Tag: parte (Page 1 of 4)

Deus castiga? (Parte 1: O paradoxo de Epicuro)

Autor: José Miguel Arráiz
Fonte: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php
Trad.: Carlos Martins Nabeto

Como “promessa é dívida”[1], inicio aqui uma nova série de artigos, em que analiso a nova edição do livro “Deus não castiga”, de Alejandro Bermúdez Rosell, que está à venda na Amazon. Neste artigo começarei analisando uma das principais objeções: a de que, segundo suas próprias palavras, nunca recebeu resposta. Eis o que ele diz:

– “Nunca recebemos uma resposta direta às imensas objeções que apresentamos, filosófica e teologicamente, se se afirma que, com efeito, Deus castiga… A filosofia levanta o desafio que tradicionalmente é conhecido como ‘paradoxo de Epicuro’. O desafio atribuído ao filósofo grego Epicuro (341-270 a.C.) é este:

‘Ou Deus quer evitar o mal e não pode;
ou Deus pode e não quer;
ou Deus não quer e não pode;
ou Deus pode e quer’

Portanto, se o mal existe, ou Deus é perverso, ou Deus não existe.

Ao longo de 2014, aqueles que afirmam que ‘Deus castiga’ foram incapazes de explicar a resposta filosófica que o Catolicismo possui diante deste paradoxo e se limitaram a repetir citações do Magistério e da Escritura…

Aqueles que vêm insistindo [na tese] de que Deus castiga jamais responderam como sua proposta teológica – que creem confirmada pelo mero apelo a citações – é compatível com a resposta filosófica católica. No máximo, um dos ‘castigadores’ se limitou a apontar no Twitter que coisa NÃO significa que Deus castiga… e sem explicar que coisa, sim, significa que assim seja!”

Não é verdade que não lhe foi dada uma resposta. Antes de começar, é necessário esclarecer – em honra à verdade – que a afirmação de que não lhe foi dada uma resposta para essa questão não é verdadeira. Quero recordar a Alejandro que a essa exata objeção dediquei um artigo completo intitulado:

– “Resposta a Alejandro Bermúdez: O castigo é um mal que Deus pretende em ordem a um bem maior”[2]

E não só eu, como também Nestor Martinez, professor de filosofia católica e meu companheiro aqui em Infocatólica, o fez em:

– “A razão teológica e o castigo divino”[3]

Outra grave falta à verdade verifico quando ele sustenta que “no máximo, um dos ‘castigadores’ se limitou a apontar no Twitter que coisa NÃO significa que Deus castiga… e sem explicar que coisa, sim, significa que assim seja!”. Isto também é falso, visto que eu dediquei a primeira intervenção[4] para explicar o que se deve entender quando é dito que Deus castiga.

Não acho bom, tampoco, que ele se refira ambiguamente ao Fr. Nelson Medina como “um dos ‘castigadores’”, perseverando na atitude de esconder dos seus leitores a identidade e os argumentos dos seus oponentes. Frei Nelson Medina é um conhecido teólogo e pregador internacional, que contribuiu para o debate, primeiro no Twitter e depois no seu blog[5]. Em tal intervenção, Fr. Nelson não pretendia tornar a repetir o que já havíamos dito, mas ajudar a esclarecer como NÃO SE DEVE entender o castigo divino, de modo a não transmitir uma imagem distorcida de Deus. O mesmo fez Mons. José Ignacio Munilla, bispo de San Sebastián, quando participou do debate e afirmou que era um erro negar que Deus castigava; porém, disse que era necessário entender isto corretamente[6].

O problema filosófico de Epicuro

Uma vez esclarecido o anterior, podemos mergulhar de cabeça na análise do problema filosófico de Epicuro e se ele realmente representa uma objeção quanto ao tema do castigo divino. Porém, antes é oportuno repassar brevemente alguns conceitos básicos de Teologia, como o são o significado de castigo, pena, mal, etc.

– O castigo é simplesmente a pena que se impõe a quem cometeu um delito ou falta.

– A pena é a privação de um bem, que uma criatura racional sofre involuntariamente por uma culpa própria. A pena é, portanto, um mal (“malum poenae”) derivado de otro mal (“malum culpae”).

– O mal não é outra coisa senão a ausência de bem.

O problema filosófico de Epicuro levanta [a hipótese de] que se Deus existisse, não poderia existir o mal, salvo se Deus não fosse bom ou não fosse onipotente. Alejandro parte daqui e recorre a um sofisma que faz ver que, como o castigo é um mal, Deus não pode nunca querer castigar.

Por trás deste raciocínio, existem dois erros; é importante revelá-los:

1) Não distingue entre o mal físico e o mal moral; e entre ser a causa direta e indireta.

Alejandro insiste que Deus não castiga porque não pode ser causa direta do mal. Pois bem: não está em discussão que possa sê-lo, porque como já dissemos, o mal não tem causa direta, por ser a ausência de bem. Dizer o contrário seria cair em Maniqueísmo. Eu mesmo afirmei que Deus não pode ser causa direta do mal em meu livro “Deus Castiga”, na página 43.

O que ocorre é que, por Deus não ser causa direta do mal, não se deduz que não castigue. Tampouco se deduz que não possa pretendê-lo, querê-lo ou ser sua causa indireta.

“Espere um instante! Você quer dizer que Deus pode ser causa indireta do mal? Você quer dizer que Deus pode pretender o mal ou querê-lo?” – É neste ponto que devemos nos deter e pensar com calma, para não confundir.

Em primeiro lugar, devemos distinguir entre o “mal físico” (a doença, o sofrimento, etc.) e o “mal moral” (o pecado). Quanto ao “mal moral”, Deus não o pretende nem o quer, nem como meio nem como fim; isto porque, além de repugnar à santidade infinita de Deus, envolve ainda a subversão da ordem necessária que toda criatura inteligente e livre diz acerca de Deus como último fim. Contudo, isto não impede que Deus permita sua existência; isto porque essa permissão não envolve uma aprovação do mesmo, e de outro lado, Deus não tem nenhuma obrigação de impedir sua existência.

Porém, quanto ao “mal físico”, Deus pode, sim, pretendê-lo como um meio para obter um fim superior: pode querer uma doença para obter uma conversão; ou um sofrimento específico para purificar-nos.

Portanto, negar que Deus possa, em determinada circunstância, pretender o mal físico como meio para obter um bem maior não implica somente negar que Deus castigue, como também negar que possamos ser purificados através dos sofrimentos. Ainda que o sofrimento e o castigo sejam conceitos distintos e nem sempre necessariamente relacionados (já que nem todo sofredor sofre porque está em pecado), sabemos que ambos são ordenados pela Providência Divina para obter um bem maior. No Evangelho vemos uma infinidade de exemplos, desde o caso do cego de nascença (que o próprio Jesus afirma que assim nasceu para que se manifestasse a glória de Deus) até o caso do emudecimento temporário de Zacarias (assim castigado e então purificado de sua incredulidade).

Quanto a isto, sugiro a leitura integral da explicação do Cardeal Zeferino González, em sua obra “Filosofia Elementar”[7], que coloquei ao final, nas Notas. Você também encontrará aí uma explicação completa de São Tomás de Aquino[8].

2) Reduz a pena a um mero mal

Eis aqui otro erro de Alejandro porque, como explica São Tomás, é errôneo ignorar que a pena contém dois elementos, isto é, a “razão de mal” (já que é a privação de algum bem) e a “razão de bem” (já que tanto é justa quanto ordenada). Segundo São Tomás, este erro foi cometido também por alguns filósofos pagãos, como Cicero; daí deduziram que o castigo não provinha de Deus.

A seguir, compartilho a explicação de São Tomás que, apesar de ter sido escrita há muito tempo, mostra que a objeção não mudou em absolutamente nada; até parece que enxergamos o próprio São Tomás participando do debate atual:

– “Se a pena ou castigo procede de Deus – Primeiramente, se procede assim: parece que a pena não procede de Deus, porque todo mal é inverso a algum bem. Porém, a pena é um mal, eis que provoca dano; portanto, é contrária a um bem. Entretanto, o que é contrário a um bem não pode proceder do Sumo Bem, porque o Sumo Bem não seria autor da paz, mas da luta e da dissensão, se Dele procedessem coisas contrárias. Logo, o castigo não procede de Deus. / Ademais, tudo o que está além da intenção do agente, deve-se a algum defeito. Porém, todo mal está além da intenção do agente, como diz Dionísio: ‘Porque ninguém age em vista do mal’. Logo, todo mal deve-se a algum defeito. Contudo, nada do que se deve a um defeito tem Deus como sua causa, como foi mostrado. Logo, não procede de Deus. / Ademais, o que não é causa da ação, não é causa daquilo que é causado pela ação, como foi dito. Porém, existem muitas penas que se infligem a alguns pelos pecados de outros, pois muitos são castigados com aflições por aqueles que injustamente os oprimem. Logo, como Deus não é causa da culpa, parece que tampouco seja causa de qualquer pena. / Ademais, tudo que procede de Deus tende ao bem. Mas algumas penas se inclinam ao mal, como a fome e outras coisas semelhantes. Logo, nem toda pena procede de Deus. / Ademais, para aquilo cuja geração é boa, sua corrupção é má. Porém, a geração da graça é boa, porque procede de Deus. Assim, a corrupção da graça é má. Entretanto, a corrupção da graça é uma pena ou castigo. Logo, nem toda pena procede de Deus, pois Deus é causa apenas dos bens.

Por outro lado, contrário a isto, tudo o que é justo, é bom; e tudo o que é bom, procede de Deus. Porém, toda pena é justa, como provou Agostinho na distinção anterior. Logo, toda pena ou castigo procede de Deus. / Ademais, a quem pertence a remuneração, pertence também a condenação, isto é, àquele a quem corresponde julgar os atos bons e maus. Ora, premiar as boas obras é próprio de Deus; logo, também é próprio Dele infligir as penas.

Respondo:

Deve-se dizer que a pena contém duas coisas, isto é: a “razão de mal”, já que é a privação de algum bem; e a “razão de bem”, já que é justa e ordenada. Portanto, alguns antigos, que consideravam somente a pena, já que é um defeito e um mal, disseram que as penas não procediam de Deus; nesse erro incorreu também Cicero, como vemos por sua obra ‘De Officiis’. Estes homens negaram, portanto, a Providência de Deus sobre os atos humanos, pelo qual a ordem que a pena tem em relação à culpa não diziam que se devesse à Providência Divina, mas à justiça dos homens que infligiam a pena; e que o defeito que há na pena não era ordenado por Deus, mas que ocorria pela necessidade das causas segundas, pois afirmavam que Deus dava o ser às coisas como o faz um agente movido por necessidade natural, de modo tal que de uma primeira origem, que não tem nenhum defeito, procederia um primeiro originado distante de sua perfeição; e diziam, segundo, que maior era a distância em relação a um primeiro, pela ordem das causas e dos efeitos, quanto mais defeituosa tal coisa fosse. / Esta tese é errônea, como se mostrou no l.1,d.39, onde se diz que a Providência Divina se estende a tudo. E, portanto, há que se dizer que os castigos procedem de Deus, embora a culpa não proceda de Deus, por mais que ambas as coisas sejam más. / A razão disso é que a cada coisa se lhe atribui uma causa eficiente, segundo o modo em que essa coisa procede de dita causa. Porém, a culpa tem razão de mal e de defeito, segundo proceda de sua causa eficiente, que não ordena sua ação ao fim devido; e, assim, à culpa não se lhe pode atribuir uma causa que não possa cair em algum defeito. A pena, ao contrário, não tem razão de mal nem de defeito, segundo procede de sua causa eficiente, porque esta inflige o castigo por uma ação ordenada, mas que tem razão de defeito e de mal somente no que recebe a ação, o qual é privado de algum bem por uma justa ação. / E, assim, Deus é autor da pena, mas de modo diverso, segundo a diversidade das penas. Porque há uma pena de dano, como a subtração da graça e coisas semelhantes, e destas penas Deus é causa, não por fazer algo, mas por não fazer mais bem, pois pelo fato de que Deus não influi a graça se segue, no castigado, a privação da graça. Há uma pena de sentido, que se inflige por alguma ação e, desta, Deus é autor fazendo algo também.

Ao primeiro [argumento], portanto, há que se dizer que um bem particular é inverso a outro bem particular, como o quente em relação ao frio; e que ambos procedem de Deus. E não se segue, por isto, que Deus não seja autor da paz, porque a própria luta entre os contrários se ordena a alguma união, pois convêm na forma do misto, e também porquanto no universo se ordenam por modo de certa consonância. Assim, pois, não é inconveniente, por mais que o bem natural proceda de Deus, que também a pena, que contraria esse bem natural, proceda, enquanto é boa, de Deus.

Ao segundo, há que se dizer que nenhum mal nem nenhum defeito é pretendido nem por Deus nem por nenhum outro agente; mas que todo mal e defeito se devem a algum defeito, quer da causa eficiente, quer da matéria recipiente. Pois bem: o mal de culpa resulta do defeito da causa eficiente; e, portanto, não pode ser reduzido à Causa Eficiente, que não pode falhar. Porém, o mal da pena se deve a um defeito da matéria, como se vê por isto: o juiz justo tende a implantar a ordem da justiça em seus súditos; essa ordem não pode ser recebida no pecador senão que é castigado por algum defeito, e assim, por mais que esse defeito, por cuja causa a pena é um mal, não seja pretendido pelo juiz, senão a ordem da justiça; no entanto, o juiz justo é autor da pena, já que a pena é algo ordenado, e assim Deus é autor das penas.

Ao terceiro, há que se dizer que, por mais que Deus não seja autor da ação torpe, já que comporta uma deformidade, no entanto, é causa sua, já que é certa ação, e, portanto, também pode ser chamado causa daquilo que é efetuado por essa ação.

Ao quarto, há que se dizer que a pena não inclina ao mal de culpa diretamente, por modo de hábito e disposição, mas indiretamente, já que pela pena alguém é privado de algo pelo qual era retraído da culpa. E isto não é inconveniente; que se diga que Deus subtrai aquilo pelo qual alguém se conservava imune da culpa, isto é, a graça.

Ao quinto, há que se dizer que por mais que a corrupção da graça em si seja algo mau, no entanto, que este que é indigno da graça seja privado dela é bom e justo; e, deste modo, procede de Deus como Ordenador” (São Tomás de Aquino, Comentário às Sentenças, l.2, d.37, q.3, a.1).

Obviamente, uma coisa é que estas respostas tenham sido dadas em seu momento, e outra coisa é que Alejandro não tenha se convencido delas. Porém, isto é uma coisa, e outra é dizer aos seus leitores que não recebeu resposta, deixando, ao mesmo tempo, de indicar-lhes onde se encontram os argumentos dos seus oponentes, para assim oferecer-lhes somente a sua versão, fechando-se numa bolha. Alejandro alega em sua nova introdução que não houve um verdadeiro debate porque não lhe responderam a essas objeções, porém, eu sustento que, se não houve verdadeiro debate foi porque ele não foi suficientemente honesto com seus leitores, para permitir-lhes ouvir o que tínhamos a dizer.

—–
NOTAS
[1] Artigo em espanhol: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php/1502010840-novedades-sobre-el-debate-de
[2] Artigo em espanhol: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php/1405210504-respuesta-a-alejandro-bermude
[3] Artigo em espanhol: http://infocatolica.com/blog/praeclara.php/1406250544-title
[4] Artigo em espanhol: http://infocatolica.com/blog/apologeticamundo.php/1404050617-idios-castiga-o-no-castiga
[5] Artigo em espanhol: http://fraynelson.com/blog/2014/06/14/en-torno-a-una-polemica-teologica/
[6] Foi isto o que disse Mons. José Ignacio Munilla, bispo de San Sebastian, quando foi consultado acerca deste debate: “Em primeiro lugar, deve-se distinguir entre o ‘castigo eterno’ e o ‘castigo temporário’. Por ‘castigo eterno’ entendemos o castigo definitivo aos ímpios, relatado explicitamente em Mateus 26 (na Sagrada Escritura), e não é, absolutamente, incompatível com [o fato de] que ‘Deus é amor’. Dizer que ‘Deus é amor’ e, portanto, não pode existir o castigo eterno é contrapor os conceitos de maneira infantil. Em Deus a justiça e a misericórdia não são duas coisas: elas se fundem e são uma só. / No tocante ao ‘castigo temporário’, pode-se dizer que Deus não envia castigos temporais? Não, não se pode dizer tal coisa. Na Sagrada Escritura há passagens muito claras, onde se fala dos castigos de Deus, como quando fala das pragas de Egito; ou de Davi, que após ter pecado, Deus lhe pediu que escolhesse entre diversos castigos. Não cabe dizer que ‘Deus não castiga nunca’; seria incorreto. Nosso Papa emérito Bento XVI, no Sínodo dos Bispos do ano de 2008, disse uma frase que chamou a atenção de muita gente; ele disse: ‘…Deus teve que recorrer com frequencia ao castigo…’”. A explicação completa está nesta url (podcast em espanhol): http://www.apologeticacatolica.org/Descargas/MunillaDiosCastiga.mp3
[7] Assim explica o cardeal Zeferino González, em sua obra “Filosofia Elementar”: “1ª) Por mais que Deus não pretenda o mal físico ‘per se’ ou como fim, já que não se deleita no mal de suas criaturas, e longe de chatear-se, ama tudo o que criou, é induvidável que pode escolhê-lo ou querê-lo, como meio proporcional para realizar algum fim bom. A razão é que, neste caso, a volição do mal físico por parte de Deus, tem por termo e como fim o bem que pressupõe a existência do mal físico como meio, ou falando com mais propriedade, como condição hipotética da existência do bem pretendido por Deus; e digo hipotética, porque a existência e realização de determinados bens, como resultante de tais ou quais males físicos, se acham em relação com o grau de perfeição relativa que Deus quis comunicar a este mundo, e que poderia ser superior em outro dos possíveis [mundos]. / 2ª) No que toca ao mal moral, Deus não o pretende ou quer, nem como meio nem como fim, porque, além de repugnar à santidade infinita de Deus, o mal moral envolve a subversão da ordem necessária que toda criatura, e mais que todas, a criatura inteligente e livre, toca a Deus como último fim da Criação. Contudo, isto não impede que Deus permita sua existência, porque esta permissão não envolve uma aprovação do mesmo, e por outra parte, nenhuma obrigação tem Deus de impedir sua existência. Ainda mais, todavia: dada a existência de seres inteligentes e livres, pode-se dizer conveniente e até natural a permissão do mal moral por parte de Deus; porque a verdade é que a Deus, como governador supremo e universal do mundo, corresponde permitir que cada ser aja em conformidade com as condições próprias da sua natureza. A vontade humana é de sua natureza defectível, flexível em ordem ao bem e ao mal, e livre e responsável em seus atos. Logo, a Deus, como previsor universal do mundo e em especial do homem, só lhe corresponde dar a este os meios e auxílios necessários para operar o bem moral, porém sem o matar nem anular sua liberdade, impondo-lhe a necessidade física de agir bem. Isto sem contar que a realização do mal moral serve também: a) para manifestar que o homem, quando faz o bem, o faz livremente, e é credor de prêmio; b) para revelar a paciência e longanimidade do mesmo Deus; c) para manifestar sua misericórdia, perdoando, e sua justiça, castigando. / 3ª) Infira-se do que foi dito até aqui: 1º – que nem a existência do mal físico, nem a do mal moral, envolvem repugnância ou contradição absoluta com a Providência e a bondade de Deus; 2º – que até podemos apontar razões plausíveis e fins racionais e justos para sua existência; 3º – que Deus, absolutamente falando, poderia impedir a existência do mal físico e moral, quer com a criação de outro mundo, quer com uma disposição diferente deste [mundo]; 4º – que ainda que possamos apontar alguns fins prováveis da permissão do mal moral, ignoramos a causa final desta permissão por parte de Deus, já que não sabemos com certeza qual seja o fim principal e os motivos divinos desta permissão, devendo, portanto, dizer com a Escritura: ‘Quis cognovit sensum Domini, aut quis consiliarius ejus fuit?’. Com maior razão, é aplicável esta reflexão à nossa ignorância em relação aos fins particulares, a que se subordina a existência do mal físico e moral no ser A ou B. / Que a volição do mal físico, no sentido exposto, não se opõe à bondade divina, prova-se ademais porque, na hipótese contrária, Deus não poderia querer e realizar certos bens e perfeições de uma ordem superior. A pouco que se reflita, se reconhecerá, sem dúvida, que a ausência absoluta e completa do mal físico levaria consigo a ausência da paciência, da fortaleza, da magnanimidade, da constância e, para dizê-lo de uma vez, das características mais belas e sublimes da virtude em todas suas múltiplas manifestações. Ainda mais, todavia: a ausência de todo mal físico levaria consigo à morte ou à atonia absoluta da sociedade humana, com suas artes, ciências e indústrias, que vêm a ser a luta perseverante da humanidade contra o mal físico.
[8] São Tomás, Suma Teológica, l.2, q.108, a.4: “Pode-se considerar a pena de dois modos: primeiro, como castigo; e, neste sentido unicamente, o pecado a merece, porque por ela se restabelece a igualdade da justiça, enquanto que aquele que pecando se excedeu, seguindo sua própria vontade, padece contra sua vontade algum dano; pelo que, como todo pecado é voluntário, inclusive o original, conforme o que foi dito (l.2 q.81 a.1), se segue que ninguém é castigado desta forma senão pelo pecado voluntário. / E, a partir de outro ângulo, a pena pode ser considerada como remédio, que não só é curativo do pecado passado, mas que tem assim mesmo virtude para preservar do pecado futuro e para empurrar-nos a fazer algo bom. Conforme a isto, alguém é castigado algumas vezes sem culpa, embora nunca sem causa. No entanto, há que se ter em conta que nunca o remédio priva de um bem maior visando um bem menor — por exemplo, deixar alguém cego para curar-lhe o calcanhar —, mas, às vezes, causa um dano no [bem] menor para prestar ajuda no [bem] mais importante. E como os bens espirituais são os de maior valor, e os temporais, os de menor, é que às vezes se castiga alguém nestes últimos, sem culpa — por exemplo, com muitas penalidades nesta vida presente, que Deus inflige para que sirvam de humilhação ou de prova. Ao contrário, não se castiga a ninguém nos bens espirituais sem culpa própria, nem nesta nem na outra vida, já que na vida futura as penas não são remédio, mas consequência da condenação espiritual”.

A “Ave Maria” explicada parte por parte

Ave Maria

1 – “Ave, Maria (alegra-te, Maria).”  (Lc 1,28)

A saudação do anjo Gabriel abre a oração da Ave-Maria.

É o próprio Deus que, por intermédio de seu anjo, saúda Maria.

Nossa oração ousa retomar a saudação de Maria com o olhar que Deus lançou sobre sua humilde serva, alegrando-nos com a mesma alegria que Deus encontra nela.

Alguns usam Salve Maria em muitas orações, pois acham errado dizer Ave, pois era uma saudação romana, mas  quando a Bíblia foi traduzida para o latim, São Jerônimo utilizou a forma romana.

Dizer Ave ou Salve, hoje , para nós não há muita diferença, já que são saudações que caíram em desuso, porém por séculos a oração ficou conhecida como Ave Maria.

2 – “Cheia de graça, o Senhor é convosco.” (Lc1,28)

As duas palavras de saudação do anjo se esclarecem mutuamente.

Maria é cheia de graça porque o Senhor está com ela.  A graça com que ela é cumulada é a presença daquele que é a fonte de toda graça.

”Alegra-te, filha de Jerusalém… o Senhor está no meio de ti” (Sf 3,14.17a).

Maria, em quem vem habitar o próprio Senhor, é em pessoa a filha de Sião, a Arca da Aliança, o lugar onde reside a glória do Senhor: ela é “a morada de Deus entre os homens” (Apoc 21,3).

”Cheia de graça”, e toda dedicada àquele que nela vem habitar e que ela vai dar ao mundo.

3 – “Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.” (Lc 1,41)

Depois da saudação do anjo, tornamos nossa a palavra de Isabel.

“Repleta do Espírito Santo” (Lc 1,41), Isabel é a primeira na longa série das gerações que declaram Maria bem-aventurada’: “Feliz aquela que creu…” (Lc 1,45):

Maria é “bendita entre as mulheres” porque acreditou na realização da palavra do Senhor.

Abraão, por sua fé, se tomou uma bênção para “todas as nações da terra” (Gn 12,3).

Por sua fé, Maria se tomou a mãe dos que crêem (Apoc 12,17) (Jo 19, 26-27), porque, graças a ela, todas as nações da terra recebem Aquele que é a própria bênção de Deus: “Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”.

4 –  “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós…”

Com Isabel também nós nos admiramos: “Donde me vem que a mãe de meu Senhor me visite?” (Lc 1,43).

Porque nos dá Jesus, seu filho, Maria é Mãe de Deus e nossa Mãe; podemos lhe confiar todos os nossos cuidados e pedidos: ela reza por nós como rezou por si mesma:

“Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

Confiando-nos à sua oração, abandonamo-nos com ela à vontade de Deus: “Seja feita a vossa vontade”.

Maria é Mãe de Deus, pois foi de Maria que nasceu Jesus (Mt 1, 16) (Gal 4,4) , o nosso Senhor (Lc 1,43), Filho de Deus (Lc 1,35) e Deus (Jo 1,1), (Jo 5,18) com o Pai e o Espírito Santo (Mt 28,19).Maria é Mãe de Deus, pois Jesus não é metade homem e metade Deus, Ele é Deus e homem ao mesmo tempo.

Maria é Mãe no sentido de ter gerado em seu ventre e em seu coração Jesus, nosso Senhor e Deus.

5 – “Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte.”

Assim, pedindo a Maria que reze por nós, reconhecemo-nos como pobres pecadores e nos dirigimos à “Mãe de misericórdia”  (Jo 2,3),  à Toda Santa (Lc 1,28).

Entregamo-nos a ela “agora”, no hoje de nossas vidas.E nossa confiança aumenta para desde já entregar em suas mãos “a hora de nossa morte”, pois nessa hora compareceremos diante de Deus (Hb 9, 27) para sermos julgados.

Que ela esteja então presente, como na morte na Cruz de seu Filho, e que na hora de nossa passagem ela nos acolha como nossa Mãe (Jo 19,27) , para nos conduzir a seu Filho, Jesus, no Paraíso, pois o seu pedido é poderoso (Jo 2, 3ss).

A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 19

eucaristiamemorial

Autor: Pe. Juan Carlos Sack
Fonte: http://www.apologetica.org
Tradução: Carlos Martins Nabeto

[Dando continuidade a esta Série, abordaremos hoje São Gregório Magno, Eulógio de Alexandria, Isidoro de Sevilha e Bráulio de Saragoza].

GREGÓRIO MAGNO

Outro dos grandes Padres da Igreja ocidental. Nasceu em torno de 540. Chegou a ocupar o cargo de Prefeito ou Alcaide da cidade de Roma. Enviado pelo Papa a Constanstinopla como embaixador, foi eleito Papa e exerceu o pontificado entre 590 e 604. Conservam-se numerosas pregações de conteúdo bíblico e pastoral.

Comentando Jó 31,31 (“Por acaso não disseram os homens do meu povo: ‘Quem pode encontrar alguém que não tenha ficado saciado com a sua carne?'”), disse:

– “Esta frase também pode ser entendida misteriosamente na boca do Redentor, pois os varões do seu povo desejaram se saciar com as Suas carnes, quer os judeus perseguidores, quer os gentios fiéis. Isto porque aqueles tramaram extinguir o Seu corpo, como se O consumissem; e estes desejam saciar o seu espírito faminto com as Suas carnes no sacrifício diário da imolação” (Moralia 22,13,26).

É impressionante também – assim como vimos em muitos dos autores citados – o testemunho de Gregório Magno acerca da Eucaristia como recepção diária do sacrifício de Cristo.

EULÓGIO DE ALEXANDRIA

Patriarca de Alexandria de 580 a 607. Notável defensor da primazia da Igreja de Roma. Defensor da doutrina católica contra o Monofisismo e o Nestorianismo.

Estas palavras do orador do século VI respondem as objeções que ouvimos até hoje contra a Missa:

– “O venerando sacrifício que oferecemos do corpo do Senhor não é oblação com vítimas diferentes, mas memória do sacrifício que de uma vez por todas foi oferecido. Disse [Jesus]: ‘Fazei isto em minha memória'” (Homilia dos Evangelhos 14,1).

ISIDORO DE SEVILHA

Homem de vastíssima cultura, desempenhou um papel de protagonista na sociedade e Igreja do seu tempo. Presidiu o Concílio de Toledo de 633. Morreu em 636. Escreveu obras de caráter gramatical, histórico e enciclopédico, entre as quais se sobressai aquela intitulada “Etimologias”.

Falando sobre Melquisedec, diz:

– “Os fiéis [cristãos] já não oferecem aquelas vítimas judaicas como as que ofereceu o sacerdote Aarão, mas como aquelas que Melquisedec, rei de Salém, imolou, a saber, pão e vinho, que é o verdadeiríssimo sacramento do corpo e sangue do Senhor” (Da Fé Católica contra os Judeus 2,27,2).

– “A sabedoria de Deus – Cristo – fez para Si uma casa – a Santa Igreja – na qual sacrificou as hóstias do Seu corpo, na qual misturou o vinho do Seu sangue no cálice do sacramento divino (…) ‘Vinde: comei do Meu pão e bebei do vinho que misturei para vós’ (cf. Provérbios 9,5); isto é: ‘Tomai o alimento do corpo santo e bebei o vinho que misturei para vós’; ou seja: ‘Recebei o cálice do sangue sagrado'” (Da Fé Católica contra os Judeus 2,27,3).

Pregando sobre a necessidade de se conservar o jejum eucarístico (abter-se de comer antes de comungar), diz:

– “Na boca do cristão primeiro entra o corpo do Senhor, antes de todos os demais alimentos” (Do Ofício Eclesiástico 1,18,3).

BRÁULIO

Bispo de Saragoza. Exerceu grande influência nos governantes da Península [Ibérica]. Participou ativamente do Concílio de Toledo. Morreu em 651.

Em uma carta onde responde a algumas perguntas sobre supostas relíquias do sangue de Cristo, escreve:

– “Vamos ao que é verdadeiro e seguro; ao que nenhum cristão autêntico e retamente católico pode pôr em dúvida ou discussão, a saber: segundo as palavras do próprio Senhor e também conforme as Sagradas Escrituras ordenadas pelo Espírito Santo, o pão e o vinho oferecidos a Deus por nós no Sacramento é o corpo e o sangue verdadeiro de Cristo” (Carta 42; “Estudios Onienses”, vol. 1, 2ª ed., J. Madoz, p. 183).

A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 18

JESUS PRESENTE NA EUCARISTIA EM FIGUEIRA

Autor: Pe. Juan Carlos Sack
Fonte: http://www.apologetica.org
Tradução: Carlos Martins Nabeto

[Dando continuidade a esta Série, abordaremos hoje Remígio de Reims, Cesário de Arles, Eusébio da Gália e Venâncio Fortunato].

REMÍGIO DE REIMS

Apóstolo dos francos, Bispo de Reims na primeira metade do século VI.

Mandou esculpir a seguinte inscrição em um cálice que consagrou:

– “Que o povo extraia daqui a Vida / do sangue sagrado nele colocado / daquilo que o Cristo eterno derramou de seu lado [aberto]” (Versos do Cálice; 125,1135).

CESÁRIO DE ARLES

Nasceu por volta de 470. Fez-se monge em Lérins e chegou a ser Abade e Bispo de Arles. Grande pastor, sobretudo entre os mais pobres, e prolífico teólogo.

Exorta diversas vezes em suas obras a que se consuma a Eucaristia para crescer na fé e vice-versa. Por exemplo:

– “Rogo e advirto: trabalhemos o quanto pudermos com o auxílio de Deus, para que naquele dia [de Natal] possamos nos aproximar do altar do Senhor com a consciência pura e sincera, com o coração limpo e o corpo casto, para que mereçamos receber o Seu corpo e sangue não para a condenação, mas para a saúde da nossa alma; porque a nossa vida consiste no corpo de Cristo, como o próprio Senhor disse: ‘Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós’. Portanto, quem quiser receber a Vida deverá mudar de vida” (Sermão 187,1).

A comparação entre a Palavra de Deus e o corpo de Cristo que já tínhamos visto em Santo Inácio de Antioquia, Orígenes, Jerônimo, Agostinho e outros, encontramos também neste texto de São Cesário:

– “Vos pergunto, irmãos e irmãs: O que vos parece maior? A Palavra de Deus ou o corpo de Cristo? Dizei-me! Se quereis responder com a verdade, seguramente tereis que dizer que a Palavra de Deus não é menor que o corpo de Cristo. E, por isso, o mesmo cuidado que temos de não deixar cair no chão nada do corpo de Cristo que nos é administrado, devemos ter também para com a Palavra de Deus que nos é partilhada: nada dela pode se perdida no nosso coração por estarmos pensando ou falando outras coisas” (Sermão 78,2)[53].

EUSÉBIO GALICANO

É conservada uma coleção de homilias da época de Cesário de Arles sob o nome de “Eusébio Galicano”.

Resgatamos os seguintes textos de uma das suas homilias, que ecoam a fé de toda a Igreja primitiva:

– “Porque o sacerdote invisível (=Cristo), com sua palavra, com seu poder secreto, converteu as criaturas visíveis (=pão e vinho) na substância do Seu corpo e do Seu sangue, falando assim: ‘Tomai e comei: Isto é Meu corpo’; e repetindo a santificação: ‘Tomai e bebei: Isto é Meu sangue” (Homilia 17, Da Páscoa 6,2)[54].

– “Quando as criaturas (=pão e vinho) são colocadas sobre os sagrados altares para serem abençoadas com as palavras celestiais, antes de serem consagradas pela invocação do Nome Supremo, ali está a substância do pão e do vinho; porém, após as palavras de Cristo, são o corpo e o sangue de Cristo” (Homilia 17, Da Páscoa 6,8).

– “Quando subires ao venerável altar para seres saciado com o alimento, olha com fé para o sagrado corpo e sangue do teu Deus; admira-O com veneração; toca-O com a mente; toma-O com a mão do coração; e, sobretudo, bebe-O internamente” (Homilia 17, Da Páscoa 6,3).

– “E, assim, porque ia Se retirar da frente dos nossos olhos e levar para o céu o corpo que assumiu, foi necessário consagrar neste dia o sacramento do corpo e do sangue, para que Ele fosse continuamente venerado no mistério que de uma vez [por todas] ofereceu como preço; para que, da mesma forma que diária e incansavelmente ocorre a redenção para a salvação dos homens, também fosse perpétua a oblação da redenção, vivendo aquela Vítima perene na recordação e estando sempre presente na doação” (Homilia 17, Da Páscoa 6,1).

VENÂNCIO FORTUNATO

Um dos poetas mais importantes da língua latina. Nasceu em Treviso por volta de 530. Excelente conhecedor das Escrituras e dos Padres da Igreja, bem como dos escritores clássicos. Bispo de Poitiers a partir de 597. Morreu em 690. São-lhe atribuídos os hinos “Pange Lingua” e “Vexilla Regis”.

– “Pois o pedir o pão de cada dia [na oração do Pai Nosso] parece insinuar que, caso seja possível, deveremos reverentemente tomar todos os dias a comunhão do Seu corpo; pois Ele, nossa Vida, é alimento nosso etc.” (Exposição sobre a Oração do Senhor 54-55).

NOTAS:

[53] Compare-se [essa citação] com este texto do Concílio Vaticano II: “A Igreja sempre venerou as Sagradas Escrituras da mesma forma que o próprio Corpo do Senhor, não deixando de tomar da mesa e de distribuir aos fiéis o pão da vida, tanto a palavra de Deus como o Corpo de Cristo, sobretudo na Sagrada Liturgia” (Dei Verbum 21). Isto é, “o pão da vida” é Jesus, a Palavra de Deus, e também é o Corpo de Cristo na celebração eucarística.

[54] É de se notar a expressão “converteu [o pão e o vinho] na substância do Seu corpo e do Seu sangue”. Transubstanciação no século VI? Sejam quais fores os termos técnicos adotados pela Igreja no decorrer dos tempo, a realidade da transubstanciação é tão antiga quanto a Fé Apostólica. Observe-se, no mesmo sentido, a citação seguinte.

A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 17

132-rc-frame-presenca-real

Autor: Pe. Juan Carlos Sack
Fonte: http://www.apologetica.org
Tradução: Carlos Martins Nabeto

[Dando continuidade a esta Série, abordaremos hoje Romano, Eutíquio de Constantinopla, Fulgêncio de Ruspe e Verecundo de Junca].

ROMANO, O MELODISTA

Diácono, foi o hinógrafo mais importante da Igreja bizantina. Nasceu na Síria e passou a maior parte da sua vida em Constantinopla. Morreu em 560.

[Disse:]

– “Quando Cristo, com o Seu poder, manifestamente transformou a água em vinho, toda a gente se alegrou, considerando o seu gosto admirável. Hoje, todos nós nos alimentamos no banquete da Igreja, porque o vinho se transformou no sangue de Cristo e o bebemos com santa alegria, glorificando o grande Esposo” (Kontákion 18, Das Bodas de Caná 20).

– “Todos os anjos que estão nos céus ficam admirados com o que ocorre na terra: os seres humanos terrestres, que habitam abaixo [do céu], se elevam em espírito e alcançam o alto, feitos partícipes do Cristo crucificado; porque, todos juntos, comem do Seu corpo, adorando fervorosamente o pão da vida e aguardando Dele a salvação imortal. Embora simplesmente se veja o pão, espiritualmente Ele o santifica como pão celeste da imortalidade. O próprio Senhor foi o primeiro a ensinar isso a todos nós, pois quando se dirigia voluntariamente à Paixão, Cristo partiu o pão da salvação e disse aos Seus Apóstolos, como está escrito: ‘Vinde agora, comei isto e, comendo, recebereis a vida eterna, porque este alimento é Minha carne, já que Eu – a quem estais vendo – sou o pão celeste da imortalidade” (Kontákio 24, Da Multiplicação dos Pães 1-2: o Pão que tomamos é a carne do Emanuel).

EUTÍQUIO DE CONSTANTINOPLA

Patriarca de Constantinopla. Nasceu na Frígia em 512 e morreu em 582.

Pregava assim o mistério eucarístico:

– “Misticamente Se imolou a Si mesmo quando, após a ceia, tomando o pão em Suas próprias mãos, tendo dado graças, o mostrou e o partiu, misturando-Se a Si mesmo no antítipo. Igualmente, misturando o cálice cheio do fruto da videira, tendo dado graças e apresentando-o a Deus, Seu Pai, disse: ‘Tomai e comei’; e: ‘Tomai e bebei’; ‘Isto é Meu corpo e isto é Meu sangue’. Portanto, todos tomam o santo corpo por inteiro e o precioso sangue do Senhor, ainda que apenas tomem uma parte deles” (Sermão da Páscoa e da Santa Eucaristia 2).

FULGÊNCIO DE RUSPE

Nasceu em Telepte, na África, em 467. Monge, presbítero e, pouco depois, Bispo de Ruspe. Insígne defensor da doutrina católica contra o Arianismo, em razão do qual sofreu o desterro.

[Sobre a Eucaristia, disse:]

– “Esta edificação espiritual do corpo de Cristo se faz através da caridade (…) Afirmo que esta edificação espiritual nunca é mais oportunamente pedida do que quando o próprio corpo de Cristo – que é a Igreja – oferece no sacramento do pão e do cálice o próprio corpo de Cristo e Seu sangue” (Ad Monimum 2,11,1).

VERECUNDO DE JUNCA 

Bispo de Junca, na África, em meados do século VI.

[Sobre a Eucaristia, escreveu:]

– “O sangue da uva (cf. Deuteronômio 32,14) é o sangue dos mártires ou, com certeza, o sangue da própria Paixão do Senhor, com o qual nos saciamos diariamente a partir dos altares sagrados; [sangue] que embriaga a nossa mente para que abandonemos o terreno e façamos uso do celeste” (Commentarii Super Carmina Ecclesiastica 2,14).

– “O Senhor nos nutre com alimentos não apenas corporais, mas também espirituais (…): indubitavelmente, com a Palavra das Escrituras, com a ciência para compreendê-las e com os víveres do corpo de Cristo e da bebida do sangue Daquele que todos os dias é [incruentamente] imolado nos santos altares” (Commentarii Super Carmina Ecclesiastica 2,18).

A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 16

JESUS_1

Autor: Pe. Juan Carlos Sack
Fonte: http://www.apologetica.org
Tradução: Carlos Martins Nabeto

[Dando continuidade a esta Série, abordaremos hoje Isaac de Antioquia, Jacó de Sarub, Procópio de Gaza e Leôncio de Jerusalém].

ISAAC DE ANTIOQUIA

Prolífico escritor e poeta do século V.

Escreveu um belíssimo poema sobre a fé e a Eucaristia:

– “A fé me convidou a recuperar-me com as suas provisões / Fez-me sentar à Sua mesa (…) / Vi seu jarro misturado, que estava cheio de sangue ao invés de vinho / E, ao invés de pão, estava sobre a mesa o corpo imolado / Vi o sangue e me espantei / Vi o corpo sacrificado e o temor me invadiu (…) / Mostrou-me o corpo que havia sido morto / Pôs [parte] dele nos meus lábios e disse-me carinhosamente / ‘Olha o que comes!’ / A seguir, deu-me a pena do Espírito e exigiu que a pegasse na mão / Peguei, escrevi e confessei: ‘Isto é o corpo de Deus’ / Igualmente, tomei também o cálice e o bebi em Seu banquete / Então senti o aroma daquele calice, daquele corpo que havia comido / E o que eu disse sobre o corpo, que era ‘o corpo de Deus’ / atestei o mesmo agora sobre o cálice: ‘Isto é o sangue de nosso Salvador'” (Poema sobre a Fé; BKV 6,139-140).

JACÓ DE SARUG

Poeta sírio que morreu em 521.

Cantando em honra da Eucaristia, dizia:

– “O Esposo desce para ver a sua Esposa (=a Igreja) casada com Ele / Vai tu (=esposa) agora para a câmara nupcial, para que Ele te veja! / Não deixes a habitação do Esposo real, que desce para ver-te e traz as riquezas da casa de Seu Pai / O sacerdote que enviastes, O tem invocado [na consagração] / Espera-O, porque se vier e não te vir, ficará desgostoso / Com o sacerdote, toda a multidão suplica ao Pai para que envie o seu Filho / Para que desça e repouse sobre a oferenda [do pão e do vinho] / E o Espírito Santo faz Sua força habitar no pão e no vinho / e os santifica, e os torna corpo e sangue” (Homilia Métrica 95, Sobre a Recepção dos Santos Mistérios; ST 233,412).

– “Em um banquete nupcial, colocou seu corpo e seu sangue diante dos convidados / para que comam e vivam eternamente com Ele / No salão da festa, Nosso Senhor é comida e bebida / Bendito Aquele que deu Seu corpo e Seu sangue para comermos!” (Idem; ST 233,418).

– “Partiu o pão, o fez Seu corpo e o deu aos Seus Apóstolos / E o sabor do pão que contém a Vida estava nas suas bocas / No momento em que Ele o tomou [nas mãos] e chamou de ‘corpo’ / Já não era pão, mas corpo; e O comeram maravilhados” (Homilia Métrica 53, Sobre a Crucificação; ST 233,397).

PROCÓPIO DE GAZA

Poeta sírio, que também morreu em 521.

Em seus comentários bíblicos, coleta as exposições anteriores dos Santos Padres. Em seu comentário à primeira Páscoa (Êxodo 12), enxerga constantemente a Páscoa de Cristo. Neste contexto, escreve:

– “Ele quer nos dar o seu corpo como alimento. Por isso, sofre com que seu sangue seja derramado, por cuja aspersão faz com que o perseguidor e inimigo fuja; porque após sermos ungidos ou encharcados com o Seu sangue – isto é, após ter crido em Cristo – é que poderemos nos aproximar para comer da Sua carne” (Comentário sobre Êxodo 12,8)[52].

LEÔNCIO DE JERUSALÉM 

Escreveu em meados do século VI.

Dele são estas palavras:

– “O Cristo glorificado – que para nós é Deus adorável e para vós [nestorianos] é apenas um homem – (…) apresenta aqui [na Eucaristia] seu próprio e verdadeiro corpo e carne, que foram atravessados pelos pregos e pela lança, visto que eram seus membros, dos quais diz: ‘Perfuraram as minhas mãos e os meus pés’. Mostrou também que a comunhão mística do pão da Eucaristia era a doação de Sua própria carne, dizendo: ‘Aquele que come a Minha carne e bebe o Meu sangue’; e, em outro lugar: ‘Isto é Meu corpo'” (Contra os Nestorianos 7).

NOTA:

[52] Coletando a Fé de toda a Igreja, o poeta cristão do séc. V não faz uma falsa dialética entre o “receber Cristo na fé” e o “recebê-Lo no sacramento”. É doutrina católica que ninguém pode aproveitar-se do Santíssimo Sacramento se não tiver fé e se primeiramente não recebeu Cristo na fé. Porém, este “recebê-Lo na fé” é renovado toda vez que é recebido sacramentalmente. A postura fundamentalista “evangélica” mostra-se particularmente míope neste tema, já que afirma que “o católico, por receber Jesus todo domingo na Eucaristia” teria perdido Ele durante a semana, por isso, precisa recebê-Lo novamente, como lemos em algum Site da Internet. Ora, se aceitarmos esta lógica totalmente preconceituosa, deveremos dizer também que quando o “cristão evangélico” vai cultuar o Senhor uma vez na semana, ou uma vez ao mês, ou uma vez ao ano na Santa Ceia é porque… teria se esquecido Dele durante todo esse tempo [entre uma Ceia e outra].

A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 15

adoracao-ao-santissimo

Autor: Pe. Juan Carlos Sack
Fonte: http://www.apologetica.org
Tradução: Carlos Martins Nabeto

[Dando continuidade a esta Série, abordaremos hoje João Mandakuni, Marutas de Maipherkat, o poeta Balai e Rábula de Edessa].

JOÃO MANDAKUNI

Bispo e confessor da fé na Igreja da Armênia, no século V.

Propõe a fé da Igreja com toda a clareza:

– “No sacrifício comes o corpo do Filho de Deus” (Carta sobre a Penitência 13; BKV 58,67).

– “Tendes desprezado a santidade do corpo e sangue de Cristo que haveis recebido no tremendo e augusto altar” (Sermão sobre o Caráter dos Iracundos 9; BKV 58,155).

– “Porque tratas desrespeitosamente o tremendo e sublime Sacramento? Não sabes que, no momento em que o Santo Sacramento vem ao altar, o céu se abre e dele desce e nos chega o Cristo; que os coros dos anjos voam do céu à terra e rodeiam o altar onde está o Santo Sacramento do Senhor; e que o Espírito preenche a todos?” (Sermão sobre a Devoção e o Respeito ao se Receber o Santo Sacramento 5; BKV 58,226).

MARUTAS DE MAIPHERKAT

Testemunha da fé na Igreja da Síria, no século V.

– “Sempre que nos aproximamos do corpo e sangue de Cristo e o colocamos em nossas mãos, cremos que tocamos o [Seu] corpo e que já somos da Sua carne e dos Seus ossos, como está escrito, já que Cristo não nos chamou ‘tipo’ e ‘figura’, mas: ‘verdadeiramente isto é Meu corpo e isto é Meu sangue'” (Fragmento; em J.S. Assemani, Bibliotheca Orientalis 1, pp. 179-180)

BALAI

Poeta sírio da primeira metade do século V.

Expressa assim a sua fé na Eucaristia:

– “O altar está preparado, realmente coberto / Diante dele está o sacerdote, que acende o fogo / Toma o pão e dá o corpo / Toma o vinho e distribui o sangue” (Poema na Dedicação da Igreja de Qennesrin; BKV 6,65).

RÁBULA DE EDESSA

Nasceu na segunda metade do século IV, de pai pagão e mãe cristã. Converteu-se ao Cristianismo durante uma viagem à Palestina, fazendo-se batizar no rio Jordão por volta de 400. Viveu como monge na Síria. Foi eleito Bispo de Edessa. Participou amplamente do Concílio de Éfeso. Morreu por volta de 435.

– “Se alguém quer comparar o pão da proposição comido por Davi quando estava faminto com o corpo vivificante do Verbo Deus, devemos olhar para esse homem como pessoa sem juízo, pois não se compara o pão da proposição com o corpo e o sangue do Senhor” (Carta a Guemelino).

– “Qualquer partícula do santo corpo que cair no chão deverá ser procurada com cuidado. Se for encontrada, o lugar onde caiu deverá ser raspado; se for de terra, misture-se água a esta e seja dada a massa aos fiéis. Se não for encontrada, a região deverá ser igualmente raspada, como já dissemos. Igualmente, se for derramado algo do sangue: se o lugar onde caiu for de pedra, coloque-se sobre ele carvões acesos” (Cânones; PG 77,1475).

Page 1 of 4

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén