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Informações sobre a beatificação de João Paulo II

A Beatificação do Servo de Deus Papa João Paulo II será um grande evento eclesial, articulado nos seguintes cinco momentos:

1. A vigília de preparação terá lugar na tarde de sábado, 30 de abril próximo (20h – 21h: preparação; 21h-22h30min: vigília), no Circo Máximo de Roma, e será organizada pela Diocese de Roma, que teve o venerável Servo de Deus como Bispo. A vigília será guiada pelo Eminentíssimo Cardeal Agostino Vallini, Vigário Geral de Sua Santidade para a Diocese de Roma, e o Santo Padre Bento XVI se unirá espiritualmente através de um vídeo link.

2. A celebração da beatificação, domingo, 1º de maio na Praça de São Pedro, terá início às 10h e será presidida pelo Santo Padre. A participação não é regulada por bilhetes, todavia o acesso à Praça e às zonas adjacentes estará sob a tutela da Segurança Pública.

3. A veneração dos restos do novo Beato será possível a todos os fiéis no próprio domingo, 1º de maio, logo depois da cerimônia da beatificação e prosseguirá até o exaurimento do fluxo de fiéis. Os restos do novo Beato serão expostos para a veneração na Basílica de São Pedro, diante do Altar da Confissão.

4. A Missa de ação de graças está programada para segunda-feira, 2 de maio, às 10h30min na Praça de São Pedro, e será presidida pelo Eminentíssimo Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado.

5. O sepultamento dos restos do novo Beato na Basílica Vaticana, junto da Capela de São Sebastião, ocorrerá  de forma privada.

Fonte: Santa Sé
Tradução: OBLATVS

Brasil: Senado homenageia Rede Vida

BRASÍLIA, terça-feira, 22 de junho de 2010 (ZENIT.org) – O Senado brasileiro homenageou na tarde dessa segunda-feira a Rede Vida de Televisão, emissora católica, pelos seus 15 anos de fundação.

Participaram da solenidade, o presidente da Rede Vida de Televisão, João Monteiro de Barros Filho; o presidente da diretoria executiva do Instituto Brasileiro de Comunicação Cristão (Inbrac), Marcelo Aparecido Coutinho da Silva; e o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta.

A homenagem foi requerida pelo senador Arthur Virgílio, que destacou a qualidade da programação da emissora.

“A Rede Vida de Televisão é uma emissora que se esforça ao máximo para cultivar um canal adequado para a família, elemento essencial para a formação e desenvolvimento da sociedade”, disse o senador, ao justificar o pedido de homenagem.

Controlada pela Organização Monteiro de Barros, a Rede Vida é uma emissora dedicada ao público católico. Tem sede em São José do Rio Preto (São Paulo), onde suas operações tiveram início em 1995.

O canal transmite em sua programação missas e celebrações católicas do país, além de programas jornalísticos nas áreas de cultura, informação e esporte, programas de entretenimento e infantis.

Seu sinal é captado por todo o Brasil via satélite, além de ser transmitido por meio de suas afiliadas e das 445 retransmissoras localizadas nos Estados.

São Máximo O Confessor

Por Papa Bento XVI
Tradução: Élison Santos
Fonte: Vaticano

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje quero apresentar a figura de um dos grandes padres da Igreja do Oriente do período tardio. Trata-se de um monge, São Máximo, ao qual a tradição cristã atribuiu o título de «o confessor» pela intrépida valentia com a qual soube testemunhar – «confessar» –, inclusive com o sofrimento, a integridade de sua fé em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, salvador do mundo.

Máximo nasceu na Palestina, a terra do Senhor, em torno do ano 580. Desde pequeno, ele se orientou à vida monástica e ao estudo das Escrituras, em parte através das obras de Orígenes, o grande mestre que já no século III havia estruturado a tradição exegética alexandrina.

De Jerusalém ele se trasladou a Constantinopla e de lá, por causa das invasões bárbaras, refugiou-se na África, onde se distinguiu por sua grande valentia na defesa da ortodoxia. Máximo não aceitava que se reduzisse a humanidade de Cristo. Havia nascido a teoria segundo a qual Cristo só teria uma vontade, a divina. Para defender a unicidade de sua pessoa, muitos negavam que tivesse uma autêntica vontade humana. E, à primeira vista, poderia parecer algo bom que Cristo tivesse uma só vontade. Mas São Máximo compreendeu imediatamente que isso teria acabado com o mistério da salvação, pois uma humanidade sem vontade, um homem sem vontade, não é um verdadeiro homem, é um homem amputado. Portanto, o homem Jesus Cristo não teria sido um verdadeiro homem, não teria vivido o drama de ser humano, que consiste precisamente na dificuldade para conformar nossa vontade com a verdade do ser.

Deste modo, São Máximo afirma com grande decisão: a Sagrada Escritura não nos mostra um homem amputado, sem vontade, mas um verdadeiro homem, completo: Deus, em Jesus Cristo, realmente assumiu a totalidade do ser humano – obviamente, exceto no pecado; portanto, também uma vontade humana. Dito assim, pareceria claro: Cristo, é ou não é homem? Se é homem, também tem vontade. Mas então surge o problema: deste modo, não se cai em uma espécie de dualismo? Não se acaba apresentando duas personalidades completas: razão, vontade, sentimento? Como superar o dualismo, conservar a plenitude do ser humano e defender a unidade da pessoa de Cristo, que não era esquizofrênico? São Máximo demonstra que o homem encontra sua unidade, sua integração, a totalidade em si mesmo, mas superando a si mesmo, saindo de si mesmo. Deste modo, em Cristo, ao sair de si mesmo, o homem encontra a si mesmo em Deus, no Filho de Deus.

Não é preciso amputar o homem para explicar a encarnação; basta compreender o dinamismo do ser humano que só se realiza saindo de si mesmo; só em Deus encontramos a nós mesmos, nossa totalidade e plenitude. Deste modo, pode-se ver que o homem que se fecha em si mesmo não está completo; pelo contrário, o homem que se abre, que sai de si mesmo, consegue a plenitude e encontra a si mesmo no Filho de Deus, encontra sua verdadeira humanidade.

Para São Máximo, esta visão não é uma especulação filosófica; ele a vê realizada na vida concreta de Jesus, sobretudo no drama de Getsêmani. Neste drama da agonia de Jesus, da angústia da morte, da oposição entre a vontade humana de não morrer e a vontade divina, que se oferece à morte, realiza-se todo o drama humano, o drama de nossa redenção. São Máximo nos diz, e sabemos que é verdade: Adão (e Adão somos nós) pensava que o «não» era o cume da liberdade. Só quem pode dizer «não» a Deus seria realmente livre; para realizar realmente sua liberdade, o homem deveria dizer «não» a Deus; só assim crê que é ele mesmo, que chegou ao cume da liberdade. A natureza humana de Cristo também levava em si essa tendência, mas a superou, pois Jesus compreendeu que o «não» não é o máximo da liberdade humana. O máximo da liberdade é o «sim», a conformidade com a vontade de Deus. Só no «sim» o homem chega a ser realmente ele mesmo; só na grande abertura do «sim», na unificação de sua vontade com a divina, o homem chega a estar imensamente aberto, chega a ser «divino». Ser como Deus era o desejo de Adão, ou seja, ser completamente livre. Mas não é divino, não é completamente livre o homem que se fecha em si mesmo; ele o é se sai de si, no «sim» chega a ser livre; este é o drama de Getsêmani: «que não se faça minha vontade, mas a tua». Transferindo a vontade humana na vontade divina nasce o verdadeiro homem, e assim somos redimidos. Em poucas palavras, este era o ponto principal que São Máximo queria comunicar e vemos que está em jogo todo o ser humano; está em jogo toda a nossa vida.

São Máximo já tinha problemas na África quando defendia essa visão do homem e de Deus; depois foi chamado a Roma. Em 649, participou do Concílio Lateranense, convocado pelo Papa Martinho I, em defesa da vontade de Cristo, contra o edito do imperador, que, pelo bem da paz – pro bono pracis – proibia discutir sobre esta questão. O Papa Martinho teve de pagar um caro preço por sua valentia: ainda que estivesse enfermo, foi preso e levado a Constantinopla. Processado e condenado à morte, foi-lhe comutada a pena no exílio definitivo de Crimea, onde faleceu em 16 de setembro de 655, após dois longos anos de humilhações e tormentos.

Pouco tempo depois, em 662, foi a vez de Máximo, que também se opôs ao imperador ao repetir: «É impossível afirmar em Cristo uma só vontade!» (cf. PG 91, cc. 268-269). Deste modo, junto a dois discípulos – ambos se chamavam Anastásio –, Máximo foi submetido a um extenuante processo, apesar de que já havia superado os 80 anos. O tribunal do imperador o condenou, com a acusação de heresia, à cruel mutilação da língua e da mão direita, os dois órgãos de expressão, a palavra e os escritos, com os quais Máximo havia combatido a doutrina errada da vontade única de Cristo. Por último, o santo monge, mutilado, foi exilado em Cólquida, no Mar Negro, onde morreu, esgotado pelos sofrimentos, aos 82 anos, em 13 de agosto do mesmo ano.

Falando da vida de Máximo, mencionamos sua obra literária em defesa da ortodoxia. Em particular, nós nos referimos àDisputa com Pirro, antigo patriarca de Constantinopla: nela, conseguiu persuadir o adversário de seus erros. Com muita honestidade, de fato, Pirro concluía assim a Disputa: «Peço perdão da minha parte e da parte de quem me precedeu: por ignorância, chegamos a estes pensamentos e argumentações absurdas; e peço que isso encontre a maneira de cancelar estes absurdos, salvando a memória daqueles que erraram» (PG 91, c. 352).

Chegaram até nós também dezenas de obras importantes, entre as quais se destaca a Mistagogia, um dos escritos mais significativos de São Máximo, que recolhe seu pensamento teológico com uma síntese bem estruturada.

O pensamento de Máximo nunca é só teológico, especulativo, voltado para si mesmo, pois sempre tem como ponto de chegada a realidade concreta do mundo e da salvação. No contexto em que teve de sofrer, ele não podia evadir-se em afirmações filosóficas meramente teóricas; tinha de buscar o sentido da vida, perguntando-se: quem sou? Quem é o mundo? Ao homem, criado à sua imagem e semelhança, Deus confiou a missão de unificar o cosmos. E como Cristo unificou em si mesmo o ser humano, no homem o Criador unificou o cosmos. Ele nos mostrou como unificar na comunhão de Cristo o cosmos e deste modo chegar realmente a um mundo redimido. A esta poderosa visão salvífica se refere um dos maiores teólogos do século XX, Hans Urs von Balthasar, que – «relançando» a figura de Máximo – define seu pensamento com a incisiva expressão de Kosmische Liturgie, «liturgia cósmica». No centro desta solene «liturgia» sempre está Jesus Cristo, único salvador do mundo. A eficácia de sua ação salvadora, que unificou definitivamente o cosmos, está garantida pelo fato de que Ele, apesar de ser Deus em tudo, também é integramente homem, incluindo a «energia» e a vontade do homem.

A vida e o pensamento de Máximo ficam poderosamente iluminados por uma imensa valentia para testemunhar a realidade íntegra de Cristo, sem reducionismos nem compromissos. Deste modo, apresenta o que o homem é realmente, como devemos viver para responder à nossa vocação. Temos de viver unidos a Cristo para ficar deste modo unidos a nós mesmos e ao cosmos, dando ao próprio cosmos e à humanidade sua justa forma.

O «sim» universal de Cristo nos mostra claramente como dar o valor adequado a todos os demais valores. Pensemos em valores hoje justamente defendidos como a tolerância, a liberdade, o diálogo. Mas uma tolerância que deixasse de saber distinguir o bem do mal seria caótica e autodestrutiva. Do mesmo modo, uma liberdade que não respeitasse a dos demais e não encontrasse a medida comum de nossas liberdades seria anárquica e destruiria a autoridade. O diálogo que não sabe sobre o que dialogar se converte em uma palavra vazia.

Todos estes valores são grandes e fundamentais, mas podem ser verdadeiros unicamente se têm um ponto de referência que os une e lhes confere a verdadeira autenticidade. Este ponto de referência é a síntese entre Deus e o cosmos, é a figura de Cristo na qual aprendemos a verdade sobre nós mesmos, assim como o lugar de todos os demais valores, para descobrir seu significado autêntico. Jesus Cristo é o ponto de referência que ilumina todos os demais valores. Este é o ponto de chegada do testemunho deste grande confessor. Deste modo, ao final, Cristo nos indica que o cosmos deve ser liturgia, glória de Deus e que a adoração é o início da verdadeira transformação, da verdadeira renovação do mundo.

Por este motivo, quero concluir com uma passagem fundamental das obras de São Máximo: «Adoramos um só Filho, junto com o Pai e o Espírito Santo, como era antes dos tempos, agora e por todos os tempos, e pelos tempos depois dos tempos. Amém!» (PG 91, c. 269).

São Máximo de Turim

Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Entre o final do século IV e começo do V, outro Padre da Igreja, depois de Santo Ambrósio, contribuiu decididamente para a difusão e a consolidação do cristianismo na Itália do norte: trata-se de São Máximo, que era bispo de Turim no ano 398, um ano depois da morte de Ambrósio. Restam-nos poucas notícias dele; recentemente, recebemos uma coleção de aproximadamente noventa «Sermões». Neles se pode constatar a profunda e vital união do bispo com sua cidade, que testifica um ponto evidente de contato entre o ministério episcopal de Ambrósio e o de Máximo.

Naquele tempo, graves tensões turbavam a convivência civil. Máximo, neste contexto, conseguiu unir o povo cristão em torno de sua pessoa de pastor e mestre. A cidade estava ameaçada por grupos de bárbaros que, ao penetrar pelas entradas orientais, avançavam até os Alpes ocidentais. Por este motivo, Turim estava constantemente rodeada de guarnições militares, e se converteu, nos momentos críticos, em refúgio para as populações que fugiam do campo e dos centros urbanos sem proteção.

As intervenções de Máximo perante esta situação testemunham o compromisso de reagir ante a degradação civil e a desagregação. Ainda que seja difícil determinar a composição social dos destinatários dos «Sermões», parece que a pregação de Máximo, para superar o risco de ser genérica, dirigia-se especificamente a um núcleo selecionado da comunidade cristã de Turim, constituído por ricos proprietários de terras, que tinham suas fazendas no campo e a casa na cidade. Foi uma lúcida decisão pastoral do bispo, que concebeu esta pregação como o caminho mais eficaz para manter e reforçar seus laços com o povo.

Para ilustrar, nesta perspectiva, o ministério de Máximo em sua cidade, quero apresentar como exemplo os «Sermões» 17 e 18, dedicados a um tema sempre atual, o da riqueza e da pobreza nas comunidades cristãs. Também neste sentido se davam agudas tensões na cidade. Acumulavam e ocultavam riquezas. «Não se pensa nas necessidades do outro», constatava amargamente o bispo em seu «Sermão» número 17.

«De fato, muitos cristãos não só não distribuem o que têm, mas roubam dos demais. Não só não levam aos pés dos apóstolos o que recolheram, mas também afastam dos pés dos sacerdotes os irmãos que buscam ajuda». E conclui: «Em nossa cidade há muitos hóspedes e peregrinos. Fazei o que prometestes» aderindo à fé, «para que não se diga também de vós o que se disse de Ananias: ‘Não mentistes aos homens, mas a Deus’». («Sermão» 17, 2-3)

No «Sermão» sucessivo, número 18, Máximo critica as formas comuns de depredação das desgraças dos demais. «Dize-me, cristão, exorta o bispo a seus fiéis, dize-me por que tomaste a presa abandonada pelos predadores? Por que introduziste em tua casa um ‘lucro’ depredado e contaminado?». «Mas, acrescenta, talvez dizes que o compraste e por isso achas que evitas assim a acusação de avareza. Mas deste modo não há relação entre o que se compra e o que se vende. Comprar é algo bom, mas em tempo de paz, quando se vende com liberdade, e não quando se vende o que foi roubado… Comporta-te, portanto, como cristão e como cidadão que compra para devolver» («Sermão» 18, 3).

Sem mostrar muito, Máximo pregou uma relação profunda entre os deveres do cristão e os do cidadão. Para ele, viver a vida cristã significa também assumir os compromissos civis. Pelo contrário, o cristão que, «apesar de que pode viver com seu trabalho, pega a presa do outro com o furor das feras» ou «ataca seu vizinho, cada dia buscando parte de seus bens, tomando posse de seus produtos», não lhe parece nem sequer semelhante à raposa que degola as galinhas, mas ao lobo que se lança contra os porcos («Sermão» 41, 4).

Pelo que se refere à prudente atitude de defesa assumida por Ambrósio para justificar sua famosa iniciativa de resgatar os prisioneiros de guerra, podemos ver com clareza as mudanças históricas que aconteceram na relação entre o bispo e as instituições cidadãs. Contando já com o apoio de uma legislação que pedia aos cristãos que redimissem os prisioneiros, Máximo, ante a queda das autoridades civis do Império Romano, sentia-se plenamente autorizado para exercer nesse sentido um autêntico poder de controle sobre a cidade.

Este poder se tornaria depois cada vez mais amplo e eficaz, até chegar a suprir a ausência de magistrados e das instituições civis. Neste contexto, Máximo não só se dedica a estimular nos fiéis o amor tradicional à pátria cidadã, mas proclama também o preciso dever de enfrentar os gastos fiscais, por mais pesados e desagradáveis que pareçam («Sermão 26, 2).

Em definitivo, o tom e a essência dos «Sermões» implicam uma maior consciência da responsabilidade política do bispo nas específicas circunstâncias históricas. É a «atalaia» da cidade. Acaso não são estas atalaias, pergunta-se Máximo no «Sermão» 92, «os beatíssimos bispos que, colocados, por assim dizer, em uma rocha elevada de sabedoria para a defesa dos povos, vêem desde longe os males que chegam?».

E no «Sermão» 89, o bispo de Turim ilustra aos fiéis suas tarefas, servindo-se de uma comparação singular entre a função episcopal e a das abelhas: «Como a abelha, diz, os bispos observam a castidade do corpo, oferecem o alimento da vida celestial, utilizam o ferrão da lei. São puros para santificar, doces para reconfortar, severos para castigar». Deste modo, São Máximo descreve a tarefa do bispo em sua época.

Em definitivo, a análise histórica e literária demonstra uma consciência cada vez maior da responsabilidade política da autoridade eclesiástica, em um contexto no qual ela estava substituindo de fato a civil. É o desenvolvimento do ministério do bispo no ocidente da Itália, a partir de Eusébio, que «como um monge», vivia em sua cidade de Vercelli, até Máximo de Turim, que «com uma sentinela», encontrava-se na rocha mais elevada da cidade.

É evidente que o contexto histórico, cultural e social hoje é profundamente diferente. O atual contexto é mais o descrito por meu venerado predecessor, o Papa João Paulo II, na exortação pós sinodal «Ecclesia in Europa», na qual oferece uma articulada análise dos desafios e dos sinais de esperança para a Igreja na Europa hoje (6-22). Em todo caso, independentemente da mudança de circunstâncias, continuam sendo válidas as obrigações do crente ante sua cidade e sua pátria. A íntima relação entre o «cidadão honesto» e o «bom cristão» segue totalmente vigente.

Para concluir, quero recordar o que diz a constituição pastoral «Gaudium et spes» para esclarecer um dos aspectos mais importantes da unidade de vida do cristão: a coerência entre a fé e o comportamento, entre Evangelho e cultura. O Concílio exorta os fiéis «a que procurem cumprir fielmente os seus deveres terrenos, guiados pelo espírito do Evangelho. Afastam-se da verdade os que, sabendo que não temos aqui na terra uma cidade permanente, mas que vamos em demanda da futura, pensam que podem por isso descuidar os seus deveres terrenos, sem atenderem a que a própria fé ainda os obriga mais a cumpri-los, segundo a vocação própria de cada um» (n. 43).

Seguindo o magistério de São Máximo e de outros muitos Padres, façamos nosso o desejo do Concílio; que haja cada vez mais fiéis que queiram «exercer todas as suas atividades temporais fazendo uma síntese vital do esforço humano, familiar, profissional, científico ou técnico, com os valores religiosos, sob cuja altíssima hierarquia tudo coopera para a glória de Deus» (ibidem) e, dessa forma, ao bem da humanidade.

Santo Eusébio de Vercelli

Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Caros irmãos e irmãs,

Nesta manhã, eu vos convido a refletir sobre Santo Eusébio de Vercelli, o primeiro bispo da Itália setentrional de que temos notícia segura. Nascido em Sardenha no início do século IV, ainda em tenra idade se transferiu para Roma com sua família. Mais tarde foi instituído leitor, passando a fazer parte do clero de Urbe, em um tempo em que a Igreja era gravemente provada pela heresia ariana.

A grande estima que aumentou por Eusébio explica sua eleição em 345 à cátedra episcopal de Vercelli. O novo Bispo iniciou logo uma intensa obra de evangelização em um território ainda em grande parte pagão, especialmente na área rural.

Inspirado em Santo Atanásio – que havia escrito a «Vida de Santo Antônio», iniciador do monaquismo no Oriente –, fundou em Vercelli uma comunidade sacerdotal, semelhante a uma comunidade monástica. Esta experiência deu ao clero da Itália setentrional um significativo traço de santidade apostólica, e suscitou figuras de Bispos importantes, como Limênio e Onorato, sucessores de Eusébio em Vercelli, Gaudêncio em Novara, Esuperâncio em Tortona, Eustásio em Aosta, Eulógio em Ivrea, Máximo em Turim, todos venerados da Igreja como santos.

Solidamente formado na fé nicena, Eusébio defende com todas as forças a divindade de Jesus Cristo, definida no Credo de Nicéia «consubstancial» ao Pai. A tal propósito se aliou com os grandes Padres do século IV – sobretudo com Santo Atanásio, bispo da ortodoxia nicena – contra a política filo-ariana do imperador.

Para o imperador, a fé ariana, mais simples, parece politicamente mais útil como ideologia do império. Para ele, não importava a verdade, mas a oportunidade política: queria instrumentalizar a religião como ponto de unidade do império. Mas estes grandes Padres resistiram, defendendo a verdade contra a dominação da política. Por esse motivo, Eusébio foi condenado ao exílio como tantos outros Bispos do Oriente e do Ocidente: como o próprio Atanásio, como Hilário de Poitiers – dos quais falamos da última vez –, como Ósio de Córdoba. Em Escitópolis, na Palestina, onde foi confinado em 355 e em 360, Eusébio escreve uma página maravilhosa da sua vida.

Também lá fundou um cenóbio com um pequeno grupo de discípulos e desde então manteve o contato com seus fiéis de Piamonte, como demonstra sobretudo a segunda das três Cartas de Eusébio reconhecidas como autênticas.

Posteriormente, depois do ano 350, foi exilado na Capadócia e Tebaida, onde sofreu muito fisicamente. No ano 361, ao falecer Constâncio II, foi substituído pelo imperador Juliano, chamado o apóstata, a quem não lhe interessava o cristianismo como religião do império, mas que queria mais restaurar o paganismo. Ele acabou com o exílio desses bispos e deste modo permitiu também que Eusébio voltasse a tomar posse de sua sede.

No ano 362 foi convidado por Anastásio a participar no Concílio de Alexandria, que decidiu o perdão aos bispos arianos, com a condição de que voltassem ao estado leigo. Eusébio pôde continuar exercendo durante aproximadamente dez anos seu ministério episcopal, até a morte, estabelecendo com sua cidade uma relação exemplar, que inspirou o serviço pastoral de outros bispos da Itália do Norte, de quem falaremos nas próximas catequeses, como Santo Ambrósio de Milão e São Máximo de Turim.

A relação entre o bispo de Vercelli e sua cidade fica iluminada sobretudo por dois testemunhos epistolares. O primeiro se encontra na Carta já citada, que Eusébio escreveu desde o exílio de Escitópolis «aos queridíssimos filhos e aos presbíteros tão desejados, assim como aos santos povos firmes na fé de Vercelli, Novara, Ivrea e Tortona» («Ep. Secunda», CCL 9, p. 104). Estas expressões iniciais, que mostram a comoção do bom pastor ante seu rebanho, encontram ampla confirmação ao final da Carta, nas saudações do padre a todos e a cada um de seus filhos de Vercelli, com expressões transbordantes de carinho e amor.

Deve-se destacar antes de tudo a relação explícita que une o bispo com as «sanctae plebes» não só de Vercelli – a primeira, e por anos a única diocese do Piamonte –, mas também com as de Novara, Ivrea e Tortona, ou seja, as comunidades que, dentro da mesma diocese, haviam conseguido uma certa consistência e autonomia.

Outro elemento interessante aparece na despedida da Carta: Eusébio pede a seus filhos e a suas filhas que saúdem «também quem está fora da Igreja, e que se dignam a amar-nos: “etiam hos, qui foris sunt et nos dignantur diligere”». Sinal evidente de que a relação do bispo com sua cidade não se limitava à população cristã, mas se estendia também àqueles que, estando fora da Igreja, reconheciam em certo sentido sua autoridade espiritual e amavam este homem exemplar.

O segundo testemunho da relação singular que se dava entre o bispo e sua cidade aparece na Carta que Santo Ambrósio de Milão escreveu aos cristãos de Vercelli em torno ao ano 394, mais de 20 anos depois da morte de Eusébio («Ep. Extra collectionem 14»: Maur. 63). A Igreja de Vercelli estava passando um momento difícil: estava dividida e sem pastor. Com franqueza, Ambrósio declara que lhe custa reconhecer neles a «descendência dos santos padres, que deram sua aprovação a Eusébio sem antes vê-lo, sem tê-lo conhecido, esquecendo inclusive seus próprios concidadãos».

Na mesma Carta, o bispo de Milão testemunha claramente sua estima por Eusébio: «Um grande homem», escreve, que «mereceu ser eleito por toda a Igreja». A admiração de Ambrósio por Eusébio se baseia sobretudo no fato de que o bispo de Vercelli governava sua diocese com o testemunho de sua vida: «Com a austeridade do jejum governava sua Igreja». De fato, também Ambrósio estava fascinado, como reconhece ele mesmo, pelo ideal monástico da contemplação de Deus, que Eusébio havia buscado seguindo as pegadas do profeta Elias.

Em primeiro lugar, escreve Ambrósio, o bispo de Vercelli reuniu o próprio clero em «vita communis» e o educou na «observância das regras monásticas, apesar de viver na cidade». O bispo e seu clero tinham que compartilhar os problemas de seus concidadãos, e o fizeram de uma maneira crível, cultivando ao mesmo tempo uma cidadania diferente, a do Céu (cf. Hebreus 13, 14). E, deste modo, edificaram uma autêntica cidadania, uma autêntica solidariedade comum entre os cidadãos de Vercelli.

Deste modo, Eusébio, assumindo a causa da «sancta plebs», de Vercelli, vivia no seio da cidade como um monge, abrindo a cidade a Deus. Esta dimensão, portanto, não tirou nada de seu dinamismo pastoral. Entre outras coisas, parece que instituiu em Vercelli as igrejas rurais para um serviço eclesial ordenado e estável, e promoveu os santuários marianos para a conversão das populações rurais pagãs. Pelo contrário, este «caráter monástico» dava uma dimensão particular à relação do bispo com sua cidade. Igual aos apóstolos, por quem Jesus rezava na Última Ceia, os pastores e os fiéis da Igreja «estão no mundo» (Jo 17, 11), mas não são «do mundo».

Por esse motivo, os pastores, recordava Eusébio, têm que exortar os fiéis a não considerarem as cidades do mundo como sua morada estável, mas devem buscar a Cidade futura, a Jerusalém definitiva do céu. Esta «dimensão escatológica» permite aos pastores e aos fiéis salvaguardar a hierarquia justa dos valores, sem render-se jamais às modas do momento e às injustas pretensões do poder político. A autêntica hierarquia dos valores, parece dizer toda a vida Eusébio, não é decidida pelos imperadores de ontem ou de hoje, mas procede de Jesus Cristo, o Homem perfeito, igual ao Pai na divindade, e ao mesmo tempo homem como nós.

Referindo-se a esta hierarquia de valores, Eusébio não se cansa de «recomendar efusivamente» a seus fiéis que guardem «com todos os meios a fé, que mantenham a concórdia, que sejam assíduos na oração» (Ep. Secunda», cit.)

Queridos amigos, também eu vos recomendo de todo o coração estes valores perenes, e vos abençôo e saúdo com as mesmas palavras com as que o santo bispo Eusébio concluía sua segunda Carta: «Me dirijo a todos vós, irmãos meus e santas irmãs, filhos e filhas, fiéis dos dois sexos e de toda idade, para que… leveis nossa saudação também aos que estão fora da Igreja, e que se dignam a amar-nos» (ibidem).

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