1. Aproximava-se a festa dos pães sem fermento, chamada Páscoa.*

2. Os príncipes dos sacerdotes e os escribas buscavam um meio de matar Jesus, mas temiam o povo.

3. Entretanto, Satanás entrou em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes, um dos Doze.

4. Judas foi procurar os príncipes dos sacerdotes e os oficiais para se entender com eles sobre o modo de lho entregar.

5. Eles se alegraram com isso, e concordaram em lhe dar dinheiro.

6. Também ele se obrigou. E buscava ocasião oportuna para o trair, sem que a multidão o soubesse. (= Mt 26,17-29 = Mc 14,12-25)

7. Raiou o dia dos pães sem fermento, em que se devia imolar a Páscoa.*

8. Jesus enviou Pedro e João, dizendo: “Ide e preparai-nos a ceia da Páscoa”.

9. Perguntaram-lhe eles: “Onde queres que a preparemos?”.

10. Ele respondeu: “Ao entrardes na cidade, encon­trareis um homem carregando uma bilha de água; segui-o até a casa em que ele entrar,

11. e direis ao dono da casa: O Mestre pergunta-te: Onde está a sala em que comerei a Páscoa com os meus discípulos?

12. Ele vos mostrará no andar superior uma grande sala mobiliada, e ali fazei os preparativos”.

13. Foram, pois, e acharam tudo como Jesus lhes dissera; e prepararam a Páscoa.

14. Chegada que foi a hora, Jesus pôs-se à mesa, e com ele os apóstolos.

15. Disse-lhes: “Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de sofrer.

16. Pois vos digo: não tornarei a comê-la, até que ela se cumpra no Reino de Deus”.

17. Pegando o cálice, deu graças e disse: “Tomai este cálice e distribuí-o entre vós.

18. Pois vos digo: já não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus”.

19. Tomou em seguida o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim”.

20. Do mesmo modo tomou também o cálice, depois de cear, dizendo: “Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós...*

21. Entretanto, eis que a mão de quem me trai está à mesa comigo.

22. O Filho do Homem vai, segundo o que está determinado, mas ai daquele homem por quem ele é traído!”.

23. Perguntavam então os discípulos entre si quem deles seria o que tal haveria de fazer. (= Mt 20,25-28 = Mc 10,42-45 = Jo 13,1-20)

24. Surgiu também entre eles uma discussão: qual deles seria o maior.

25. E Jesus disse-lhes: “Os reis dos pagãos dominam como senhores, e os que exercem sobre eles autoridade chamam-se benfeitores.*

26. Que não seja assim entre vós; mas o que entre vós é o maior, torne-se como o último; e o que governa seja como o servo.

27. Pois qual é o maior: o que está sentado à mesa ou o que serve? Não é aquele que está sentado à mesa? Todavia, eu estou no meio de vós, como aquele que serve.

28. E vós tendes permanecido comigo nas minhas provações;

29. eu, pois, disponho do Reino a vosso favor, assim como meu Pai o dispôs a meu favor,

30. para que comais e bebais à minha mesa no meu Reino e vos senteis em tronos, para julgar as doze tribos de Israel”. (= Mt 26,30-35 = Mc 14,26-31 = Jo 13,36ss)

31. “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo;

32. mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos.”*

33. Pedro disse-lhe: “Senhor, estou pronto a ir contigo tanto para a prisão como para a morte”.

34. Jesus respondeu-lhe: “Digo-te, Pedro, não cantará hoje o galo, até que três vezes hajas negado que me conheces”.

35. Depois ajuntou: “Quando vos mandei sem bolsa, sem mochila e sem calçado, faltou-vos porventura alguma coisa?”. Eles responderam: “Nada”.

36. “Mas agora” – disse-lhes ele –, “aquele que tem uma bolsa, tome-a; aquele que tem uma mochila, tome-a igualmente; e aquele que não tiver uma espada, venda sua capa para comprar uma.

37. Pois vos digo: é necessário que se cumpra em mim ainda este oráculo: E foi contado entre os malfeitores (Is 53,12). Com efeito, aquilo que me diz respeito está próximo de se cumprir.”

38. Eles replicaram: “Se­nhor, eis aqui duas espadas”. “Basta” – respondeu ele.* (= Mt 26,36-46 = Mc 14,32-42)

39. Conforme o seu costume, Jesus saiu dali e dirigiu-se para o monte das Oliveiras, seguido dos seus discípulos.

40. Ao chegar àquele lugar, disse-lhes: “Orai para que não caiais em tentação”.

41. Depois se afastou deles à distância de um tiro de pedra e, ajoelhando-se, orava:

42. “Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua”.

43. Apareceu-lhe então um anjo do céu para confortá-lo.

44. Ele entrou em agonia e orava ain­da com mais instância, e seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra.

45. Depois de ter rezado, levantou-se, foi ter com os discípulos e achou-os adormecidos de tristeza.

46. Disse-lhes: “Por que dormis? Levantai-vos, orai, para não cairdes em tentação”. (= Mt 26,47-56 = Mc 14,43-52 = Jo 18,1-11)

47. Ele ainda falava, quando apareceu uma multidão de gente; e à testa deles vinha um dos Doze, que se chamava Judas. Achegou-se de Jesus para o beijar.

48. Jesus perguntou-lhe: “Judas, com um beijo trais o Filho do Homem!”.

49. Os que estavam ao redor dele, vendo o que ia acontecer, perguntaram: “Senhor, devemos atacá-los à espada?”.

50. E um deles feriu o servo do príncipe dos sacerdotes, decepando-lhe a orelha direita.

51. Mas Jesus interveio: “Deixai, basta”. E, tocando na orelha daquele homem, curou-o.

52. Voltando-se para os príncipes dos sacerdotes, para os oficiais do templo e para os anciãos que tinham vindo contra ele, disse-lhes: “Saístes armados de espadas e cacetes, como se viésseis contra um ladrão.

53. Entretanto, eu estava todos os dias convosco no templo, e não estendestes as mãos contra mim; mas esta é a vossa hora e do poder das trevas”. (= Mt 26,69-75 = Mc 14,66-72 = Jo 18,13-27)

54. Prenderam-no então e conduziram-no à casa do príncipe dos sacerdotes. Pedro seguia-o de longe.

55. Acenderam um fogo no meio do pátio, e sentaram-se em redor. Pedro veio sentar-se com eles.

56. Uma criada percebeu-o sentado junto ao fogo, encarou-o de perto e disse: “Também este homem estava com ele”.

57. Mas ele negou-o: “Mulher, não o conheço”.

58. Pouco depois, viu-o outro e disse-lhe: “Também tu és um deles”. Pedro respondeu: “Não, eu não o sou”.

59. Passada quase uma hora, afirmava um outro: “Certamente também este homem estava com ele, pois também é galileu”.

60. Mas Pedro disse: “Meu amigo, não sei o que queres dizer.” E, no mesmo instante, quando ainda falava, cantou o galo.

61. Voltando-se o Senhor, olhou para Pedro. Então, Pedro se lembrou da palavra do Se­nhor: “Hoje, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes”.

62. Saiu dali e chorou amargamente. (= Mt 26,57-68 = Mc 14,61-64 = Jo 18,19-24)

63. Entretanto, os homens que guardavam Jesus escarneciam dele e davam-lhe bofetadas.

64. Cobriam-lhe o rosto e diziam: “Adivinha quem te bateu!”.

65. E injuriavam-no ainda de outros modos.

66. Ao amanhecer, reuniram-se os an­ciãos do povo, os príncipes dos sacerdotes e os escribas, e mandaram trazer Jesus ao seu conselho.

67. Perguntaram-lhe: “Dize-nos se és o Cristo!” Respondeu-lhes ele: “Se eu vo-lo disser, não me acreditareis;

68. e se vos fizer qualquer pergunta, não me respondereis.

69. Mas, doravante, o Filho do Homem estará sentado à direita do poder de Deus”.

70. Então, perguntaram todos: “Logo, tu és o Filho de Deus?”. Respondeu: “Sim, eu sou.

71. Eles então exclamaram: “Temos nós ainda necessidade de testemunho? Nós mesmos o ouvimos de sua boca”. (= Mt 27,11-26 = Mc 15,1-15 = Jo 18,28-19,16)

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22,1. Pães sem fermento: durante os dias da festa de Páscoa, os judeus só co­miam pães ázimos.

22,7. A Páscoa: o cordeiro pascal.

22,20. Este cálice: o sentido é – “o que está contido no cálice é meu sangue que sela a Nova Aliança...”.

22,25. Benfeitores: muitos reis do Egito na dinastia dos Lágidas levaram o nome de Evergetes, ou benfeitor.

22,32. Por tua vez: outra tradução – quando tu te tiveres convertido.

22,38. Basta: isto pode significar – é suficiente ou, então, um movimento de humor com respeito aos discípulos: basta disso (falemos de outra coisa).




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