eucaristia (2)

Autor: Pe. Juan Carlos Sack
Fonte: http://www.apologetica.org
Tradução: Carlos Martins Nabeto

– “Receber Cristo a cada domingo? É claro que só podemos receber algo quando não temos esse algo (isto até me parece óbvio)” (Daniel Sapia, evangélico).

– “É certamente algo bom e proveitoso receber a Eucaristia todos os dias e assim participar do corpo e do sangue de Cristo” (São Basílio, Bispo, século IV).

– “Nossa manjedoura é o altar de Cristo, ao qual vamos todos os dias para comer o corpo do Senhor, alimento de salvação” (Cromácio de Aquileia, Bispo, século IV).

– “Ele é o pão que, semeado na Virgem, fermentado na carne, feito na Paixão, cozido no forno do sepulcro, preparado nas igrejas, levado aos altares, é dado diariamente aos fiéis como manjar celeste” (São Pedro Crisólogo, Bispo, século V).

[Dando continuidade a esta Série, abordaremos hoje Gregório de Elvira, Optato de Milevi, Macário Magnes e João Crisóstomo].

GREGÓRIO DE ELVIRA

Em sua obra “De Viris Illustribus” (“Dos Homens Ilustres”), São Jerônimo o louvava como Bispo de Elvira. Morreu por volta de 392.

Comentando Cântico dos Cânticos 2,4 (“Introduziu-me na casa do vinho”), diz:

– “O que significa ‘a casa do vinho’ senão o mistério da Paixão? Porque este vinho é o sangue de Cristo, que a Igreja sempre dá aos fiéis; o mistério da Paixão do Senhor, como Ele disse: ‘Se não comerdes a carne do Filho do homem – isto é, o pão da vida – e se não beberdes o Seu sangue, não tereis vida eterna” (Tractatus de Ephitalamio 3,24).

E explicando os gestos do Batismo, Confirmação e Eucaristia, que através da carne agem no espírito, ensina aos seus fiéis:

– “A carne é lavada para que a alma seja limpa; a carne é ungida para que a alma seja consagrada; a carne é assinalada para que a alma seja salva; a carne é encoberta pela imposição das mãos para que [a alma] seja iluminada pelo Espírito Santo; a carne come e bebe o corpo e o sangue de Cristo para que a alma seja saciada de Deus” (Tractatus De Libris Sacrarum Scripturarum 17,26).

OPTATO DE MILEVI

Importante personagem na luta contra a heresia norte-africana denominada “Donatismo”. Poucos dados biográficos são-nos conhecidos. Nasceu em torno de 385. Foi Bispo da cidade de Milevi. Alguns de seus escritos foram conservados.

Os donatistas tinham destruído altares do culto católico; então, contra eles, escreve o Bispo Optato:

– “Porque o que é o altar senão a sede do corpo e do sangue de Cristo? (…) Em que vos ofendeu Cristo, cujo corpo e sangue habitavam ali [sobre o altar] em certos momentos? (…) Porém, conseguistes duplicar esse crime monstruoso quando quebrastes também os cálices que portavam o sangue de Cristo” (Contra Parmenianum donatistam 6,1-2).

Os modernos donastistas já não destroem os altares católicos, mas evitam a todo custo que os fiéis participem deles.

MACÁRIO MAGNES 

Apologista cristão de finais do século IV. Foi Bispo de Magnésia. Sabemos que participou do Sínodo de Oak de 413. Por volta de 400, escreveu uma defesa do Cristianismo contra uma personagem fictícia que representava as acusações dos pagãos.

Macário responde a diversas objeções dos pagãos de então, que – curiosamente – também se baseavam nos Evangelhos para atacar as doutrinas católicas universalmente aceitas pelas igrejas. Entre outras coisas, o Cristianismo era acusado de “monstruosidade”, por convidar seus fiéis a comer o corpo e beber o sangue do Senhor (as mesmas acusações que atualmente alguns “cristãos evangélicos” nos fazem). Respondendo a esta objeção, diz, entre outras coisas:

– “Com toda razão Cristo, tomando o pão e o vinho, disse: ‘Isto é Meu corpo e Meu sangue’, pois não é figura do corpo, nem figura do sangue [como dizem alguns em sua mente], mas verdadeiramente corpo e sangue de Cristo”.

E um pouco depois:

– “O corpo de Deus, que é terreno, conduz à vida eterna aqueles que o comem. Cristo, portanto, deu aos fiéis o seu próprio corpo e sangue, introduzindo neles a medicina vital da divindade” (Apocrítico 3,23).

JOÃO CRISÓSTOMO 

Sem dúvida, é o mais renomado representante da Patrística Grega. Nasceu entre os anos 344 e 354 na Antioquia. Recebeu o Batismo por volta dos 18 anos, das mãos do Bispo de Constantinopla. Desde então, dedicou-se ao estudo das Escrituras, em particular das Cartas de Paulo, que chegou a reter de memória. Após algum tempo como ermitão nas proximidades de Antioquia, foi ordenado sacerdote. Pregou na principal igreja dessa cidade por 12 anos, onde mereceu o apelido “Boca de Ouro” (=”Crisóstomos”). Foi nomeado Bispo de Constantinopla, onde trabalhou incansavel e compromissadamente pela reforma dos costumes, o que lhe rendeu a perseguição por parte da Corte Real e dos clérigos a ela ligados. Morreu em 407, no desterro. Uma grande quantidade de suas obras foram conservadas.

Os textos de Crisóstomo acerca da Eucaristia são numerosos. Menciono aqui apenas alguns. Dirigindo-se aos recém-batizados no dia da Páscoa (de 390), lhes fala da ideia de combate ao demônio, devendo viver como cristãos com as armas dadas pelo Senhor:

– “Porém… O quê? Será que preparou apenas armas? Não, mas também preparou um alimento mais poderoso que qualquer arma, para que não te canses durante a luta, para que venças o inimigo com gosto. Pois basta que te veja voltar da Ceia do Senhor (=a Eucaristia), [o demônio] foge mais rápido que o vento, como se tivesse visto um leão saindo da tua boca. E se mostrares a língua tingida com o precioso sangue, nem poderá conter-se; se lhe mostras a boca vermelha de púrpura, fugirá mais rápido que uma fera” (Catecheses Ad Illuminandos Octo, Homilia 3,12).

E um pouco depois:

– “Então o anjo exterminador viu o sangue marcando as portas e não se atreveu a entrar. Agora, se o demônio já não vê a figura do sangue assinalando as portas, mas o verdadeiro sangue marcando as bocas dos fiéis – que são as portas do templo portador de Cristo – não irá com muito mais razão se deter? Porque se o anjo, ao ver a figura, se deteve, então muito mais o demônio fugirá ao ver a verdade” (Catecheses Ad Illuminandos Octo, Homilia 3,15).

Observamos antes que alguns Padres identificam o corpo eucarístico de Jesus com Seu corpo histórico, sempre de modo sacramental, jamais canibalístico. Crisóstomo ensina o mesmo. Em diversas obras, diz:

– “Feito filho, gozas também de uma mesa espiritual, comendo a carne e o sangue que te regenerou” (Exposição ao Salmo 144,1).

– “Porque o que disse foi isto: que o que está no cálice é aquilo que emanou do lado [aberto de Cristo]; e disso participamos” (Sobre 1Coríntios, Homilia 24,1).

– “Todos nós que participamos do corpo, todos nós que provamos deste sangue, devemos pensar que participamos do corpo que não difere em nada e nem se distingue daquele [corpo histórico de Jesus]” (Sobre Efésios, Homilia 3,3).

– “Elias deixou o manto com seu discípulo, mas o Filho de Deus, ao subir [aos céus], nos deixou Sua própria carne. Elias desnudou-se dele, mas Cristo nos deixou [Sua carne] e também subiu [aos céus] com ela” (De Statuis, Homilia 2,9).

– “Eu te mostro [na Eucaristia] não anjos, nem arcanjos, nem céus, nem céu dos céus, mas o próprio Senhor disso tudo. Percebes como estás vendo a mais preciosa de todas as coisas da Terra e que, não apenas a estás vendo, como também a tocas; e que não apenas a tocas, mas também a comes e, levando-a [em ti], voltas para a tua casa?” (Sobre 1Coríntios, Homilia 24,5).

– “Quantos dizem agora: como eu gostaria de ver a Sua forma, a Sua figura, as Suas vestes, os Seus calçados. Pois aqui [na Eucaristia] O estás vendo, O tocas, O comes. Desejas ver Suas vestes? Ele mesmo Se dá a ti, não só para que O veja, mas também para que O toques e O comas, e O recebas dentro de ti” (Sobre Mateus, Homilia 82,4).

– “Não é o homem quem faz que as coisas ofertadas (=o pão e o vinho) se convertam no corpo e sangue de Cristo, mas o próprio Cristo que foi crucificado por nós. O sacerdote, figura de Cristo, pronuncia essas palavras, mas sua eficácia e graça provêm de Deus. ‘Isto é Meu corpo’ – diz. Esta palavra transforma as coisas ofertadas” (Prod. Jud. 1,6).

A tradicional relação entre Eucaristia e Encarnação resta, assim, afirmada com toda clareza:

– “O que há de igual na economia realizada para nós? Pois Aquele (=Jesus) que era para Ele (=o Pai) o mais precioso de todos os seres, o Filho unigênito, a Esse O deu por nós, seus inimigos. E não apenas O deu, como também, depois de O ter dado, nós coloca Ele também como alimento” (Sobre Mateus, Homilia 25,4).

– “[Cristo diz:] ‘Quis fazer-Me vosso irmão. Por vós, participei da carne e do sangue. Novamente vos dou hoje a mesma carne e o mesmo sangue, pelos quais cheguei a ser parente vosso'” (Sobre João, Homilia 46,3).

– “E em muitos lugares repete a mesma coisa, deixando bem claro que o que se recebe na Eucaristia não é uma recordação de Jesus, mas que na recordação Dele se recebe ‘o próprio Filho de Deus’, ‘o Rei do Universo’, ‘o Senhor do Mundo’, ‘o próprio Cristo’, ‘Sua própria carne’, ‘aquela que brotou do Seu lado [aberto]'”[41].

O sr. Guillermo Hernández Agüero, no artigo que publica no site “Conoceréis la Verdad”, traz as seguintes palavras de Crisóstomo para defender a permanência da substância do pão após a consagração:

– “O pão após a consagração é digno de ser chamado ‘o corpo do Senhor’, mesmo quando a natureza do pão permanece nele” (Carta a Cesário).

Em primeiro lugar, esta obra não provém da pena de João Crisóstomo; é apócrifa (atribuída a Crisóstomo), mas de outro autor na verdade (possivelmente Teodoreto de Ciro).

Em segundo lugar, a frase completa é esta:

– “Do mesmo modo que o pão, antes de ser santificado, é chamado ‘pão’, mas uma vez que tenha sido santificado pela graça divina, através do sacerdote, perde o nome ‘pão’ e é digno de ser chamado ‘corpo do Senhor’, embora a natureza de pão permaneça nele, dizemos, no entanto, que não há dois corpos do Filho, mas apenas um” etc. (texto em Migne 52,758).

Em terceiro lugar, [está claro que o texto] supõe que algo ocorre durante a consagração (ou “santificação”) feita pelo “sacerdote”, de modo que o pão pode ser apropriadamente chamado de “corpo do Senhor” (coisa que os inimigos da presença real jamais fizeram e nem falam de modo semelhante; a “santificação” do pão por obra de Deus através do “sacerdote”, que permite que possamos chamar esse pão de “corpo do Senhor”, todo este vocabulário pertence ao culto católico e de modo algum ao culto “evangélico”).

Em quarto lugar, o texto – independentemente de quem tenha sido o seu autor – afirma que após a consagração o pão continua conservando todas as suas propriedades (coisa que é definida como “a natureza” do pão) e que, bem entendido, não afasta a doutrina da presença real. Não devemos esquecer que o mistério eucarístico foi precisando aos poucos as palavras que o expressam, de modo que seria anacronismo exigir que um autor do século V ou VI empregasse as categorias filosóficas e hermenêuticas que se desenvolveram muito depois na teologia eucarística. Poderíamos dizer muito bem hoje – por exemplo, durante uma homilia – que “o pão conserva sua natureza de pão” desde que se entenda por isto não “a substância” do mesmo, mas todos os seus acidentes naturais: odor, sabor, cor etc. Em outras palavras: é possível compreender muito bem este texto no sentido católico.

Em quinto lugar, devemos saber que o autor menciona esse tema muito de passagem e como exemplo para um outro assunto que está abordando em profundidade, no caso, as duas naturezas de Cristo. É importante saber isto para estimar a importância do texto.

Por fim, se se quer ver neste texto uma expressão favorável [de João Crisóstomo] à presença simbólica, dever-se-ia afirmar também que destoa de todos os demais textos eucarísticos deste mesmo autor.

É interessante notar o “modus agendi” de pessoas como Hernández Agüero: o leitor desprevenido, ao ler a expressão do autor “evangélico”: “Existem alguns Padres que podem nos dizer algo sobre o nosso tema”, poderá pensar que efetivamente está diante de material patrístico abordando a Eucaristia… Mas isso é verdade? Muito pelo contrário! Citar quatro expressões de dois Padres (um dos quais nem sequer sabemos realmente quem foi) e apresentar isso como “o que alguns Padres podem nos dizer” – sabendo que o que eles “podem nos dizer” sobre a Eucaristia enche dois enormes volumes[42] – é lorota pura e simples. E isto não nos surpreende, já que as duas únicas citações escolhidas pretendem ser contrárias à doutrina católica… Honestidade intelectual? O leitor pode encontrar o que “alguns Padres podem nos dizer sobre o nosso tema” em publicações católicas (das quais o nosso trabalho é apenas mero resumo), jamais nos autores “evangélicos” que temos citado aqui. Nestes [autores], a verdade em relação ao que toda a Igreja acreditou por dois milênios brilha, infelizmente, por sua ausência.

NOTAS:

[41] Por exemplo: Sobre Mateus, Homilia 25,4; Sobre 1Coríntios, Homilia 24,2; Sobre 2Coríntios, Homilia 11,2; Sobre Efésio, Homilía 3,5, etc.

[42] Na edição de Jesús Solano são dois grossos volumes mas, com certeza, não se trata de um trabalho exaustivo.




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