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Autor: Pe. Juan Carlos Sack
Fonte: http://www.apologetica.org
Tradução: Carlos Martins Nabeto

– “Cristo nos deixou a sua carne [na Eucaristia] e também subiu [ao céu] com ela” (São João Crisóstomo, Bispo, séc. IV).

– “A Fé diz que Deus pode muito bem e de algum modo, manter o corpo de Cristo no céu e fazer também, de outro modo, que esteja no pão” (Martinho Lutero; W26,414,4-6).

– “Uma fantasia sugere que cada uma das milhões de hóstias é o corpo físico do Cristo completo, íntegro e inteiro, anterior à crucificação, enquanto, ao mesmo tempo, Cristo estaria no céu, com seu corpo ressuscitado” (Daniel Sapia, evangélico).

[Dando continuidade a esta Série, abordaremos hoje os testemunhos de Cirilonas de Edessa, Juvenco da Espanha, Eusébio de Cesareia e Hilário de Poitiers].

CIRILONAS

Temos poucos dados biográficos sobre este autor, embora vários de seus poemas sejam conservados. Suas obras foram escritas em Edessa, no final do século IV.

Os textos que nos chegaram desta testemunha da fé cristã das igrejas que tinham sido fundadas pelos Apóstolos são de um forte realismo eucarístico.

– “Pôs-se de pé [no Cenáculo], elevou-se a Si mesmo por amor e manteve Seu próprio corpo levantado em Suas mãos. Sua [mão] direita era um altar sagrado; Sua mão erguida, uma mesa de misericórdia” (Homilia sobre a Páscoa 1; in: BKV 6,33 [Ausgewählte Schriften der Syrischen Dichter]).

Põe nos lábios de Jesus as seguintes palavras, incentivando Seus discípulos e fiéis a receberem a Eucaristia:

– “Vinde, discípulos meus; recebei-Me. Quero pôr-Me em vossas mãos. Vede: estou aqui, de pé, em inteira verdade; porém, comei também [o Meu corpo] em inteira verdade” (Homilia sobre a Páscoa 1; in: BKV 6,37).

– “Este memorial não deve cessar entre vós até o fim do mundo. Portanto, meus irmãos, deveis fazê-lo em todos os tempos e lembrar-vos de Mim. Comestes o Meu corpo; não Me esquecereis. Bebestes o Meu sangue; não me desprezareis” (Homilia sobre a Páscoa 1; in: BKV 6,38)[31].

JUVENCO

Testemunha da fé da Igreja da Espanha no início do século IV. Chegaram até nós diversas obras poéticas cristãs escritas em latim. Suas obras datam de 330, aproximadamente. São Jerônimo o menciona em vários escritos.

Narrando a instituição da Eucaristia, diz:

– “Dizendo isto, começou a partir o pão com Suas mãos. E, depois de orar santamente, ensinou aos discípulos que dessa forma estariam comendo o Seu próprio corpo. A seguir, o Senhor tomou o cálice cheio de vinho e o santificou com ação de graças, e o deu a beber, ensinando que o que lhes tinha distribuído era o Seu sangue; e disse: ‘Este sangue redimiu os pecados do povo'” (Evangeliorium 4,4,447-453).

EUSÉBIO DE CESAREIA

Considerado o pai da historiografia eclesiástica. Nasceu na Cesareia da Palestina em 263. Discípulo do presbítero Pânfilo e, através deste, de Orígenes. Em 313 foi nomeado Bispo da Cesareia. Durante a disputa ariana, nem sempre se mostrou católico, por desejo de conciliar as duas partes e alcançar a paz. Chegou a ser excomungado pelo Sínodo da Antioquia de 325. Neste mesmo sentido, teve problemas com o Concílio de Niceia, porém finalmente assinou a declaração dogmática da grande Assembleia contra Ário. Sua obra mais importante, sem dúvida alguma, foi a “História Eclesiástica”, que escreveu entre os anos 300 e 325. Muito apreciado como historiador e acadêmico, menos porém como teólogo, por diversas de suas impressões doutrinárias.

Eusébio possui expressões que podem muito bem ser tomadas como “simbólicas” em relação à presença de Jesus na Eucaristia. Falando dos pães da proposição, dizendo que eram “símbolo e imagem” do pão da vida, acrescenta:

– “Por isso, sabendo Davi (Salmo 33,6) de quem era a imagem do pão da proposição, nos convida a aproximar-nos não daquele pão corpóreo, mas do pão que é representado no corpóreo. Assim, nós que estamos na terra, participamos do pão que desceu do céu e do Verbo que Se esvaziou a Si mesmo e Se abreviou”[32].

Retenhamos o vocabulário: os pães da proposição são “símbolo e imagem” do pão da vida, que é o Verbo que desceu do céu. No mesmo ambiente tipológico, Eusébio comenta Gênesis 49,11 (“Lavará suas vestes no vinho e seu manto no sangue da uva”); Eusébio enxerga aqui uma insinuação da Paixão:

– “Através do vinho, que era símbolo do Seu sangue, purifica os que são batizados no Seu sangue”.

Do versículo seguinte (“Seus olhos estão alegres pelo vinho e seus dentes são mais brancos que o leite”), pensa que expressa de maneira obscura os mistérios do Novo Testamento de Nosso Senhor e, em particular…

– “…a alegria do vinho místico que Ele entregou aos Seus discípulos, dizendo-lhes: ‘Tomai e bebei: este é Meu sangue’ (…) e o esplendor e pureza do alimento místico, porque novamente Ele entregou aos Seus discípulos os símbolos da divina economia, ordenando que se fizesse a imagem do Seu próprio corpo”.

O vinho que é “símbolo” do Seu sangue não é o vinho eucarístico, mas o vinho do texto que Eusébio está comentando. O corpo e o sangue do Senhor são a realização dos símbolos profetizados, que por isso mesmo são chamados de “imagem”, isto é, “reprodução do que foi profetizado”[33].

O mesmo se pode encontrar em outra passagem, onde o sacrifício de Cristo vem para cumprir as figuras dos antigos sacrifícios judaicos. Os cristãos receberam o mandato de celebrar sobre o altar a memória desse sacrifício…

– “…através dos símbolos de Seu corpo e de Seu sangue salvador, segundo a instituição do Novo Testamento” (Demonstração Evangélica 1,10).

O pão e o vinho têm aqui, como símbolos, uma função de memória em relação com o sacrifício de Cristo[34].

Por outro lado, se Eusébio tivesse tido um conceito simbólico da Eucaristia que excluísse a doutrina católica da presença real do Senhor, então jamais poderia ter dito o seguinte, ao tratar da celebração da Eucaristia:

– “Nós, que pertencemos ao Novo Testamento, celebrando a nossa Páscoa a cada domingo, sempre nos saciamos com o corpo do Salvador; sempre participamos do sangue do Cordeiro” (Da Solenidade Pascal 7).

Em relação a certas passagens patrísticas que podem dar margem a interpretações simbólicas, creio que seja oportuno observar o seguinte: a doutrina católica sobre a presença real de Jesus exclui toda espécie de apresentação grosseira do mistério eucarístico, como a chamada “cafarnaítica”, segundo a qual a carne literal de Jesus será dada de comer aos fiéis. Esta foi a interpretação que despertou escândalo entre os ouvintes de João 6. Esta interpretação é a que se pretende inculcar nos católicos quando se lhes perguntam, por exemplo: “[Jesus] estava realmente ensinando que devemos comer a Sua carne (fibras, músculos, derme) e beber o Seu sangue (plaquetas, plasma, glóbulos)?”[35].

Jesus tinha outra coisa em mente, segundo a qual daria a comer e a beber: sim, Seu próprio corpo e Seu próprio sangue (“Meu corpo é verdadeira comida e Meu sangue é verdadeira bebida” [João 6,55]), mas de tal maneira que seus discípulos simplesmente comeriam pão e beberiam vinho, evitando assim todas as ridicularizações a que recorrem até hoje os inimigos da presença real[36]. Neste sentido, visto que o pão continua sendo apresentado simples e empiricamente como pão e o vinho como vinho, é possível se referir a eles como “símbolos” do corpo e do sangue do Senhor, pois apesar de serem mostrados como pão e vinho, são indicadores de uma realidade invisível que os transcendem; no pão e no vinho eucarísticos, após o relato da instituição da Eucaristia pelo sacerdote, são verdadeiramente, realmente e substancialmente o corpo, sangue, alma e divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, ainda que as aparências continuem sendo as do pão e vinho. E enquanto aparências, são símbolos de uma realidade diferente, a saber: de Jesus, o Pão da Vida. Isto explica o fato de que em alguns textos que vimos e ainda veremos, alguns Padres falem de certo simbolismo do pão e do vinho em relação ao corpo e sangue do Senhor e, a seguir, ensinem que na Eucaristia o próprio Jesus Cristo é recebido.

HILÁRIO DE POITIERS

O “Atanásio do Ocidente”, assim conhecido por sua defesa das doutrinas anti-arianas do Concílio de Niceia. Converteu-se à Fé cristã após o estudo do Antigo e do Novo Testamento. Embora casado, os sacerdotes e os fiéis de Poitiers, na França, o elegeram como seu Bispo em 350. Sofreu muito pela Fé verdadeira, sobretudo ao ser desterrado. Morreu em 367 e é considerado uma das colunas do triunfo da Fé Nicena contra o Arianismo. Foi proclamado “Doutor da Igreja” pelo Papa Pio IX, em 1851.

Em pleno ambiente anti-ariano, Hilário arguiu a realidade da Eucaristia (indiscutivelemente vivida na Igreja) à verdade da natureza divina de Cristo e escreveu, ao comentar João 17,22-23:

– “Como Cristo está hoje em nós: por verdade da natureza ou por concordância de vontade? Porque se o Verbo verdadeiramente Se fez carne e nós, no alimento do Senhor, verdadeiramente comemos o Verbo feito carne, como se concluirá que Ele não permanece naturalmente conosco? Ele que nasceu do homem, tomou a natureza da nossa carne, inseparável Dele, e, no mistério que nos comunica a Sua carne, uniu a natureza da Sua carne com a natureza da Sua divindade” (Da Trindade 8,13).

– “Porque Ele mesmo disse: ‘Minha carne é verdadeiramente comida e Meu sangue é verdadeiramente bebida. Aquele que come a Minha carne e bebe o Meu sangue permanece em Mim e Eu nele’. Sobre a verdade da carne e do sangue, não há lugar para dúvidas, pois agora, pela profissão do Senhor e pela nossa fé, é verdadeiramente carne e verdadeiramente sangue. E quando essa carne é comida [para o fiel] e o sangue é bebida, então fazem com que permaneçamos em Cristo e Cristo em nós” (Da Trindade 8,14).

– “Recordamos todas essas coisas porque os hereges, mentindo ao dizer que somente existe unidade de vontade entre o Pai e o Filho, empregavam o exemplo da nossa união com Deus, como se estivéssemos unidos ao Filho e pelo Filho ao Pai, apenas por nossa submissão e vontade religiosas e, assim, não se concedera qualquer propriedade de união natural ao sacramento da carne e do sangue. Sendo assim, que o mistério da verdadeira e natural unidade [entre Cristo e aqueles que recebem este sacramento] seja proclamado pela honra que supõe para nós a doação do Filho; e pela permanência segundo a carne do Filho em nós, já que estamos corporal e inseparavelmente unidos a Ele” (Da Trindade 8,17).

NOTAS:

[31] Os adversários da presença real costumam afirmar que Jesus pediu para que a Eucaristia fosse celebrada “em Minha memória”, como se essa “memória” fosse contrária à “presença” de Jesus. Nos Padres da Igreja, como também na doutrina católica, os conceitos de “memória” e “presença” não se opõem: em memória de Jesus celebramos “isto” (segundo as palavras do Senhor: “Fazei isto em Minha memória”) e “isto” faz também referência à oferta do Seu corpo e do Seu sangue (“Isto é o Meu corpo entregue por vós”).

[32] Comentário ao Salmo 33,6.

[33] Para maiores informações sobre o tema, veja-se Dufort, “Le Symbolisme Eucharistique aux Origines de l’Église”, pp. 33-35.

[34] Veja-se a obra de J. Betz, “Die Eucharistie in der Zeit der Griechischen Väter”, tomo 1/1 (Freiburg 1955), que é fonte obrigatória para o estudo da linguagem eucarística dos Padres gregos.

[35] Daniel Sapia, em seu artigo “A Teoria da Transubstanciação”. Esta ridícula apresentação que o Webmaster batista quer colocar na boca da Igreja nunca foi doutrina católica, como demostram, entre outros, Santo Agostinho, ao assinalar que “eles (=os ouvintes de Jesus em João 6) entenderam a carne como aquela que se solta de um cadáver, ou como aquela que é vendida no mercado, não a que se encontra animada pelo Espírito”; e: “entenderam-No carnalmente e imaginaram que o Senhor iria cortar algumas partes do Seu corpo para dar a eles”; ou São Cirilo de Alexandria, quando pregava que “quando ouviram [Jesus] dizer: ‘Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem, se não beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós’, imaginaram que estavam sendo convidados para algo cruel, próprio das feras: que desumanamente seriam obrigados a comer carne e a beber sangue; que seriam obrigados a fazer coisas que, só de ouvir, qualquer um já estremece”; ou o próprio Martinho Lutero, que afirmava: “Os judeus pensaram que deveriam comer Cristo, do mesmo modo que se come o pão e a carne do prato, ou como um leitãozinho assado”. A Igreja rejeita toda apresentação grosseira do mistério eucarístico e entende o comer a carne de Cristo no sentido real, porém sacramental e místico, não como que extraído de um cadáver ou como se fosse um leitãozinho assado.

[36] A ridícula acusação de canibalismo, por exemplo.




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