A história de Wanda Poltawska, “irmãzinha” de Karol Wojtyla

Por Renzo Allegri

ROMA, sexta-feira, 12 de junho de 2009 (ZENIT.org).- Seu nome circula pelos jornais do mundo inteiro já há algumas semanas. Ela se chama Wanda Poltawska, é polonesa, tem 88 anos e é médica psiquiatra. A razão deste interesse repentino da imprensa está no fato de que Poltawska publicou muitas das cartas que recebeu de João Paulo II.

E, como era previsível, alguns meios de comunicação quiseram tornar um escândalo as cartas de João Paulo II a uma mulher.

As cartas, publicadas em um livro recentemente lançado na Polônia, fazem parte de uma intensa correspondência trocada entre Poltawska e Wojtyla ao longo de 55 anos. Os dois se conheceram imediatamente depois da 2ª Guerra Mundial, tornaram-se amigos e colaboraram juntos em numerosas iniciativas.

Primeiro em Cracóvia, nas atividades culturais e sociais da diocese, sobretudo para os problemas da família; e, após a eleição de Karol Wojtyla como pontífice, em Roma, onde Poltawska se converteu em membro do Conselho Pontifício para a Família, consultora do Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde e membro da Academia Pontifícia para a Vida.

Uma atividade intensa, uma amizade transparente, que todos conheciam. Uma amizade que teve extraordinária visibilidade em 1984, quando se soube que Poltawska havia sido objeto de um milagre por intercessão do Padre Pio, por meio da solicitação de Karol Wojtyla.

A história se remonta a 1962. Portadora de um tumor, Wanda estava a ponto de morrer. Os médicos não lhe deram esperanças; queriam de qualquer forma tentar uma operação. Wojtyla, jovem bispo, encontrava-se em Roma para o Concílio. Foi informado e escreveu imediatamente uma carta ao Padre Pio, pedindo-lhe que rezasse por aquela mulher. A carta é de 17 de novembro de 1962. Foi entregue ao Padre Pio através de Angelo Battisti, que era administrador da Casa Alívio do Sofrimento. O Padre Pio pediu a Battisti que lesse a carta para ele. Ao acabar, disse, “Angelo, a isso não se pode dizer que não”.

Battisti, que conhecia bem os carismas do Padre Pio, voltou a Roma surpreso e continuava se perguntando o porquê daquela frase: “A isso não se pode dizer que não”. Onze dias depois, no dia 28 de novembro, ele foi encarregado de levar uma nova carta ao Padre Pio. Nesta, o bispo polonês agradecia ao sacerdote por suas orações, porque “a mulher que tinha o tumor foi curada de repente, antes de entrar na sala de cirurgia”. Um verdadeiro e chamativo milagre, portanto, testificado pelos médicos.

Conheço bem este assunto porque fui eu quem o deu a conhecer pela primeira vez em 1984, em uma biografia do Padre Pio que escrevi para Mondadori (Itália). As cartas de Wojtyla me foram entregues por Angelo Battisti, que havia me contado também o detalhe do comentário incrível do Padre Pio: “A isso não se pode dizer que não”. Assim que meu livro saiu, estas cartas foram reproduzidas pela imprensa do mundo todo e, portanto, desde então, a amizade entre Karol Wojtyla e Wanda Poltawska era conhecida. Logo depois houve muitos outros artigos sobre o tema, meus e de outros colegas, e se publicaram numerosas e belíssimas fotografias, que agora vários jornais reproduzem. Nada de novo, portanto. Uma grande amizade, uma extraordinária colaboração que não se interromperam com a eleição de Wojtyla ao trono pontifício.

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A publicação das cartas, no entanto, provoca feridas. E também preocupação, sobretudo no mundo eclesiástico. O cardeal da Cracóvia, em uma entrevista realizada em meio à polêmica, recriminou a Dra. Poltawska, dizendo que deveria ficar calada. Mas, examinando a situação com mente fria, chega-se a dar a razão à Dra. Poltawska. Ela fez bem em publicar estas cartas. Sua amizade era conhecida. Muitos conheciam esta correspondência. Na Congregação para a Causas dos Santos, queriam aquelas cartas. Mas não se sabe como as julgariam. E seu juízo teria permanecido secreto, sepultado nos arquivos daqueles palácios infranqueáveis. A Dra. Poltawska preferiu a luz do sol. Precisamente porque não há nada a esconder. Pelo contrário, são cartas belíssimas, de uma riqueza espiritual e humana comovente. Demonstram, como se ainda houvesse necessidade, a grandeza descomedida do coração de Karol Wojtyla, o imenso amor que tinha naquele seu coração, “imenso”, precisamente porque “amava” com o amor de Deus.

Nos vários artigos publicados nestes dias, fala-se das cartas do Papa à Dra. Poltawska, mas ninguém se dedica a explicar quem é esta mulher e por que foi tão amiga de Karol Wojtyla.

Ao começar a 2ª Guerra Mundial em 1939, Wanda Poltawska era uma jovem estudante universitária. Tinha 18 anos. Assistia aos círculos de estudantes católicos. E quando os nazistas invadiram a Polônia, como tantos outros de seus conterrâneos, começou a fazer parte da Resistência Partisana, para defender a pátria. Mas foi descoberta, arrestada, conduzida à Alemanha e passou 5 anos em um campo de concentração.

Ao voltar para casa, retomou seus estudos, formou-se em Medicina e se especializou em Psiquiatria. Pessoa reservada, nunca falava de tudo o que havia sofrido. Ela quis, no entanto, transcrever em um caderno o que recordava para que não se perdesse. E só no começo da década de 80, deixou-se convencer por uma amiga e publicou aquelas suas memórias em um livrinho, intitulado “Ravensbruck. Tenho medo dos meus sonhos”. Eu o conheci em 1996, através do professor Adolfo Turano, microbiólogo, que o estava traduzindo para publicá-lo também na Itália. Conservo ainda o manuscrito que ele me deu. Depois, o professor morreu prematuramente, mas sei que o livro foi publicado na Itália no ano passado.

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É um documento emocionante. Desvela detalhes horríveis, alguns inéditos, sobre a crueldade dos verdugos nazistas. Poltawska conta a própria história de jovem prisioneira que vive um drama espantoso, mas a conta com uma comovente e maravilhosa participação no sofrimento dos demais. Poltawska não se limita a contar, naquelas páginas, os próprios padecimentos, sua ansiedade, seu sofrimento. Ela vê a si mesma e a todas as companheiras com o mesmo interesse. E este é um dado para ter bem presente, porque demonstra que os sofrimentos inumanos padecidos não apagaram jamais em seu coração a bondade, a dignidade humana, a solidariedade. Nos campos de concentração alemães estava o inferno, estendeu-se o “mal personificado”, mas entre as vítimas inocentes houve luminosos e incríveis exemplos de bem, de altruísmo heroico.

“Uma tarde –escreve Wanda Poltawska no início de seu livro de memórias (cito da tradução que o professor Turano me deu)– estudava em casa quando na entrada uma voz masculina, em polonês, ressoou estranha e agressiva: ‘Quem de vocês é Wanda?’. E assim começou. Saí… e voltei só agora, após cinco anos de campo de concentração”.

A jovem, primeiro foi levada ao comando da Gestapo, em Cracóvia, e submetida a um interrogatório que durou alguns dias. Foi espancada violentamente, com socos no rosto e no estômago, e ameaçada sob a mira de um revólver.

Foi logo fechada em uma cela lotada de prisioneiros. “Na prisão, havia piolhos, pulgas, sujeira, não tinha água e brotou tifo. De noite, às vezes, de repente, acendiam as luzes, fazendo-nos permanecer firmes, começavam a chamar alguns de nós. Depois, na cela, já não se dormia, rezava-se por aquelas que tinham saído. E pouco depois, sob nossas janelas, ouvíamos os disparos da execução”.

Após quase sete meses, as prisioneiras foram transportadas em um trem de mercadorias para a Alemanha, ao campo de Ravensbruck, onde os médicos alemães faziam experimentos com cobaias humanas. “Estávamos destinadas a morrer. Nossas vigilantes nos espancavam até o sangue. Fomos nuas, nos deram vestidos de listras, rasparam nosso cabelo; queriam destruir nossa personalidade”.

Começaram então os trabalhos pesados, pesadíssimos. “Carregávamos uma quantidade desmedida de peso em nossos ombros… Recordo ter levado sobre meus ombros 80 quilos de cimento subindo escadas estreitas até o teto de uma casa de dois andares: sentia-me morrer, mas não podia deixar cair o peso porque atrás vinha outra prisioneira e a teria matado… Tínhamos de cimentar as áreas. As guardas gritavam ameaçadoras a qualquer sinal de descanso. As mãos sangravam”.

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“Voltávamos do trabalho com as mãos inchadas, os ossos quebrados. Deitávamos e após uma hora soava a sirene para revista. Voltávamos ao dormitório e, após outra hora, mais uma revista. Não se conseguia pregar os olhos. O cansaço era enorme. Às vezes, durante a revista, se dormia em pé, com os olhos abertos, e alguma caía. Era erguida a golpes. A fome era mais forte que o desejo de dormir. Estávamos magras como esqueletos. Nem sequer a vista das mulheres nuas, na fila para o banho, terrivelmente fracas, causava mal-estar. Olhávamos com indiferença nossa magreza, assim como para a possibilidade da morte. Pela fome nos convertíamos em ladras, brigávamos por migalhas”.

E logo, em um certo momento, houve o chamado de um grupo que foi levado ao pavilhão da enfermaria, entre elas também Wanda. São lavadas, uma enfermeira as depila, lhes aplicam injeções que fazem perder a consciência. Quando as moças despertam, encontram as pernas engessadas. Que aconteceu? Não sabem. São devolvidas ao dormitório em cadeiras de rodas. Na cama, durante a noite, quando termina o efeito dos soníferos, começam dores terríveis.

Começa assim o martírio. Aquelas meninas convertem-se em cobaias humanas para atrozes experimentos médicos. As operações nas pernas acontecem em períodos fixos. As feridas praticadas são tratadas com medicamentos especiais que produzem infecções, gangrenas. Naquele estado, as vítimas são abandonadas sozinhas nos dormitórios, sem nenhuma assistência. Wanda, ainda não podendo manter-se em pé, deixa-se cair na cama e, agarrando-se às camas das companheiras, chega àquelas que sofrem mais para levar consolo, lava os rostos febris com panos úmidos, conforta quem está agonizando. De dia chegam os médicos, observam as feridas, e ordenam outros experimentos. A cada pouco, uma menina morre.

O desespero das sobreviventes é indizível. Mas Wanda, inclusive naquela situação terrível, consegue manter seu equilíbrio cristão. “Não tinha ódio e nem sequer agora tenho. Que via naqueles alemães? Olhava-os e buscava neles as pessoas”.

Esta, em uma rápida síntese, é a inacreditável e horrível experiência que Wanda Poltawska fez, dos 18 aos 23 anos, no campo de concentração de Ravensbruck. Uma experiência capaz de destruir qualquer equilíbrio psíquico. Wanda sobreviveu física e psiquicamente àqueles horrores graças a sua fé. E também graças à ajuda de um jovem sacerdote, Karol Wojtyla, que conheceu ao retornar a casa. Àquele sacerdote confiou seus dramas espantosos e ele pôde “compreender”, porque também ele, nos anos de guerra, fora martirizado por grandes dores pessoais que o conduziram à vocação sacerdotal. E nasceu assim uma amizade, alimentada pelo resto da vida, cheia de atividades e de iniciativas para promover os valores que brotaram daqueles longos sofrimentos.




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