«Toda a noite procurei aquele que o meu coração ama» (Ct 3,1). Quão grande é o bem de procurar a Deus ! Pela minha parte, penso mesmo que não há bem maior. Sendo o primeiro dos dons de Deus, este é também a última etapa. É dom que não se acrescenta a qualquer outra virtude, porque nenhuma lhe é anterior. Pois que virtude poderíamos atribuir àquele que não procura a Deus, e que limite poderíamos pôr à procura de Deus? «Buscai sempre a sua face», diz um salmo (104,4). Creio que, mesmo quando O tivermos encontrado, não cessaremos de O procurar.

Não é a percorrer muitos lugares que procuramos a Deus, mas a desejá-lo. Porque a felicidade de O termos encontrado não apaga o desejo mas, pelo contrário, fá-lo crescer. A consumpção da alegria […] é como azeite no fogo, pois o desejo é uma chama. A alegria será completa (Jo 15,11) mas o desejo não terá fim, nem, portanto, terá fim a procura.

Que cada alma que procura a Deus saiba, porém, que Deus Se lhe antecipou, pois a procurou antes de ela se ter posto a procurá-lo. […] É a isto que vos chama a bondade daquele que Se vos antecipa, esse que, antes de todos, vos procurou, e antes de todos vos amou. Portanto, se não tivésseis sido primeiro procurados, de maneira alguma O procuraríeis; se não tivésseis sido primeiro amados por Ele, de maneira alguma O amaríeis. Não fostes antecipados por uma só graça, mas por duas: pelo amor e pela procura. O amor é a causa da procura; a procura é o fruto do amor, e é também a prova deste. Por causa do amor não temeis ser procurados. E porque fostes procurados não vos queixareis de ser amados em vão.




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