside no fato de haver dois acadêmicos que apoiam as suas opiniões heterodoxas, tal argumento não passa de uma falácia de autoridade, que se caracteriza pelo fato de confundir realmente onde se encontra a autoridade na Igreja, e também pelo fato de que, inclusive sob sua própria lógica, ser possível encontrar abundantíssima bibliografia católica contradizendo as suas teses.

E isso sem contar que não é sensato apresentar aos seus alunos bibliografia protestante em um curso de Eclesiologia Católica, oferecendo-lhes “gato por lebre”. É questão de bom senso que se eu vou à minha paróquia CATÓLICA para estudar Eclesiologia CATÓLICA, o mínimo que eu espero é que façam uso de uma bibliografia CATÓLICA. Portanto, o que mais devemos esperar? Que apresentem a nossas crianças as revistas [anticatólicas] da Chick Publications como suplementos infantis catequéticos?

3) Pablo Richard e sua visão “global e libertadora” do Evangelho de Mateus

Deixando agora o comentário bíblico protestante (que ao professor Luis Boschini lhe parece a “joia da coroa”), analisarei os argumentos de Pablo Richard, o qual é sim sacerdote católico. Eis aqui um extrato da sua Introdução (os negritos são meus):

– “O Evangelho de Mateus foi o evangelho mais comentado na história da Igreja; porém, ao mesmo tempo, é também o evangelho cuja interpretação é normalmente a mais dogmática e espiritualista. A força e a mensagem deste evangelho é tão grande e o projeto de Igreja que propõe é tão exigente, que nenhuma Igreja pode tolerá-lo em seu sentido literal, histórico e espiritual autênticos. A Igreja Católica, sobretudo após a reforma constantiniana e o surgimento da Cristandade ocidental (século IV), evoluiu em sentido contrário ao mais original deste evangelho. A Igreja só pode entender e interpretar um evangelho quando é capaz de vivê-lo. Quando não pode vivê-lo, ignora-o ou espiritualiza-o. A tradição sacralizou dentro do Evangelho de Mateus aquela frase de Jesus: ‘Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja’ (16,18). Esta sentença converteu-se no cânon dentro do cânon. Todo o Evangelho foi lido, a partir daqui, com um sentido dogmático, autoritário, patriarcal e hierárquico: se fez de Pedro o primeiro Papa e se institucionalizou a Igreja com um esquema totalmente alheio à tradição e ao texto do Evangelho de Mateus. Por tudo isto, é tão importante resgatar o sentido original do Evangelho, para confrontar a Igreja com a utopia de suas origens” (Pablo Richard, “O Evangelho de Mateus: uma visão libertadora”, Introdução).

Vale a pena pontualizar que este autor não afirma que o texto de Mateus 16,18 foi interpolado, mas que foi interpretado em um sentido “dogmático, autoritário, patriarcal e hierárquico”, que acabou obscurecendo o sentido original do Evangelho. Diferenciemos entre ambos os argumentos: uma coisa é dizer que o texto é falso; outra, que foi mal-interpretado.

Por outro lado, tornam-se evidentes certos preconceitos da parte do autor, que são melhor compreendidos quando se conhece o contexto de que se trata de um teólogo ligado à Teologia da Libertação. Um preconceito que se expressa em um certo farisaísmo quando se coloca ele como quem possui uma visão libertadora do Evangelho de Mateus, enquanto que ao mesmo tempo afirma que “nenhuma Igreja pode tolerá-lo em seu sentido literal, histórico e espiritual autênticos”. Atribuir a si o rótulo de espiritualidade enquanto atribui a outros o rótulo de autoritários não é um bom indício de humildade e objetividade.

Muito menos se, como ele mesmo afirma, pretende confrontar o ensino da Igreja. Quanto a isto, também é um absurdo: um professor tentando apresentar a seus alunos, como ensino da Igreja, uma fonte que reconhece que visa confrontar a Igreja.

Vamos agora para a objeção de que todo o Evangelho de Mateus foi lido a partir de Mateus 16,18-19 “com um sentido dogmático, autoritário, patriarcal e hierárquico”.

Para compreender em que sentido isto é correto e em que sentido não, devemos ir às fontes e estudar como os cristãos têm entendido esse texto ao longo da História. E o poderíamos resumir em duas perguntas:

– Ao longo da História, os cristãos entenderam o texto de Mateus 16,18 em sentido dogmático e hierárquico?

Sim.

– Ao longo da História, os cristãos entenderam o texto de Mateus 16,18 SOMENTE em sentido dogmático e hierárquico?

Não.

E é aqui onde desde suas origens a exegese católica se tem distinguido de outras exegeses posteriores, como a protestante: compreendendo que de um mesmo texto pode-se extrair muitos ensinamentos que não necessariamente são contraditórios entre si.

O Protestantismo, ao ler esse texto do Evangelho, tem alegado tradicionalmente que deve ser comprendido no contexto da conversa prévia entre Jesus e Pedro, onde o Senhor Jesus lhe pergunta quem é Ele e este lhe responde que é o Messias, o Filho do Deus vivo. Jesus, por sua vez, lhe responde que é bem-aventurado porque isto lhe foi revelado pelo próprio Pai celeste (vv.15-17). Neste ponto, o Protestantismo argumenta que todo o demais deve ser compreendido a partir desde acontecimento; e daí concluem que Pedro não se diferencia de nenhum outro cristão que professe também a sua fé em Cristo como o Messias.

Na Igreja Católica, ao contrário, se tem compreendido o texto em um contexto mais amplo, aceitando que ainda que seja certo que Pedro proclamou em alta voz a identidade de Jesus, também é certo que Jesus lhe devolveu o gesto identificando-o como a pedra sobre a qual edificaria a sua Igreja, ao mesmo tempo que confirma sua autoridade, conferindo-lhe as chaves do reino dos céus.

Não se trata pois de colocar ambas as interpretações em conflito, mas de entendê-las de uma maneira harmônica. Nem somente Pedro identificou a Jesus, nem somente Jesus identificou a Pedro, pois ocorreram AMBAS as coisas. E ambos os fatos têm relação: Pedro foi eleito como o primeiro entre os discípulos em virtude de sua fé. A fé é um dom de Deus e o serviço também o é. Deus, que concedeu a Pedro o dom da fé, também lhe concedeu o dom de servir para confirmar os seus irmãos na fé, assim como concedeu aos Apóstolos acompanhá-lo no ministério do apostolado.

É certo que os primeiros cristãos e Pais da Igreja, tanto ANTES quanto DEPOIS do reinado do imperador Constantino, entenderam esses textos em ambos os sentidos e de forma complementar. É evidente que houve, naturalmente, um desenvolvimento teológico; porém, assumir que apenas o fizeram em um sentido apenas se pode explicar ou pela ignorância ou pelo preconceito. Sugiro, quanto a isto, ler “Mateus 16,18 e os Pais da Igreja”[4]; aí encontrará uma variada recompilação de textos de diversas épocas onde os Pais da Igreja interpretam esse texto de maneira harmônica e em diferentes sentidos.

Não é pois o “aut-aut” protestante (isto OU aquilo) mas do “et-et” católico (isto E aquilo). Tampouco se trata de ser “espiritual” ou “dogmático”, assim como tampouco a autoridade exclui o serviço, como se fossem conceitos excludentes. O problema o têm aqueles que, por seu rejeição à autoridade, têm alergia ao dogma, como se os grandes Santos não tivessem aceitado e professado todas as verdades da fé e não tivessem sido também testemunhas vivas da espiritualidade cristã.

Por tudo, solicito ao professor Luis Boschini López que, por gentileza, deixe de difundir entre os seus alunos teologia liberal protestante disfarçada de eclesiologia católica; e peço também ao seu Pároco e, em última instância, ao seu Bispo, que tomem providências no assunto.

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NOTAS:
[1] Original em espanhol: http://infocatolica.com/blog/esferacruz.php/1506131048-el-lucrativo-negocio-de-las-i
[2] Original em espanhol: http://infocatolica.com/blog/esferacruz.php/1506220645-el-negocio-de-las-interpolaci
[3] Original em espanhol: http://www.teologoresponde.org/2014/03/22/son-originales-los-versiculos-de-mateo-16-18-19/
[4] Original em espanhol: http://www.apologeticacatolica.org/Primado/PrimadoN09.html

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