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A intolerância Católica

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Fonte: Santo Tomas

Cardeal Pio

Sermão pregado na Catedral de Chartres (excertos); 1841.

Meus irmãos (…),

Nosso século clama: “tolerância, tolerância”. Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante. Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza, e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante. Mas antes de entrar no mérito, distinguindo as coisas, convenhamos sobre o sentido das palavras para bem nos entendermos. Assim não nos confundiremos.

A tolerância pode ser civil ou teológica. A primeira não nos diz respeito, e não darei senão uma pequena palavra sobre ela: se a lei tolerante quer dizer que a sociedade permite todas as religiões porque, a seus olhos, elas são todas igualmente boas ou porque as autoridades se consideram incompetentes para tomar partido neste assunto, tal lei é ímpia e atéia. Ela exprime não a tolerância civil como a seguir indicaremos, mas a tolerância dogmática que, por uma neutralidade criminosa, justifica nos indivíduos a mais absoluta indiferença religiosa. Ao contrário, se, reconhecendo que uma só religião é boa, a lei suporta e permite que as demais possam exercer-se por amor à tranqüilidade pública, esta lei poderá ser sábia e necessária se assim o pedirem as circunstâncias, como outros observaram antes de mim (…).

Deixo porém este campo cheio de dificuldades, e volto-me para a questão propriamente religiosa e teológica, em que exponho estes dois princípios: primeiro, a religião que vem do céu é verdade, e é intolerante com relação às doutrinas errôneas; segundo, a religião que vem do céu é caridade, e é cheia de tolerância quanto às pessoas.

Roguemos a Nossa Senhora vir em nossa ajuda e invocar para nós o Espírito de verdade e de caridade: Spiritum veritatis et pacis. Ave Maria.

Faz parte da essência de toda a verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, podem-se partilhar os sentimentos, podem variar as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opinião nas coisas duvidosas: in dubiis, libertas. Mas, logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária, e por conseguinte ela é una e intolerante: in necessariis, unitas. Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se admite com indiferença que se ponha a seu lado a sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa, é preciso defendê-la, sob pena de logo se ver despojado dela.

Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda a parte, porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. Que há de mais intolerante do que esta proposição: 2 mais 2 fazem 4? Se vierdes dizer-me que 2 mais 2 fazem 3 ou fazem 5, eu vos respondo que 2 mais 2 fazem 4…

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Apóstolo São Paulo

Por Papa Bento XVI
Fonte: Vaticano

Caros irmãos e irmãs

Hoje gostaria de começar um novo ciclo de Catequeses, dedicado ao grande Apóstolo São Paulo. A ele, como sabeis, é consagrado este ano, que iniciou na festa litúrgica dos Santos Pedro e Paulo de 29 de Junho de 2008 e terminará com a mesma festa em 2009. O Apóstolo Paulo, figura excelsa e quase inimitável, mas de qualquer maneira estimulante, está diante de nós como exemplo de total dedicação ao Senhor e à sua Igreja, bem como de grande abertura à humanidade e às suas culturas. Portanto, é justo que lhe reservemos um lugar especial, não só na nossa veneração, mas também no esforço de compreender aquilo que ele tem para nos dizer, a nós cristãos de hoje. Neste nosso primeiro encontro, queremos deter-nos para considerar o ambiente em que se encontrou a viver e a agir. Um tema deste género pareceria levar-nos para longe do nosso tempo, visto que devemos inserir-nos no mundo de há dois mil anos. E todavia isto só é verdade aparentemente e, de qualquer forma apenas de modo parcial, porque poderemos constatar que, sob vários aspectos, o contexto sociocultural de hoje não se diferencia muito do de então.

Um factor primário e fundamental que se deve ter presente é constituído pela relação entre o ambiente em que Paulo nasce e se desenvolve, e o contexto global em que sucessivamente se insere. Ele vem de uma cultura bem específica a circunscrita, certamente minoritária, que é a do povo de Israel e da sua tradição. No mundo antigo e nomeadamente no âmbito do Império Romano, como nos ensinam os estudiosos da matéria, os judeus deviam representar cerca de 10% da população total; depois em Roma, por volta dos meados do século I o seu número era ainda menor, alcançando ao máximo 3% dos habitantes da cidade. Os seus credos e o seu estilo de vida, como acontece também hoje, distinguiam-nos claramente do ambiente circunstante; e isto podia ter dois resultados: ou a ridicularização, que podia levar à intolerância, ou então a admiração, que se exprimia de várias formas de simpatia, como no caso dos “tementes a Deus” ou dos “prosélitos”, pagãos que se associavam à sinagoga e partilhavam a fé no Deus de Israel. Como exemplos concretos desta dupla atitude podemos citar, por um lado, o juízo pungente de um orador como Cícero, que desprezava a sua religião e até a cidade de Jerusalém (cf. Pro Flacco, 66-69) e, por outro, a atitude da esposa de Nero, Popeia, que é recordada por Flávio Josefo como “simpatizante” dos judeus (cf. Antiguidades judaicas 20, 195.252; Vita 16), sem mencionar que já Júlio César lhes tinha oficialmente reconhecido alguns direitos particulares que nos foram legados pelo mencionado historiador judeu Flávio Josefo (cf. ibid., 14, 200-216). Sem dúvida, o número de judeus, como de resto acontece ainda hoje, era muito maior fora da terra de Israel, ou seja na diáspora, do que no território que os outros chamavam Palestina.

Portanto, não admira que o próprio Paulo tenha sido objecto da dupla e contrastante avaliação de que falei. Uma coisa é segura: o particularismo da cultura e da religião judaica encontra tranquilamente lugar no interior de uma instituição tão omnipresente como era o império romano. Mais difícil e sofrida foi a posição do grupo daqueles, judeus ou gentios, que aderiram com fé à pessoa de Jesus de Nazaré, na medida em que se distinguiram quer do judaísmo quer do paganismo imperante. De qualquer forma, dois factores favoreceram o compromisso de Paulo. O primeiro foi a cultura grega, ou melhor helenista, que depois de Alexandre Magno se tinha tornado património comum pelo menos do Mediterrâneo oriental e do Médio Oriente, mesmo que tenha integrado em si muitos elementos das culturas de povos tradicionalmente considerados bárbaros. Um escritor dessa época afirma, a este propósito, que Alexandre “ordenou que todos considerassem como pátria toda a ecumene… e que o Grego e o Bárbaro já não se distinguissem” (Plutarco, De Alexandri Magni fortuna aut virtute 6.8). O segundo factor foi a estrutura político-administrativa do império romano, que garantia paz e estabilidade desde a Britânia até ao Egipto meridional, unificando um território de dimensões nunca vistas. Neste espaço podia-se mover com suficiente liberdade e segurança, usufruindo entre outras coisas de um sistema rodoviário extraordinário, e encontrando em cada ponto de chegada características culturais de base que, sem prejudicar os valores locais, representavam contudo um tecido comum de unificação super partes, a tal ponto que o filósofo judeu Filone Alexandrino, contemporâneo do próprio Paulo, elogia o imperador Augusto, porque “compôs em harmonia todos os povos selvagens… tornando-se guardião da paz” (Legatio ad Caium 146-147).

A visão universalista típica da personalidade de São Paulo, pelo menos do Paulo cristão sucessivo ao acontecimento do caminho de Damasco, deve certamente o seu impulso básico à fé em Jesus Cristo, enquanto a figura do Ressuscitado se situa além de qualquer limite particularista; com efeito, para o Apóstolo “já não há judeu nem grego; não há servo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo” (Gl 3, 28). Todavia, também a situação histórico-cultural do seu tempo e do seu ambiente não deixou de influenciar as escolhas e o seu compromisso. Alguém definiu Paulo “homem de três culturas”, tendo em consideração a sua matriz judaica, a sua língua grega e a sua prerrogativa de “civis romanus”, como atesta também o nome de origem latina. Há que recordar de modo especial a filosofia estóica, que na época de Paulo era predominante e que influiu, embora em medida marginal, também sobre o cristianismo. A este propósito, não podemos deixar de mencionar alguns nomes de filósofos estóicos, como os iniciadores Zenão e Cleante, e depois os que cronologicamente estão mais próximos de Paulo, como Séneca, Musónio e Epicteto: neles encontram-se elevadíssimos valores de humanidade e de sabedoria, que naturalmente serão recebidos no cristianismo. Como escreve de modo excelente um estudioso da matéria, “a Stoa… anunciou um novo ideal, que impunha ao homem deveres em relação ao seu próximo, mas ao mesmo tempo libertava-o de todos os vínculos físicos e nacionais, e dele fazia um ser puramente espiritual” (M. Pohlenz, La Stoa, I, Florença 2 1978, págs. 565 s.). Pensemos, por exemplo, na doutrina do universo entendido como um único grande corpo harmonioso e, consequentemente, na doutrina da igualdade entre todos os homens sem distinções sociais, na equiparação pelo menos de princípio entre o homem e a mulher, e depois no ideal da frugalidade, da justa medida e do domínio de si para evitar qualquer excesso. Quando Paulo escreve aos Filipenses: “Tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de algum modo mereça louvor, é o que deveis ter em mente” (Fl 4, 8), não faz senão retomar uma concepção claramente humanista própria daquela sabedoria filosófica.

Na época de São Paulo havia também uma crise da religião tradicional, pelo menos nos seus aspectos mitológicos e também cívicos. Depois que Lucrécio já um século antes, tinha polemicamente asseverado que “a religião conduziu a muitas injustiças” (De rerum natura, 1, 101), um filósofo como Séneca, indo muito além de todo o ritualismo exteriorista, ensinava que “Deus está próximo de ti, está contigo, está dentro de ti” (Cartas a Lucílio, 41, 1). Analogamente, quando Paulo se dirige a um auditório de filósofos epicureus e estóicos no Areópago de Atenas, diz textualmente que “Deus não habita em santuários feitos por mãos humanas… mas nele vivemos, nos movemos e existimos” (Act 17, 24.28). Com isto, ele certamente faz ressoar a fé judaica num Deus não representável em termos antropomórficos, mas põe-se também numa sintonia religiosa que os seus ouvintes conheciam bem. Além disso, temos que ter em conta o facto de que muitos cultos pagãos prescindiam dos templos oficiais da cidade e se realizavam em lugares particulares que favoreciam a iniciação dos adeptos. Por isso, não constituía motivo de admiração, o facto de que também as reuniões cristãs (as Ekklesíai), como nos atestam sobretudo as Cartas paulinas, se realizassem em casas particulares. De resto, nessa época ainda não existia qualquer edifício público. Portanto, as reuniões dos cristãos deviam parecer aos contemporâneos como uma simples variante desta sua prática religiosa mais íntima. De qualquer forma, as diferenças entre os cultos pagãos e o culto cristão não são de pouca monta e dizem respeito tanto à consciência identitária dos participantes como a participação comum de homens e mulheres, a celebração da “ceia do Senhor” e a leitura das Escrituras.

Em conclusão, desta rápida série sobre o ambiente cultural do século I da era cristã parece claro que não é possível compreender adequadamente São Paulo sem o inserir no contexto, tanto judaico como pagão, do seu tempo. Deste modo, a sua figura adquire valor histórico e ideal, revelando partilha e ao mesmo tempo originalidade em relação ao ambiente. Mas isto vale analogamente também para o cristianismo em geral, do qual precisamente o Apóstolo Paulo constitui um paradigma de primeira ordem, do qual todos nós temos sempre muito a aprender. Esta é a finalidade do Ano Paulino: aprender de São Paulo, aprender a fé, aprender Cristo e, enfim, aprender o caminho da vida recta.

Cassiodoro de Squillace

Por Papa Bento XVI
Tradução: Élison Santos
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Quero falar hoje de (…) Cassiodoro, que [também viveu] em uma das épocas mais atribuladas do Ocidente cristão, em particular na península italiana. Odoacro, rei dos hérulos, uma etnia germânica, havia se rebelado, acabando com o império romano do Ocidente (ano 476), mas logo sucumbiu aos ostrogodos de Teodorico, que durante algumas décadas controlaram a península italiana.

Marco Aurélio Cassiodoro foi contemporâneo de Boécio. Calabrês, nascido em Squillace por volta do ano 485, morreu muito ancião em Vivarium, por volta do ano 580. Procedente também de um elevado nível social, ele se dedicou à vida política e ao compromisso cultural como poucos outros no Ocidente romano de seu tempo. Talvez os únicos que poderiam se igualar a ele neste duplo interesse eram o já recordado Boécio, e o futuro Papa de Roma, Gregório Magno (590-604).

Consciente da necessidade de não deixar no esquecimento todo o patrimônio humano e humanista acumulado nos séculos de ouro do Império Romano, Cassiodoro colaborou generosamente, nos mais elevados níveis de responsabilidade política, com os povos novos que haviam atravessado as fronteiras do Império e se haviam estabelecido na Itália. Também foi modelo de encontro cultural, de diálogo, de reconciliação. As vicissitudes históricas não lhe permitiram realizar seus sonhos políticos e culturais, que buscavam criar uma síntese entre a tradição romano-cristã da Itália e a nova cultura gótica. Aquelas mesmas vicissitudes o convenceram sobre o caráter providencial do movimento monástico, que ia se afirmando nas terras cristãs. Decidiu apoiá-lo, dedicando a isso todas as suas riquezas materiais e suas forças espirituais.

Teve a idéia de confiar precisamente aos monges a tarefa de recuperar, conservar e transmitir às gerações futuras o imenso patrimônio cultural dos antigos, para que não se perdesse. Por isto fundou Vivarium, um cenóbio no qual tudo estava organizado de maneira que se estimasse como extremamente belo e irrenunciável o trabalho intelectual dos monges. Estabeleceu também que os monges que não tinham uma formação intelectual não se dedicariam só ao trabalho material, da agricultura, mas também à transcrição dos manuscritos para que deste modo ajudassem na transmissão da grande cultural às futuras gerações.

E isso sem que fosse em detrimento algum do compromisso espiritual monástico e cristão e da atividade caritativa pelos pobres. Em seu ensinamento, distribuído em várias obras, mas sobretudo no tratado «De anima e no Institutiones divinarum litterarum», a oração (C. PL 69, col. 1108), alimentada pela Sagrada Escritura e particularmente pela meditação assídua dos Salmos (cf. PL 69, col. 1149), tem sempre um lugar central como comida necessária para todos.

Este douto calabrês introduz assim sua «Expositio in Psalterium»: «Rejeitadas e abandonadas em Ravena as solicitudes da carreira política, caracterizada pelo sabor desgostoso das preocupações mundanas, tendo desfrutado do Saltério, livro caído do céu como autêntico mel para a alma, lancei-me avidamente como um sedento para escrutá-lo e deixar-me penetrar totalmente por essa doçura saudável, depois de ter me saciado das inumeráveis amarguras da vida ativa» (PL 70, col. 10).

A busca de Deus, orientada à sua contemplação – escreve Cassiodoro –, continua sendo o objetivo permanente da vida monástica (cf. PL 69, col. 1107). Contudo, acrescenta que com a ajuda da graça divina (cf. PL 69, col. 1131.1142), pode se desfrutar melhor da Palavra revelada, utilizando as conquistas científicas e culturais «profanas» que os gregos e os romanos possuíam (cf. PL 69, col. 1140). Cassiodoro se dedicou pessoalmente aos estudos filosóficos, teológicos e exegéticos sem particular criatividade, mas prestando atenção nas intuições que considerava válidas nos demais. Lia com respeito e devoção sobretudo Jerônimo e Agostinho. Deste último, dizia: «Em Agostinho há tanta riqueza que me parece impossível encontrar algo que já não tenha sido tratado abundantemente por ele» (cf. PL 70, col. 10).

Citando Jerônimo, exortava os monges de Vivarium: «Não alcançam a palma da vitória somente aqueles que lutam até derramar o sangue ou que vivem na virgindade, mas também todos aqueles que, com a ajuda de Deus, vencem os vícios do corpo e conservam a reta fé. Mas para que possais vencer com a ajuda de Deus mais facilmente os estímulos do mundo, permanecendo nele como peregrinos em contínuo caminho, buscai antes de tudo a saudável ajuda sugerida pelo primeiro salmo, que recomenda meditar dia e noite na lei do Senhor. O inimigo não encontrará, de fato, nenhuma entrada para assaltar-vos se toda vossa atenção está ocupada em Cristo» («De Institutione Divinarum Scripturarum», 32; PL 69, col. 1147).

É uma advertência que também podemos considerar como válida para nós. Vivemos, de fato, também nós, em um tempo de encontro de culturas, de perigo de violência que destrói as culturas, e no qual é necessário o compromisso para transmitir os grandes valores e ensinar às novas gerações o caminho da reconciliação e da paz. Encontramos este caminho orientando-nos para o Deus com rosto humano, o Deus que se nos revelou em Cristo.

Santo Eusébio de Vercelli

Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Caros irmãos e irmãs,

Nesta manhã, eu vos convido a refletir sobre Santo Eusébio de Vercelli, o primeiro bispo da Itália setentrional de que temos notícia segura. Nascido em Sardenha no início do século IV, ainda em tenra idade se transferiu para Roma com sua família. Mais tarde foi instituído leitor, passando a fazer parte do clero de Urbe, em um tempo em que a Igreja era gravemente provada pela heresia ariana.

A grande estima que aumentou por Eusébio explica sua eleição em 345 à cátedra episcopal de Vercelli. O novo Bispo iniciou logo uma intensa obra de evangelização em um território ainda em grande parte pagão, especialmente na área rural.

Inspirado em Santo Atanásio – que havia escrito a «Vida de Santo Antônio», iniciador do monaquismo no Oriente –, fundou em Vercelli uma comunidade sacerdotal, semelhante a uma comunidade monástica. Esta experiência deu ao clero da Itália setentrional um significativo traço de santidade apostólica, e suscitou figuras de Bispos importantes, como Limênio e Onorato, sucessores de Eusébio em Vercelli, Gaudêncio em Novara, Esuperâncio em Tortona, Eustásio em Aosta, Eulógio em Ivrea, Máximo em Turim, todos venerados da Igreja como santos.

Solidamente formado na fé nicena, Eusébio defende com todas as forças a divindade de Jesus Cristo, definida no Credo de Nicéia «consubstancial» ao Pai. A tal propósito se aliou com os grandes Padres do século IV – sobretudo com Santo Atanásio, bispo da ortodoxia nicena – contra a política filo-ariana do imperador.

Para o imperador, a fé ariana, mais simples, parece politicamente mais útil como ideologia do império. Para ele, não importava a verdade, mas a oportunidade política: queria instrumentalizar a religião como ponto de unidade do império. Mas estes grandes Padres resistiram, defendendo a verdade contra a dominação da política. Por esse motivo, Eusébio foi condenado ao exílio como tantos outros Bispos do Oriente e do Ocidente: como o próprio Atanásio, como Hilário de Poitiers – dos quais falamos da última vez –, como Ósio de Córdoba. Em Escitópolis, na Palestina, onde foi confinado em 355 e em 360, Eusébio escreve uma página maravilhosa da sua vida.

Também lá fundou um cenóbio com um pequeno grupo de discípulos e desde então manteve o contato com seus fiéis de Piamonte, como demonstra sobretudo a segunda das três Cartas de Eusébio reconhecidas como autênticas.

Posteriormente, depois do ano 350, foi exilado na Capadócia e Tebaida, onde sofreu muito fisicamente. No ano 361, ao falecer Constâncio II, foi substituído pelo imperador Juliano, chamado o apóstata, a quem não lhe interessava o cristianismo como religião do império, mas que queria mais restaurar o paganismo. Ele acabou com o exílio desses bispos e deste modo permitiu também que Eusébio voltasse a tomar posse de sua sede.

No ano 362 foi convidado por Anastásio a participar no Concílio de Alexandria, que decidiu o perdão aos bispos arianos, com a condição de que voltassem ao estado leigo. Eusébio pôde continuar exercendo durante aproximadamente dez anos seu ministério episcopal, até a morte, estabelecendo com sua cidade uma relação exemplar, que inspirou o serviço pastoral de outros bispos da Itália do Norte, de quem falaremos nas próximas catequeses, como Santo Ambrósio de Milão e São Máximo de Turim.

A relação entre o bispo de Vercelli e sua cidade fica iluminada sobretudo por dois testemunhos epistolares. O primeiro se encontra na Carta já citada, que Eusébio escreveu desde o exílio de Escitópolis «aos queridíssimos filhos e aos presbíteros tão desejados, assim como aos santos povos firmes na fé de Vercelli, Novara, Ivrea e Tortona» («Ep. Secunda», CCL 9, p. 104). Estas expressões iniciais, que mostram a comoção do bom pastor ante seu rebanho, encontram ampla confirmação ao final da Carta, nas saudações do padre a todos e a cada um de seus filhos de Vercelli, com expressões transbordantes de carinho e amor.

Deve-se destacar antes de tudo a relação explícita que une o bispo com as «sanctae plebes» não só de Vercelli – a primeira, e por anos a única diocese do Piamonte –, mas também com as de Novara, Ivrea e Tortona, ou seja, as comunidades que, dentro da mesma diocese, haviam conseguido uma certa consistência e autonomia.

Outro elemento interessante aparece na despedida da Carta: Eusébio pede a seus filhos e a suas filhas que saúdem «também quem está fora da Igreja, e que se dignam a amar-nos: “etiam hos, qui foris sunt et nos dignantur diligere”». Sinal evidente de que a relação do bispo com sua cidade não se limitava à população cristã, mas se estendia também àqueles que, estando fora da Igreja, reconheciam em certo sentido sua autoridade espiritual e amavam este homem exemplar.

O segundo testemunho da relação singular que se dava entre o bispo e sua cidade aparece na Carta que Santo Ambrósio de Milão escreveu aos cristãos de Vercelli em torno ao ano 394, mais de 20 anos depois da morte de Eusébio («Ep. Extra collectionem 14»: Maur. 63). A Igreja de Vercelli estava passando um momento difícil: estava dividida e sem pastor. Com franqueza, Ambrósio declara que lhe custa reconhecer neles a «descendência dos santos padres, que deram sua aprovação a Eusébio sem antes vê-lo, sem tê-lo conhecido, esquecendo inclusive seus próprios concidadãos».

Na mesma Carta, o bispo de Milão testemunha claramente sua estima por Eusébio: «Um grande homem», escreve, que «mereceu ser eleito por toda a Igreja». A admiração de Ambrósio por Eusébio se baseia sobretudo no fato de que o bispo de Vercelli governava sua diocese com o testemunho de sua vida: «Com a austeridade do jejum governava sua Igreja». De fato, também Ambrósio estava fascinado, como reconhece ele mesmo, pelo ideal monástico da contemplação de Deus, que Eusébio havia buscado seguindo as pegadas do profeta Elias.

Em primeiro lugar, escreve Ambrósio, o bispo de Vercelli reuniu o próprio clero em «vita communis» e o educou na «observância das regras monásticas, apesar de viver na cidade». O bispo e seu clero tinham que compartilhar os problemas de seus concidadãos, e o fizeram de uma maneira crível, cultivando ao mesmo tempo uma cidadania diferente, a do Céu (cf. Hebreus 13, 14). E, deste modo, edificaram uma autêntica cidadania, uma autêntica solidariedade comum entre os cidadãos de Vercelli.

Deste modo, Eusébio, assumindo a causa da «sancta plebs», de Vercelli, vivia no seio da cidade como um monge, abrindo a cidade a Deus. Esta dimensão, portanto, não tirou nada de seu dinamismo pastoral. Entre outras coisas, parece que instituiu em Vercelli as igrejas rurais para um serviço eclesial ordenado e estável, e promoveu os santuários marianos para a conversão das populações rurais pagãs. Pelo contrário, este «caráter monástico» dava uma dimensão particular à relação do bispo com sua cidade. Igual aos apóstolos, por quem Jesus rezava na Última Ceia, os pastores e os fiéis da Igreja «estão no mundo» (Jo 17, 11), mas não são «do mundo».

Por esse motivo, os pastores, recordava Eusébio, têm que exortar os fiéis a não considerarem as cidades do mundo como sua morada estável, mas devem buscar a Cidade futura, a Jerusalém definitiva do céu. Esta «dimensão escatológica» permite aos pastores e aos fiéis salvaguardar a hierarquia justa dos valores, sem render-se jamais às modas do momento e às injustas pretensões do poder político. A autêntica hierarquia dos valores, parece dizer toda a vida Eusébio, não é decidida pelos imperadores de ontem ou de hoje, mas procede de Jesus Cristo, o Homem perfeito, igual ao Pai na divindade, e ao mesmo tempo homem como nós.

Referindo-se a esta hierarquia de valores, Eusébio não se cansa de «recomendar efusivamente» a seus fiéis que guardem «com todos os meios a fé, que mantenham a concórdia, que sejam assíduos na oração» (Ep. Secunda», cit.)

Queridos amigos, também eu vos recomendo de todo o coração estes valores perenes, e vos abençôo e saúdo com as mesmas palavras com as que o santo bispo Eusébio concluía sua segunda Carta: «Me dirijo a todos vós, irmãos meus e santas irmãs, filhos e filhas, fiéis dos dois sexos e de toda idade, para que… leveis nossa saudação também aos que estão fora da Igreja, e que se dignam a amar-nos» (ibidem).

São João Crisóstomo de Antioquia

Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs!

Este ano se completa o décimo sexto centenário da morte de São João Crisóstomo (407-2007). João de Antioquia, chamado Crisóstomo, isto é, «Boca de ouro» por sua eloqüência, pode dizer-se que segue vivo hoje, também por suas obras. Um anônimo copista deixou escrito que estas «atravessam todo o orbe como raios fulminantes». Seus escritos também permitem a nós, como aos fiéis de seu tempo, que repetidamente se viram privados dele por causa de seus exílios, viver com seus livros, apesar de sua ausência. É tudo que ele mesmo sugeria desde o exílio em uma carta (cf. A Olimpiade, Carta 8, 45).

Nascido em torno do ano 349, em Antioquia da Síria (atualmente Antakya, no sul da Turquia), desenvolveu lá o ministério presbiteral durante cerca de onze anos, até o ano 397, quando, nomeado bispo de Constantinopla, exerceu na capital do Império o ministério episcopal antes dos dois exílios, seguidos em breve distância um do outro, entre o ano 403 e 407. Nós nos limitamos hoje a considerar os anos de Crisóstomo na Antioquia.

Órfão de pai em terna idade, viveu com sua mãe, Antusa, que lhe transmitiu uma profunda sensibilidade humana e uma profunda fé cristã. Freqüentados os estudos inferiores e superiores, coroados pelos cursos de filosofia e de retórica, teve como mestre Libânio, pagão, o mais célebre reitor do tempo. Em sua escola, João se converteu no maior orador da antiguidade tardia grega. Batizado no ano 368 e formado na vida eclesiástica pelo bispo Melécio, foi por ele instituído leitor em 371, o Asceterio, um tipo de seminário de Antioquia, junto a um grupo de jovens, alguns dos quais foram depois bispos, sob a guia do famoso exegeta Diodoro de Tarso, que encaminhou João à exegese histórico-literal, característica da tradição de Antioquia.

Ele se retirou depois durante quatro anos entre os eremitas do próximo monte Silpio. Prosseguiu aquele retiro por outros dois anos que viveu sozinho em uma gruta sob a guia de um «ancião». Nesse período se dedicou totalmente a meditar «As leis de Cristo», os Evangelhos e especialmente as Cartas de Paulo. Enfermando-se, ele se encontrou na impossibilidade de cuidar de si mesmo e por isso teve de regressar à comunidade cristã de Antioquia (cf. Palladio, Vita, 5). O Senhor – explica o biógrafo – interveio com a enfermidade no momento justo para permitir a João seguir sua verdadeira vocação. Com efeito, escreverá ele mesmo que, posto na alternativa de escolher entre o governo da Igreja e a tranqüilidade da vida monástica, teria preferido mil vezes o serviço pastoral (cf. Sobre o sacerdócio, 6, 7): precisamente a este se sentia chamado o Crisóstomo. E aqui se realizou o giro decisivo de sua história vocacional: pastor de almas a tempo integral! A intimidade com a Palavra de Deus, cultivada durante os anos da vida eremítica, havia amadurecido nele a urgência de pregar o Evangelho, de dar aos demais o que ele havia recebido nos anos de meditação. O ideal missionário o lançou assim, alma de fogo, à atenção pastoral.

Entre o ano 378 e 379, ele regressou à sua cidade. Diácono em 381 e presbítero em 386, converteu-se em célebre pregador nas igrejas de sua cidade. Pronunciou homilias contra os arianos, seguidas daquelas comemorativas dos mártires de Antioquia e de outras sobre as principais festividades litúrgicas: trata-se de um grande ensinamento da fé de Cristo, também à luz de seus Santos. O ano 387 foi o «ano heróico» de João, o da chamada «revolta das estátuas». O povo derrubou as estátuas imperiais em sinal de protesto contra o aumento dos impostos. Naqueles dias de Quaresma e de angústia por ocasião dos eminentes castigos por parte do imperador, pronunciou suas vinte e duas vibrantes Homilias das estátuas, orientadas à penitência e à conversão. Seguiu-lhe o período de serena atenção pastoral (387-397).

O Crisóstomo se situa entre os Padres mais prolíficos: dele nos chegaram 17 tratados, mais de 700 homilias autênticas, os comentários a Mateus e a Paulo (Cartas aos Romanos, aos Coríntios, aos Efésios e aos Hebreus) e 241 cartas. Não foi um teólogo especulativo. Transmitiu, ao contrário, a doutrina tradicional e segura da Igreja em uma época de controversas teológicas suscitadas sobretudo pelo arianismo, isto é, pela negação da divindade de Cristo. É, portanto, um testemunho fiável do desenvolvimento dogmático alcançado pela Igreja no século IV-V. Sua teologia é maravilhosamente pastoral; nela é constante a preocupação da coerência entre o pensamento expresso pela palavra e a vivência existencial. É este, em particular, o fio condutor das esplêndidas catequeses com as quais preparava os catecúmenos para receber o Batismo. Próximo da morte, escreveu que o valor do homem está no «conhecimento exato da verdade e na retidão na vida» (Carta desde o exílio). As duas coisas, conhecimento exato da verdade e retidão na vida, vão juntas: o conhecimento deve traduzir-se em vida. Toda intervenção sua se orientou sempre a desenvolver nos fiéis o exercício da inteligência, da verdadeira razão, para compreender e traduzir na prática as exigências morais e espirituais da fé.

João Crisóstomo se preocupa por acompanhar com seus escritos o desenvolvimento integral da pessoa, nas dimensões físicas, intelectual e religiosa. As diversas etapas do crescimento são comparadas a outros tantos mares de um imenso oceano: «O primeiro destes mares é a infância» (Homilia 81, 5 sobre o Evangelho de Mateus). Com efeito, «precisamente nesta primeira idade se manifestam as inclinações ao vício e à virtude». Por isso, a lei de Deus deve ser desde o princípio impressa na alma «como em um bloco de cera» (Homilia 3, 1 sobre o Evangelho de João): de fato, é esta a idade mais importante. Devemos ter presente quão fundamental é que nesta primeira fase da vida entrem realmente no homem as grandes orientações que dão a perspectiva justa à existência. Crisóstomo por isso recomenda: «Desde a mais terna idade abastecei as crianças de armas espirituais e ensinai-as a persignar-se» (Homilia 12, 7 sobre a Primeira Carta aos Coríntios). Chegam depois a adolescência e a juventude: «À infância segue o mar da adolescência, onde os ventos sopram violentos…, porque em nós cresce… a concupiscência» (Homilia 81, 5 sobre o Evangelho de Mateus). Chegam finalmente o noivado e o matrimônio: «À juventude sucede a idade da pessoa madura, na qual sobrevêm os compromissos de família: é o tempo de buscar esposa» (Ibid). Do matrimônio ele recorda os fins, enriquecendo-os – com a alusão à virtude da temperança – de uma rica trama de relações personalizadas. Os esposos bem preparados cortam assim o caminho do divórcio: tudo se desenvolve com alegria e se podem educar aos filhos na virtude. Quando nasce o primeiro filho, este é «como uma ponte; os três se convertem em uma só carne, dado que o filho reúne as duas partes» (Homilia 12, 5 sobre a Carta aos Colossenses), e os três constituem «uma família, pequena Igreja» (Homilia 20, 6 sobre a Carta aos Efésios).

A pregação do Crisóstomo acontecia habitualmente no curso da liturgia, «lugar» no qual a comunidade se constrói com a Palavra e a Eucaristia. Aqui a assembléia reunida expressa a única Igreja (Homilia 8, 7 sobre a Carta aos Romanos), a mesma palavra se dirige em todo lugar a todos (Homilia 24, 2 sobre a Primeira Carta aos Coríntios) e a comunhão eucarística se faz sinal eficaz de unidade (Homilia 32,7 sobre o Evangelho de Mateus). Seu projeto pastoral se inseria na vida da Igreja, na qual os fiéis leigos com o Batismo assumem o ofício sacerdotal, real e profético. Ao fiel leigo ele diz: «Também a ti o Batismo te faz rei, sacerdote e profeta» (Homilia 3, 5 sobre a Segunda Carta aos Coríntios). Surge daqui o dever fundamental da missão, porque cada um em alguma medida é responsável pela salvação dos demais: «Este é o princípio de nossa vida social… não interessar-nos só por nós!» (). Tudo se desenvolve entre dois pólos: a grande Igreja e a «pequena Igreja», a família, em recíproca relação.

Como podeis ver, queridos irmãos e irmãs, esta lição do Crisóstomo sobre a presença autenticamente cristã dos fiéis leigos na família e na sociedade, é hoje mais atual que nunca. Roguemos ao Senhor para que nos torne dóceis aos ensinamentos deste grande mestre da fé.

PAI DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA

Continuamos nossa reflexão sobre São João Crisóstomo. Após o período passado em Antioquia, no ano 397, foi nomeado bispo de Constantinopla, capital do Império romano do Oriente. Desde o início, João projetou a reforma de sua Igreja: a austeridade do palácio episcopal tinha de ser um exemplo para todos: clero, viúvas, monges, pessoas da corte e ricos.

Infelizmente, não poucos deles, tocados por seus juízos, se afastaram dele. Solícito com os pobres, João foi chamado também de «o esmoleiro». Como administrador atento, conseguiu criar instituições caritativas muito apreciadas. Sua capacidade empreendedora nos diferentes campos fez que alguns o vissem como um perigoso rival. Contudo, como autêntico pastor, tratava todos de maneira cordial e paterna. Em particular, sempre tinha gestos de ternura especial pela mulher e dedicava uma atenção particular ao matrimônio e à família. Convidava os fiéis a participar da vida litúrgica, que tornou esplêndida e atrativa com uma criatividade genial.

Apesar de sua bondade, não teve uma vida tranqüila. Pastor da capital do Império, ele se viu envolvido com freqüência nas intrigas políticas por suas contínuas relações com as autoridades e as instituições civis. No âmbito nível eclesiástico, dado que havia deposto na Ásia, no ano 401, seis bispos indignamente eleitos, foi acusado de ter superado os limites de sua jurisdição, convertendo-se em alvo de acusações fáceis. Outro pretexto de ataques contra ele foi a presença de alguns monges egípcios, excomungados pelo patriarca Teófilo de Alexandria, que se refugiaram em Constantinopla. Depois se criou uma forte polêmica causada pelas críticas de Crisóstomo à imperatriz Eudóxia e a suas cortesãs, que reagiram desacreditando-o e insultando-o. Deste modo, foi deposto, no sínodo organizado pelo próprio patriarca Teófilo, no ano 403, e condenado a um primeiro exílio breve. Após regressar, a hostilidade que suscitou por causa de seus protestos contra as festas em honra da imperatriz, que o bispo considerava como festas pagãs, luxuosas, e a expulsão dos presbíteros encarregados dos batismos na Vigília Pascoal do ano 404 marcaram o início da perseguição contra João Crisóstomo e seus seguidores, chamados «joanistas».

Então, João denunciou com uma carta os fatos ao bispo de Roma, Inocêncio I. Mas já era tarde demais. No ano 406 foi exilado novamente, esta vez em Cucusa, Armênia. O Papa estava certo de sua inocência, mas não tinha poder para ajudá-lo. Não se pôde celebrar um concílio, promovido por Roma para conseguir a pacificação entre as duas partes do Império e entre suas Igrejas. A dura viagem de Cucusa a Pitionte, destino ao qual nunca chegou, devia impedir as visitas dos fiéis e romper a resistência do prelado esgotado: a condenação ao exílio foi uma autêntica condenação à morte! São comovedoras as numerosas cartas do exílio, nas quais João manifesta suas preocupações pastorais com tons de dor pelas perseguições contra os seus. A marcha para a morte se deteve em Comana Pontica. Lá, João foi levado à capela do mártir São Basilisco, onde entregou o espírito a Deus e foi sepultado, como mártir junto ao mártir (Paládio, «Vida» 119). Era o dia 14 de setembro de 407, festa da Exaltação da Santa Cruz. A reabilitação aconteceu no ano 438, com Teodósio II. As relíquias do santo bispo, colocadas na igreja dos Apóstolos, em Constantinopla, foram transportadas no ano 1204 a Roma, na primitiva Basílica de Constantino, e jazem agora na capela do Coro dos Canônicos da Basílica de São Pedro.

Em 24 de agosto de 2004, uma parte importante da mesma foi entregue pelo Papa João Paulo II ao patriarca Bartolomeu I de Constantinopla. A memória litúrgica do santo se celebra em 13 de setembro. O beato João XXIII o proclamou padroeiro do Concílio Vaticano II.

De João Crisóstomo se disse que, quando se sentou no trono da Nova Roma, ou seja, Constantinopla, Deus fez ver nele um segundo Paulo, um doutor do universo. Na realidade, em Crisóstomo se dá uma unidade essencial de pensamento e de ação, tanto em Antioquia como em Constantinopla. Só mudam seu papel e as situações. Ao meditar nas oito obras realizadas por Deus na seqüência dos seis dias, no comentário do Gênesis, João Crisóstomo quer fazer que os fiéis se remontem da criação ao Criador: «É de grande ajuda saber o que é a criatura e o que é o Criador», diz. Ele nos mostra a beleza da criação e a transparência de Deus em sua criação, que se converte deste modo em uma espécie de «escada» para ascender a Deus, para conhecê-lo.

Mas a este primeiro passo segue outro: esse Deus criador é também o Deus da condescendência («synkatabasis»). Nós somos fracos para «ascender», nossos olhos são fracos. Deste modo, Deus se converte no Deus da condescendência, que envia ao homem caído e estrangeiro uma carta, a Sagrada Escritura. Deste modo, a criação e a escritura se completam. À luz da Escritura, da carta que Deus nos deu, podemos decifrar a criação. Deus é chamado «pai terno» («philostorgios») (ibidem), médico das almas (Homilia, 40, 3 sobre o Gênesis), mãe (ibidem) e amigo carinhoso («Sobre a Providência» 8, 11-12).

Mas ao primeiro passo da criação como «escada» para Deus, e ao segundo da condescendência de Deus, através da carta que nos deu, a Sagrada Escritura, é acrescentado um terceiro passo: Deus não só nos transmite uma carta; em definitivo, Ele mesmo desce, encarna-se, converte-se realmente em «Deus conosco», nosso irmão até a morte na Cruz.

E com estes três passos – Deus que se torna visível na criação, Deus que nos envia uma carta, Deus que desce e se converte em um de nós – chega-se finalmente a um quarto passo: na vida e ação do cristão, o princípio vital e dinâmico é o Espírito Santo («Pneuma»), que transforma a realidade do mundo. Deus entra em nossa própria existência através do Espírito Santo e nos transforma desde dentro de nosso coração.

Com este pano de fundo, precisamente em Constantinopla, João, ao comentar os Atos dos Apóstolos, propõe o modelo da Igreja primitiva (Atos 4, 32-37) como modelo para a sociedade, desenvolvendo uma «utopia» social (como uma «cidade ideal»). Tratava-se, de fato, de dar uma alma e um rosto cristão à cidade. Em outras palavras, Crisóstomo compreendeu que não é suficiente dar esmola, ajudar os pobres de vez em quando, mas é necessário criar uma nova estrutura, um novo modelo de sociedade; um modelo baseado na perspectiva do Novo Testamento. É a nova sociedade que se revela na Igreja nascente. Portanto, João Crisóstomo se converte deste modo em um dos grandes pais da Doutrina Social da Igreja: a velha idéia da «pólis» grega é substituída por uma nova idéia de cidade inspirada na fé cristã. Crisóstomo defendeu, como Paulo (cf. 1 Coríntios 8, 11), o primado de cada cristão, da pessoa enquanto tal, inclusive do escravo e do pobre. Seu projeto corrige deste modo a tradicional visão da «pólis» grega, da cidade, enquanto na cidade cristã todos são irmãos e irmãs com os mesmos direitos. O primado da pessoa é também a conseqüência do fato de que, baseando-se nela se constrói a cidade, enquanto na «pólis» grega a pátria era colocada acima do indivíduo, que ficava totalmente subordinado à cidade em seu conjunto. Deste modo, com Crisóstomo começa a visão de uma sociedade construída com a consciência cristã. Ele nos diz que nossa «pólis» é outra, «nossa pátria está nos céus» (Filipenses 3, 20) e esta nossa pátria, inclusive nesta terra, torna todos iguais, irmãos e irmãs, e nos obriga à solidariedade.

Ao final de sua vida, desde o exílio nas fronteiras de Armênia, «o lugar mais remoto do mundo», João, enlaçando com sua primeira pregação do ano 386, retomou o tema que tanto gostava do plano que Deus tem para a humanidade: é um plano «inefável e incompreensível», mas certamente guiado por Ele com amor (cf. «Sobre a providência» 2, 6). Esta é a nossa certeza. Ainda que não possamos decifrar os detalhes da história pessoal e coletiva, sabemos que o plano de Deus está sempre inspirado por seu amor. Deste modo, apesar de seus sofrimentos, João Crisóstomo reafirmava a descoberta de que Deus ama cada um de nós com um amor infinito, e por este motivo quer a salvação de todos. Por sua parte, o santo bispo cooperou com esta salvação com generosidade, sem poupar esforços, durante toda a sua vida. De fato, considerava como último fim de sua existência essa glória de Deus; já moribundo, deixou como último testamento: «Glória a Deus por tudo!» (Paládio, «Vida» 11).

Seita de Macedo pretende calar aos meios que denunciam suas irregularidades

.- A seita Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), liderada pelo polêmico empresário Edir Macedo tem aberto dezenas de processos judiciais contra os meios de comunicação e jornalistas brasileiros que denunciaram como aproveita seu status de organização religiosa para construir um império econômico.

Os pastores e adeptos da IURD abriram uns 50 processos por “prejuízo moral” contra o jornal Folha de São Paulo e uma de suas jornalistas, logo que em dezembro passado publicasse uma reportagem sobre o império das comunicações de propriedade dos líderes da seita.

Cinco pastores da seita abriram um processo contra o jornal Extra do grupo Globo do Rio de Janeiro pela publicação de uma reportagem sobre um seguidor da IURD que destruiu uma estátua de São Bento no estado da Baía (nordeste).

A IURD foi fundada faz 30 anos pelo Macedo, um ex-empregado da Loteria do Estado do Rio e diz contar com mais de seis milhões de seguidores. No Brasil conta com dois mil templos e assegura estar presente em 46 países.

O jornal Folha assinalou que a IURD é a maior proprietária de concessões de comunicação no Brasil e seu império está valorizado em mais de um bilhão de dólares. Conta com 23 cadeias de televisão, 40 estações de rádio e 19 empresas em nome de 32 membros da seita, incluindo dois jornais, uma agência de turismo, uma agência imobiliária e uma empresa de táxi aéreo.

Quem foi Constantino?

02 de abril de 2006
Juan Chapa

Flavius Valerius Aurelius Constantinus (272-337), conhecido como Constantino I ou Constantino o Grande, foi imperador do Império Romano do ano 306 a 337. Na História, passou como o primeiro imperador cristão.

Era filho de um oficial grego, Constâncio Cloro, que no ano 305 foi nomeado Augusto, em vez de Galério, e de uma mulher que tornou-se santa, Helena. Ao morrer Constâncio Cloro em 306, Constantino é aclamado imperador pelas tropas locais, em meio a uma difícil situação política, agravada pelas tensões com o antigo imperador Maximiano e seu filho Magêncio. Constantino derrotou primeiro Maximiano em 310 e logo depois Magêncio, na batalha de Ponte Mívio, em 28 de outubro de 312. Uma tradição afirma que Constantino antes dessa batalha teve uma visão. Olhando o sol, que era venerado pelos pagãos, viu uma cruz e ordenou a seus soldados que pusessem nos escudos o monograma de Cristo (as duas primeiras letras do nome grego sobrepostas). Embora continuasse praticando ritos pagãos, desde essa vitória mostrou-se favorável aos cristãos. Sendo Licínio o Imperador no oriente, promulgou o chamado “edito de Milão” (ver pergunta seguinte) favorecendo a liberdade de culto. Mais tarde os dois imperadores se enfrentaram e no ano 324 Constantino derrotou Licínio e se converteu no único Augusto do império.

Constantino levou a cabo numerosas reformas de tipo administrativo, militar e econômico, porém destacou-se mais nas disposições político-religiosas, sobretudo nas que encaminhariam a cristianização do império. Promoveu estruturas adequadas para conservar a unidade da Igreja, preservar a unidade do estado e legitimar sua configuração monárquica, sem excluir outras motivações religiosas de tipo pessoal. Ao lado dessas disposições administrativas eclesiásticas, tomou medidas contra heresias e cismas. Para defender a unidade da Igreja, lutou contra o cisma causado pelos donatistas no norte da África e convocou o Concílio de Nicéia (ver pergunta: O que aconteceu no Concílio de Nicéia?) para resolver a controvérsia trinitária originada por Ário. Em 330 mudou a capital do império de Roma para Bizâncio, que chamou Constantinopla, o que supôs uma ruptura com a tradição, apesar de querer enfatizar o aspecto de capital cristã. Como então ocorria com freqüência, somente foi batizado pouco antes de morrer. Quem o batizou foi Eusébio de Nicomédia, bispo de tendência ariana.

Entre as falhas de seu mandato — comuns no tempo em que viveu — não se podem negar, por exemplo, as referentes ao seu caráter caprichoso e violento; nem se pode negar também que tenha dado liberdade à Igreja e favorecido a sua unidade. Mas não é historicamente certo que, para consegui-lo, Constantino determinasse entre outras coisas o número de livros que devia ter a Bíblia. Nesse extenso processo que terminou muito mais tarde, os quatro evangelhos eram desde há muito tempo os únicos que a Igreja reconhecia como verdadeiros. Os outros “evangelhos” não foram suprimidos por Constantino, pois já tinham sido proscritos como heréticos dezenas de anos antes.

BIBLIOGRAFIA:

DE LA TOREE FERNÁNDEZ, J. e GARCÍA Y GARCÍA, A. “Constantino I, el Grande” in Gran Enciclopedia Rialp vol. VI ( 2ª ed.), Rialp, Madrid, pp. 309-312.
FORLIN PATRUCO, M. “Constantino I” in Diccionario Patrístico y de la Antigüedad Cristiana (ed. Por A. di Berardino), Sígueme, Salamanca 1991, pp. 475-477.
ADOLFI, A. Costantino tra paganesimo e cristianesimo, Laterza, Bari, 1976.

Fonte: Opus Dei

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