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A comunhão das nove primeiras sextas-feiras garante a salvação?

Fonte: Padre Paulo Ricardo

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Nosso Senhor, em aparição a Santa Margarida Maria Alacoque, uma religiosa visitandina que vivia em Paray-le-Monial, no século XVII, fez doze promessas à humanidade. A décima segunda promessa, conhecida como “a grande promessa”, diz o seguinte: “Eu prometo, na excessiva misericórdia do meu Coração, que meu amor onipotente concederá a todos os que comungarem durante nove primeiras-sextas feiras do mês seguidas, a graça da penitência final; não hão de morrer em pecado e sem receber os sacramentos, servindo-lhes meu Coração de asilo seguro naquele último momento.”

Pode-se confiar nessa prática devocional para alcançar a salvação? Qual o fundamento para crer nessa promessa?

É claro que, tratando-se de uma revelação privada, essa devoção não pertence ao depósito da fé [1] e não tem o caráter de obrigatoriedade. No entanto, o fato de o Magistério da Igreja ter aprovado repetidas vezes essa revelação torna-a digna de fé e confiança por parte dos fiéis.

Além disso, uma ligeira investigação teológica nas Sagradas Escrituras demonstra que a promessa de Nosso Senhor a Santa Margarida está em perfeita sintonia com o que Ele diz, por exemplo, no Evangelho de São João: “Todos aqueles que o Pai me dá, virão a mim. E eu nunca rejeitarei aquele que vem a mim (…). Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. (…) Quem come deste pão viverá para sempre.” [2]

Há uma ligação entre a Eucaristia e a vida eterna. E não se pode dizer que isso é, em si, supersticioso, pois não se trata de uma realidade natural, sobre a qual se poderia supor algum efeito mágico; é, antes, um sacramento da Igreja, em relação ao qual o próprio Deus estabelece uma promessa. No entanto, adverte a Igreja, “atribuir só à materialidade das orações ou aos sinais sacramentais a respectiva eficácia, independentemente das disposições interiores que exigem, é cair na superstição” [3].

Para evitar que tão bela promessa seja tratada de modo supersticioso, é importante que se comungue em estado de graça e que se confie na misericórdia divina, que é o conteúdo da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. A graça da perseverança final, embora não possa ser merecida, é ladeada por esses sinais.

Portanto, a prática das nove primeiras sextas-feiras do mês não é uma mágica, mas uma realidade pedagógica, para que os fiéis se habituem a viver em estado de graça, crescendo na devoção eucarística e na confiança na misericórdia de Deus. Só assim, orando humilde e confiantemente ao Sagrado Coração de Jesus, a alma pode alcançar a graça da penitência final.

Referências

  1. Cf. Catecismo da Igreja Católica, 67: “No decurso dos séculos tem havido revelações ditas ‘privadas’, algumas das quais foram reconhecidas pela autoridade da Igreja. Todavia, não pertencem ao depósito da fé. O seu papel não é ‘aperfeiçoar’ ou ‘completar’ a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente (…).”
  2. Jo 6, 37.54.58
  3. Catecismo da Igreja Católica, 2111

A comunhão diária é um exagero?

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A comunhão diária é uma prática muitíssimo aconselhada pelos Santos Padres e também por grandes santos da história recente da Igreja. Contudo, durante um certo período houve escrúpulo em se comungar todos os dias e, até hoje se vêem resquícios dele. Isso se deu principalmente por causa de duas heresias: a de Baio e do jansenismo. Elas consistiam em colocar tantas exigências morais para as pessoas comungarem que tornava o ato quase impossível. Para os heréticos, a comunhão exigia um coração puríssimo, perfeitíssimo, uma reta intenção e um grande conhecimento intelectual acerca da Eucaristia. Por isso, as pessoas comungavam raramente, no máximo uma vez ao ano e, mesmo assim, imediatamente após saírem do confessionário.

No entanto, Santa Teresinha do Menino Jesus, no século XIX, que vivia numa França ainda enxovalhada de influência jansenista, expressou claramente como venceu tais escrúpulos. Em uma carta escrita à sua prima, ela explica que a comunhão frequente é um instrumento extraordinário até mesmo para vencer os escrúpulos, pois Jesus está lá para servir de alimento, para alimentar. Os Santos Padres já diziam isso e Santa Teresinha chegou à essa conclusão mesmo sem nunca tê-los lido, tal era a sua genialidade espiritual. Os Santos Padres, quando comentavam sobre o Pai-Nosso, diziam que “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”, significava sobretudo o pão diário da Palavra de Deus meditada e o pão diário da Eucaristia.

A tradição da comunhão diária e, principalmente, da celebração diária feita pelo sacerdote estava presente na Igreja latina, do Ocidente. Todavia, com o passar dos tempos, esses bons hábitos foram se perdendo e deram lugar aos escrúpulos, às dificuldades, de tal forma que a Eucaristia tornou-se um prêmio para aqueles que eram santos e não um alimento que santificava e continua santificando.

Quando São Pio X leu a carta de Santa Terezinha percebeu que o erro deveria ser remediado, para tanto, determinou que fossem escritos dois extraordinários documentos. Em 1905, a “Sacra Tridentina Synodos”, no qual coloca as disposição que se deve ter para comungar todos os dias, dentre eles, que a comunhão será alimento e força para que a pessoa vença os pecados veniais, portanto, embora aconselhável, não é necessário que ela esteja livre dos pecados veniais. É preciso sim, estar em estado de graça, ou seja, livre de pecado mortal. O Papa São Pio X que, muito justamente, recebeu o título de “O Papa da Eucaristia”, que fora pároco, bispo diocesano, portanto, conhecia as necessidades pastorais do rebanho, abriu as portas da comunhão diária, ouvindo o apelo do povo e da grande “Santinha”, Santa Teresinha do Menino Jesus.

Ele também mandou escrever o documento “Quam Singulari” de 08 de agosto de 1910, no qual permitiu e incentivou que as crianças se aproximassem da comunhão tão logo adentrassem à idade da razão, ou seja, por volta dos sete anos. Ele afirmou que não é necessário que a criança tenha um conhecimento “especializado” da Eucaristia, mas tão somente que a distinga do pão comum, que saiba da sua sacralidade, da sua importância para a sua vida espiritual.

Diante desses dois documentos seria salutar fazer um exame de consciência diante da comunhão diária. As atitudes tendem a dois extremos: o do laxismo moral, em que se recebe a comunhão como se nada fosse, como se não fosse necessário o estado de graça. De outro lado, o abismo dos escrúpulos, de passar a exigir práticas e comportamentos que inexistem na Igreja. Por exemplo, qual é a idade mínima para se receber a comunhão? São Pio X abriu as portas para que as crianças recebessem a primeira Comunhão com o uso da razão. A partir dele, elas podem comungar após terem feito a confissão. Mas, qual é a orientação nas paróquias acerca do tema?

Em tantos aspectos se quer ser “moderno”, por que justamente nesse adotou-se tamanho rigorismo? Às crianças é permitido o acesso às coisas mais torpes desde a mais tenra idade e, ao mesmo tempo, pretende-se resguardar o Santíssimo Sacramento delas. Soa quase absurdo.

Urgente se faz retornar às práticas pastorais desse grande santo, deixando de lado os dois extremos: o laxismo e o abismo de um rigorismo intelectualista.

Fonte: Padre Paulo Ricardo

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