Por Philip Pullella e Tom Heneghan

ISTAMBUL (Reuters) – O papa concluiu na sexta-feira sua conciliadora viagem à Turquia recebendo elogios da imprensa local por ter visitado a Mesquita Azul, de Istambul, e rezado voltado para Meca “como os muçulmanos”.

O papa, que há dois meses provocou protestos em todo o mundo islâmico por causa de um discurso aparentemente crítico à religião, parecia relaxado e contente ao entrar na catedral do Espírito Santo para uma missa, ao final da delicada visita de quatro dias.

Sua primeira visita como papa a um país de maioria islâmica, sob forte esquema de segurança, foi marcada por uma série de gestos conciliatórios, que culminaram na tarde de quinta-feira com a ida à famosa Mesquita Azul.

“A temida visita do papa foi concluída com uma maravilhosa surpresa”, disse o jornal Askam em sua capa.

“Na mesquita Sultão Ahmet [nome oficial da Mesquita Azul], ele se voltou para Meca e rezou como os muçulmanos”, descreveu o popular diário Hurriyet.

Durante a visita, o papa também manifestou apoio à adesão turca à União Européia e elogiou o caráter pacífico do Islã. Aparentemente, esses gestos eliminaram o mal-estar decorrente do discurso de setembro, em que ele citava um imperador bizantino para o qual o Islã era uma religião violenta e irracional.

Mas, no mundo árabe, vários comentaristas continuam pedindo que Bento 16 peça desculpas pelo discurso. Surpreso pelos protestos provocados, o papa disse não concordar com a frase mencionada no discurso, mas não se desculpou.

Autoridades católicas também descreveram como um momento importante de reconciliação a visita do papa à mesquita, onde ele ficou de pé, orando silenciosamente, enquanto o grão-mufti de Istambul, Mustafa Cagrici, rezava em voz alta.

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“Eu compararia a visita do papa à mesquita com os gestos do papa João Paulo 2 no Muro das Lamentações”, disse o influente cardeal Roger Etchegaray, referindo-se às orações do falecido pontífice em Jerusalém, em 2000. “Ontem, Bento 16 fez com os muçulmanos o que João Paulo 2 fez com os judeus”.

A visita, que começou em Ancara e incluiu uma parada na cidade antiga de Éfeso, revelou um lado diplomático do papa, de quem se espera uma posição mais dura em relação ao Islã do que a demonstrada por João Paulo 2.

Bento 16 cobrou mais liberdade religiosa na Turquia e, por extensão, no resto do mundo islâmico, mas sem o tom de confronto que muitos na Igreja previam após sua eleição, em abril de 2005.

Os protestos contra a visita dele foram poucos e localizados.

Antes da missa, Bento 16 soltou pombas representando a paz no jardim diante da catedral católica de Istambul. Ele também abençoou uma estátua do papa João 23 (1958-63).

Antes de se tornar o papa João 23, o arcebispo Angelo Roncalli foi diplomata do Vaticano em Istambul, entre 1935 e 1944, e se tornou uma figura popular na cidade. A rua onde ficava seu gabinete agora se chama rua Papa Roncalli.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ele usou sua base em Istambul para ajudar quase 24 mil judeus a fugirem do Holocausto na Hungria, na Romênia e na Bulgária, então ocupadas pelo nazismo. Para isso, o cardeal muitas vezes expedia falsas certidões de batismo.

Entre os participantes da missa de sexta-feira estava o patriarca ecumênico de Istambul, Bartolomeu, líder espiritual dos 250 milhões de cristãos ortodoxos do mundo. Na véspera, ele e o papa assinaram uma declaração comprometendo-se a trabalhar pela reunificação das igrejas, divididas pelo Grande Cisma de 1054.

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