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Quem possui o número correto de livros na Bíblia?

Autor: Vivator
Fonte: http://vivacatholic.wordpress.com/

Os cristãos não possuem o mesmo número de livros em suas Bíblias, especialmente no que tange ao Antigo Testamento. Os protestantes possuem 39 livros em seu Antigo Testamento, que corresponde (embora em uma ordem e agrupamento diferentes) aos 24 livros da Escritura judaica ou Tanakh[1]. O Antigo Testamento católico possui 7 livros a mais: Judite, Tobias, 1 e 2Macabeus, Baruc (incluindo a Carta de Jeremias), Sabedoria e Sirácida (ou Eclesiástico), além de alguns capítulos adicionais em Ester e Daniel (Prece de Azarias, Cântico dos Três Jovens, Susana, Bel e o Dragão). O Antigo Testamento dos ortodoxos orientais, traduzido a partir da LXX[2], inclui todos esses livros e ainda o Salmo 151, 3Macbeus e 1Esdras[3]. [O Antigo Testamento] da Igreja Ortodoxa Etíope possui [ainda] Enoc, Jubileus e vários outros livros[4]; e seu Novo Testamento possui mais livros que os 27 existentes no Novo Testamento católico, ortodoxo-oriental e protestante. Incompreensivelmente, os protestantes (e os cristãos do “apenas a Bíblia”) tentam com dificuldades provar que a sua Bíblia possui o número correto de livros, ou seja, o cânon (lista de livros inspirados [por Deus]) da Bíblia seria de 66. Segue abaixo as sete razões pelas quais eles geralmente se insurgem contra a inclusão dos livros deuterocanônicos[5] (ou “apócrifos”[6], segundo a sua terminologia) na Bíblia:

1. O Concílio de Trento acrescentou esses livros [apenas] no século XVI.
2. Nós deveríamos confiar nos judeus para determinar quais livros pertencem ao Antigo Testamento, já que eles manifestavam os oráculos de Deus (cf. Romanos 3,2).
3. O Novo Testamento nunca cita os livros apócrifos.
4. Nenhum dos livros apócrifos reclama para si inspiração.
5. Os livros apócrifos foram escritos após a morte dos últimos profetas de Israel.
6. Cristo aprovou os livros que pertenciam à Escritura judaica (igual ao Antigo Testamento protestante) quando disse, em Lucas 11:51, “do sangue de Abel ao sangue de Zacarias”
7. Os livros apócrifos não podem ser inspirados porque contêm muitos erros e contradições em relação aos 66 livros da Bíblia protestante.

[Apreciemos cada uma delas:]

1. O CONCÍLIO DE TRENTO ACRESCENTOU ESSES LIVROS [APENAS] NO SÉCULO XVI

Antes que alguém pudesse acusar o Concílio de Trento (ou qualquer outro Concílio) de acrescentar esses livros [ao cânon], deveria primeiro responder a esta pergunta: como sabemos que existem apenas 39 livros no Antigo Testamento e 27 livros no Novo Testamento? Não há um só versículo na Bíblia inteira, quer na católica, quer na ortodoxa-oriental, quer na ortodoxa-etíope, quer na protestante, que aponte quais livros pertencem à Bíblia. Isto constitui um sério problema para os cristãos protestantes e do “apenas a Bíblia” que declaram que a sua Bíblia é a única e maior autoridade. Inexplicavelmente para eles, o número de livros da sua Bíblia depende da declaração de fé das suas [respectivas] igrejas, ou de suas pressuposições, ou dos seus concílios eclesiásticos, ou – talvez – “porque o meu pastor me disse isso”. Em outras palavras: eles dependem de uma autoridade extrabíblica para determinar quais livros pertencem à Bíblia; e então eles transformam a Bíblia, com apenas esses livros predeterminados, em sua única e maior autoridade. Mas isso deveria implicar que não temos autoridade extrabíblica para determinar quais livros pertencem à Bíblia! Eis um argumento em círculo, autocontraditório! E os católicos? Possuem eles a mesma razão para conhecer quais livros pertencem à Bíblia, isto é, eles foram determinados pela Igreja Católica?

O nascimento da Igreja se deu no dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu [sobre os discípulos], como consta registrado no livro dos Atos (2,1-4), o qual não foi escrito nessa época [mas posteriormente]. Nós não sabemos ao certo quando cada livro do Novo Testamento foi escrito. Segundo os estudiosos, o primeiro livro (1Tessalonicenses) foi escrito, talvez, no ano 50 ou 51 d.C.; o primeiro Evangelho foi escrito depois do ano 70 d.C. Isto significa que a Igreja já existia há duas décadas quando o primeiro livro do Novo Testamento foi escrito; cerca de quatro décadas quando o primeiro Evangelho foi escrito; e, como veremos depois, antes de os judeus fecharem o cânon de suas próprias Escrituras [=o Antigo Testamento judaico]!

As palavras de Cristo primeiramente circularam de forma oral e só depois, uma parte foi colocada na forma escrita nos Evangelhos. Assim, pelo Evangelho segundo Mateus, sabemos que Cristo teve a intenção de dar aos seus Apóstolos autoridade sobre a Sua Igreja. Ele conferiu a Pedro (cf. Mateus 16,19) e, depois, aos demais Apóstolos (cf. Mateus 18,18), a autoridade para atar e desatar. Tudo o que eles atassem na terra seria atado no Céu e tudo o que eles desatassem na terra seria desatado no Céu. Em grego, “atado e desatado no Céu” encontra-se no modo (passivo) perfeito, enquanto que “atar e desatar na terra” está no modo (ativo) aorista. Ao contrário do inglês, o modo perfeito no grego indica a continuidade de uma ação passada completa; isto quer dizer que Pedro e os Apóstolos atarão ou desatarão aquilo que já foi atado ou desatado no Céu, por Deus obviamente – e não o inverso, como alguns poderiam pensar.

Os católicos creem que os Apóstolos transmitiram a mesma autoridade para os seus sucessores, os bispos; a isto, chamam de ‘sucessão apostólica’. Tanto as Igrejas Católica (no Ocidente) quanto a Ortodoxa (no Oriente) sustentam a sucessão apostólica. A sucessão apostólica pertence ao que é chamado de ‘Tradição’ (com ‘T’ maiúsculo); você não a encontrará na Bíblia. Mas nós sabemos que Cristo prometeu aos seus Apóstolos que estaria com eles até o fim dos tempos (cf. Mateus 28,20); que enviaria o Espírito Santo para estar com eles para sempre (João 14,16), para ensinar-lhes todas as coisas e relembrar-lhes tudo o que Ele havia dito a eles (João 14,26); e que as portas do Hades não prevaleceriam contra a sua Igreja (Mateus 16,18). O Novo Testamento não diz em parte alguma que estas divinas promessas seriam válidas apenas para os primeiros 300 anos [da Igreja], isto é, até o imperador romano Constantino, em 313 d.C., legalizar o Cristianismo; ou para os primeiros 15 séculos [da Igreja], ou seja, até a Reforma [Protestante]. Possuindo a mesma autoridade, o Papa e os bispos (em união com ele) possuem o poder para atar e desatar, e tudo o que eles atam ou desatam não nos vem a partir deles, mas já foi atado ou desatado no céu. Não surpreende então que Paulo tenha se referido à Igreja como a coluna e o fundamento da verdade (cf. 1Timóteo 3,15); e certamente ele não estava escrevendo sobre a igreja (ou igrejas) que somente viriam a existir no século XVI e posteriores. Esta é a razão pela qual os católicos creem que a Igreja com origem apostólica tem o poder para determinar quais livros pertencem à Bíblia. A Igreja não está acima da Bíblia, mas é guiada pelo Espírito Santo prometido pelo próprio Cristo.

Por que demoraria 16 séculos para [a Igreja] promulgar o cânon (=lista dos livros inspirados) da Bíblia? O mesmíssimo cânon foi declarado pelo Concílio Provincial de Hipona, no norte da África, em 393 d.C. e reafirmado pelos Concílios de Cartago, também no norte da África, em 397 e 419 d.C. Os cristãos dos três primeiros séculos ainda não tinham fechado o cânon, pois eles ainda não concordavam entre si sobre quais livros pertenceriam à Bíblia, quer do Antigo, quer do Novo Testamento. Os então denominados “livros disputados” do Antigo Testamento eram Ester e os livros deuterocanônicos; e, no Novo Testamento, eram Hebreus, Tiago, Judas, 2Pedro, 2João, 3João e Apocalipse. A mais antiga lista contendo os mesmos 27 livros que constam atualmente no Novo Testamento católico, ortodoxo-oriental e protestante é de 367 d.C.[7]. A lista dos livros do Antigo Testamento que concorda com a Bíblia católica é de 382 d.C.[8], enquanto que uma [lista pessoal] que concorda com o Antigo Testamento protestante é de 391 d.C.[9]. O Concílio de Trento, em 1546, foi o Concílio Ecumênico que explicitamente promulgou a canonicidade dos 73 livros da Bíblia Católica, embora a mesmíssima lista de livros do Antigo Testamento conste do Concílio Ecumênico de Basileia-Ferrara-Florença-Roma (cf. Sessão XI, de 04.02.1442). A Igreja Ortodoxa Oriental declarou o cânon da sua Bíblia no Sínodo de Jerusalém, em 1672. No caso dos protestantes, a Igreja Reformada, pelo artigo 4º da Confissão Belga, de 1561 e o capítulo 1 da Confissão de Fé de Westminster, em 1647, declarou a canonicidade dos 66 livros de sua Bíblia.

2. NÓS DEVERÍAMOS CONFIAR NOS JUDEUS PARA DETERMINAR QUAIS LIVROS PERTENCEM AO ANTIGO TESTAMENTO, JÁ QUE ELES MANIFESTAVAM OS ORÁCULOS DE DEUS (CF. ROMANOS 3,2)

Quando os judeus fecharam o cânon de suas Escrituras, isto é, o Antigo Testamento? Os protestantes e os cristãos do “apenas a Bíblia” deveriam afirmar que foi antes da vinda de Cristo, já que isto concordaria com a sua alegação baseada em Romanos 3,2. Infelizmente, tal afirmação não é apoiada nem pela Bíblia, nem por fontes judaicas confiáveis. Se o cânon da Escritura judaica tivesse sido fechado antes da vinda de Cristo, poderíamos esperar que tanto Ele quanto os seus Apóstolos citassem apenas a partir desse cânon fechado; mas esse não é o caso, como veremos posteriormente. Segundo a “Enciclopédia Judaica”, a terceira parte da Escritura judaica (‘Ketuvim’ ou ‘Os Escritos’) foi fechada no século II depois de Cristo[10]. O Eclesiástico (ou Sirácida) foi citado como Escritura pelo Talmude judaico[11], composto após o séc. II d.C.

E sobre o Concílio de Jâmnia (ou Javneh), que supostamente no ano 90 d.C. fechou o cânon da Escritura judaica? A hipótese do Concílio de Jâmnia foi criada com base na Misná judaica, que simplesmente discute o status canônico de Cântico dos Cânticos e Eclesiastes. Todas as fontes acima mencionadas indicam que o cânon judaico foi fechado após a crucificação de Cristo. Os cristãos não estão obrigados a seguir a decisão judaica obtida após a crucificação de Cristo, já que Ele nos disse, através da sua parábola dos vinhateiros arrendatários (cf. Mateus 21,33-41), que a vinha seria entregue a outros arrendatários (versículo 41).

Observe então que a existência de Escrituras ou até mesmo de toda a Escritura (2Timóteo 3,16) na época de Cristo e na Era Apostólica não implica automaticamente na existência de um cânon fechado. Daniel lê Jeremias como Escritura no ano 1 do reinado de Dario, o meda, antes dos profetas Ageu e Zacarias receberem e escreverem as palavras do Senhor no ano 2 do reinado de Dario.

3. O NOVO TESTAMENTO NUNCA CITA OS LIVROS APÓCRIFOS

Se ser citado pelo Novo Testamento é requisito para figurar no cânon, então [devemos observar que] o Novo Testamento também não cita Ester, Cântico dos Cânticos e Eclesiastes. E o Novo Testamento também faz citações externas ao Antigo Testamento, seja católico, seja protestante. [São] Jerônimo chegou a ver o manuscrito de uma obra apócrifa (atualmente perdida), atribuída a Jeremias, que possuía as exatas palavras citadas por Mateus 27,9[12]. O que Paulo escreve em 1Coríntios 2,9, precedido pela frase “está escrito”, não concorda exatamente com Isaías 64,4; segundo o “Ambrosiaster”[13], escrito por volta do século IV d.C., trata-se de uma citação do apocalipse apócrifo de Elias. Paulo escreveu, em 1Coríntios 10,4, sobre a rocha espiritual que seguia os israelitas durante o Êxodo; e cita também, em 2Timóteo 3,8 o nome de dois magos que se opuseram a Moisés; ambos os casos não constam do livro do Êxodo. Em 2Pedro 2,22, [a expressão de] Provérbios 26,11 é colocada em paralelo com um provérbio extrabíblico. Judas 1,9 cita a partir [do livro] da Ascensão de Moisés[14] e Judas 1,14-16 cita a partir de 1Enoque 1,9.

A resposta-padrão [que os protestantes dão] para as citações não-escriturísticas acima apontadas é que elas não são indicadas como Escritura, tal como a citação retirada do poeta cretense Epimênides, em Atos 17:28 e Tito 1,12. Porém, as citações feitas a partir de obras não-judaicas eram obviamente não-escriturísticas para os judeus (apesar de, como veremos posteriormente, a Palavra de Deus poder vir através de não-judeus); porém, 1Enoque é citado da mesma maneira que Mateus 15,7-9 cita Isaías 29,13 (a partir da LXX).

Também encontramos citações retiradas [de fontes] escriturísticas desconhecidas em João 7,38 e Tiago 4,5; em ambos os casos, as citações são precedidas pela frase “a Escritura diz”.

Conclusão: ser citado pelo Novo Testamento não é critério de canonicidade, do mesmo modo que não ser citado pelo Novo Testamento não é critério para a não-canonicidade.

4. NENHUM DOS LIVROS APÓCRIFOS RECLAMA PARA SI INSPIRAÇÃO

A maioria dos 66 livros da Bíblia protestante também não reclama para si inspiração. Quem insiste nisto deveria ser capaz de apresentar pelo menos 1 versículo de cada livro, que reclame explicitamente inspiração para si próprio.

Ester, sem os capítulos constantes da LXX, no Antigo Testamento católico ou ortodoxo-oriental, nem mesmo menciona Deus[15] e não é citado pelo Novo Testamento. Por outro lado, 1Enoque menciona Deus e é citado uma vez pelo Novo Testamento (Judas 4,16); no entanto, somente a Igreja Ortodoxa Etíope o considera como inspirado.

E Paulo declarou, em 1Coríntios 7,12, que o que ele escrevia ali não vinha de Cristo, mas dele mesmo; ainda assim, nós o consideramos inspirado.

5. OS LIVROS APÓCRIFOS FORAM ESCRITOS APÓS A MORTE DOS ÚLTIMOS PROFETAS DE ISRAEL

Segundo o historiador judeu [Flávio] Josefo, que viveu no século I d.C., os livros da Escritura judaica foram escritos entre Moisés e o reinado do rei persa Artaxerxes[16]. Sem apontar os títulos, Josefo contou 22 livros: 5 livros da Lei, 13 livros dos Profetas e 4 livros de hinos e condutas de vida. Os protestantes citam a declaração de Josefo e também aquela que se encontra em 1Macabeus 9,27 (“os profetas deixaram de aparecer entre os israelitas”), ambas retiradas de fontes exteriores à sua Bíblia, como prova da canonicidade de seus 39 livros do Antigo Testamento.

Os últimos profetas judeus foram Ageu, Zacarias e Malaquias, mas onde a Bíblia diz que as palavras de Deus eram dadas apenas pelos profetas? As palavras proferidas por Balaão (Números 22,7-10.18-24; 24,2-9) vieram de Deus, muito embora Balaão não fosse profeta e nem mesmo judeu. De modo semelhante, conforme 2Crônicas 35,22, Deus falou através de Neco, rei do Egito; e, em João 11,51, Caifás profetizou. É o próprio Cristo que nos deixa saber que a Lei e os Profetas foram profetizados até João Batista (Mateus 11,13), logo não houve [total] silêncio no período entre os últimos profetas e João Batista. Encontramos [inclusive] Cristo profetizado em Sabedoria 2,12-20.

6. CRISTO APROVOU OS LIVROS QUE PERTENCIAM À ESCRITURA JUDAICA (IGUAL AO ANTIGO TESTAMENTO PROTESTANTE) QUANDO DISSE, EM LUCAS 11:51, “DO SANGUE DE ABEL AO SANGUE DE ZACARIAS”

Já que encontramos Abel no livro do Gênesis (capítulo 4) e Zacarias no livro das Crônicas (2Crônicas 24,20-21), estes dois livros corresponderiam [exatamente] ao primeiro e ao último livro da Escritura judaica. Mas isto demonstra que o Antigo Testamento aprovado por Cristo era a Escritura judaica? Há 2 problemas para este argumento:

Primeiro: a ordem dos livros na Escritura judaica não é estático. Crônicas é o último livro da atual Escritura judaica, mas nem sempre foi assim. A Escritura judaica possui 3 partes: a Lei (5 livros), os Profetas (8 livros) e os Escritos (11 livros). A “Enciclopédia Judaica”[17] apresenta 8 ordens diferentes dos livros dos Escritos; em três delas, Crônicas vem como primeiro livro. Aqueles que confiam no testemunho de Josefo deveriam saber que Crônicas não pode ser o último livro porque os últimos cinco livros, conforme Josefo, são livros de hinos e conduta de vida.

Segundo: O Zacarias de Crônicas (que era sacerdote e não profeta), era filho de Jeoiada, embora o versículo paralelo de Mateus 23,55 identifique-o como filho de Baraquias. Muito provavelmente Cristo está se referindo ao profeta Zacarias, filho de Berequias (cf. Zacarias 1,1; Esdras 5,1), o qual, juntamente com Ageu e Malaquias, foram dos últimos profetas judeus.

7. OS LIVROS APÓCRIFOS NÃO PODEM SER INSPIRADOS PORQUE CONTÊM MUITOS ERROS E CONTRADIÇÕES EM RELAÇÃO AOS 66 LIVROS DA BÍBLIA PROTESTANTE

Infelizmente, o mesmo se aplica aos 66 livros da Bíblia protestante, embora, por razões óbvias, eles não chamem tais problemas como “erros e contradições”, mas como “dificuldades ou discrepâncias”. Geisler e Howe escreveram o “Grande Livro de Dificuldades Bíblicas”, publicado pela Baker Books em 1992, tratando dessas dificuldades, do Gênesis ao Apocalipse (de todos os seus 66 livros). Uma outra obra escrita por Haley, “As Alegadas Discrepâncias da Bíblia”, é um clássico (lançado pela primeira vez em 1874); suas mais de 400 páginas tratam de discrepâncias que ele agrupa em três [categorias]: doutrinárias, éticas e históricas. Estes [dois] livros foram escritos para oferecer solução para essas dificuldades e o número de páginas [escritas] nos diz que não são poucas [as discrepâncias].

Isto é compreensível, já que católicos e protestantes (além dos cristãos do “apenas a Bíblia”) creem na inerrância da Escritura. Os não-cristãos podem rejeitar a solução: uma vez que decidiram não aceitar a inspiração desses 66 livros, não lhes importa a quantidade de explicações; nunca ficarão satisfeitos. Do mesmo modo, os católicos estão conscientes das dificuldades existentes nos livros deuterocanônicos e também oferecem solução. Os protestantes e os cristãos do “apenas a Bíblia” podem não aceitar a solução, já que aqui se comportam como os não-cristãos; uma vez que decidiram previamente, sem qualquer apoio escriturístico, que a Bíblia compreende apenas 66 livros, não importa quanta explicação lhes seja dada; não ficarão satisfeitos.

Vamos examinar algumas dificuldades ou discrepâncias nos 66 livros da Escritura protestante (que também fazem parte da Bíblia católica) e a solução proposta, condensada das obras de Haley ou Geisler/Howe, ou de ambas, se for o caso:

– Em Samuel 24,1, Deus move Davi a ordenar a contagem do número de israelitas, mas no versículo paralelo de 1Crônicas 21,1 é dito que foi Satanás (o diabo) quem o moveu. A solução proposta por Geisler/Howe (pág. 177) é que Deus permitiu que Satanás incitasse Davi a contar os israelitas.

Salmo 5,4 e Jeremias 29,11 dizem que Deus não é fonte do mal, mas Isaías 45,7, Jeremias 18,11, Lamentações 3,38 e Amós 3,6 atribuem o mal a Deus. A palavra “mal” nesses versículos é traduzida a partir da mesma palavra hebraica. Segundo Haley (pág. 77), o vocábulo “mal” em Isaías 45,7, Jeremias 18,11, Lamentações 3,38 e Amós 3,6 significa o mal natural (como vulcão, guerra, praga, terremoto, fogo) e não o mal moral como em Salmos 5,4 e Jeremial 29,11.

– Êxodo 21,7-11 permite a um homem judeu vender sua filha como escrava; o proprietário não pode revendê-la para não-judeus; Êxodo 21,20-21 permite ao proprietário de escravos castigar o seu escravo, seja ele homem ou mulher, e só será punido se ele ou ela vier a morrer [em decorrência dos castigos]. O escravo (ou a escrava) será libertado se vier a perder o olho ou o dente (Êxodo 21,26-27). Contrariamente, Colossenses 4,1 diz que o proprietário deve tratá-los com justiça e equidade. Nem Haley nem Geisler/Howe mencionam esta dificuldade em seus livros, embora este último escreva uma página (págs. 509-510) sobre a condenação da escravidão usando versículos da Bíblia; por exemplo, eles escrevem que os servos devem ser tratados com respeito e [curiosamente] fazem referência a Êxodo 21,20.26 para suportar tal declaração!

– “Não matarás” (Êxodo 20,13) é o Mandamento de Deus; mas em 1Samuel 15,3, Ele manda Saul aniquilar toda Amaleque, inclusive mulheres e crianças. Em Salmos 137,9, o Salmista se alegra por aqueles que tomaram crianças (da filha de Babilônia) e as lançaram contra as rochas! Geisler/Howe (pág. 161) afirmam que os amalequitas eram pecadores e mereciam essa punição severa. Isto incluiria suas crianças porque mais tarde poderiam se levantar odiosamente contra o povo e o plano de Deus. Em acréscimo, estes [autores] escrevem que as crianças que morreram antes da idade da razão foram salvas. Para o Salmo 137, Geisler/Howe escrevem (pág. 243) que o Salmista não se rejubilava pelo lançamento das crianças contra as pedras, mas pela justiça retributiva de Deus, que retornava a crueldade sobre os babilônios, como justa punição por seus crimes [contra o povo de Israel].

– Em Marcos 2,26, Cristo chama Abiatar de sumo sacerdote quando Davi e seus homens comeram o pão da Presença; mas 1Samuel 21,1-6 diz que o sumo sacerdote nessa ocasião era Aimeleque, pai de Abiatar. A solução proposta por Haley (pág. 320) é que Abiatar estava agindo como substituto do seu pai. Segundo Geisler/Howe (pág. 370), a frase “nos dias de Abiatar” não implica necessariamente que ele fosse o sumo sacerdote na ocasião em que Davi comeu o pão; com efeito, teria ocorrido na época de Abiatar, mas não durante sua posse do cargo [de sumo sacerdote].

– Conforme Daniel 5,30, os babilônios foram derrotados por Dario, o meda, que reinou antes de Ciro (Daniel 6,28). Dario, o meda, é figura fictícia, inexistente na História; ele foi criado após Dario I, segundo sucessor de Ciro. A solução proposta por Geisler/Howe (pág. 295) é que Dario, o meda, era na verdade Gubaru, a quem Ciro nomeou como governador de toda a Babilônia.

– Ester manteve relação sexual extraconjugal com o rei Assuero – o que [popularmente] conhecemos por “uma rapidinha” – violando [o Mandamento de] Êxodo 20,14: “Não cometerás adultério”. Embora posteriormente o rei a tenha tornado rainha, o casamento entre judeus (sejam homens ou mulheres) e não-judeus (ou gentios) era proibido por Neemias 10,30 (muito embora Moisés, Boaz e alguns outros [judeus] tenham se casado com não-judeus). Geisler/Howe argumentam (pág. 220) que Ester não teve escolha porque ela foi levada para o palácio do rei, embora tenha insistido que não faria nada explicitamente imoral.

– Em João 8,14, Cristo disse: “Ainda que Eu desse testemunho de Mim mesmo, meu testemunho é verdadeiro”, no entanto, em João 5,31, Ele havia dito: “Se Eu testemunhasse a Mim mesmo, meu testemunho não seria verdadeiro”. A solução proposta por Geisler/Howe (pág. 410) é que tudo o que Jesus disse é realmente verdadeiro, mas oficialmente não seria considerado como verdadeiro se não fosse testemunhado por duas ou três testemunhas, conforme declarado em Deuteronômio 19,15.

– Após sua conversão em Damasco, Paulo escreveu que não iria para Jerusalém, mas para a Árabia; então retornou para Damasco e somente três anos depois foi para Jerusalém onde encontrou apenas Cefas (Pedro) e Tiago (cf. Gálatas 1,17-20); e, no versículo 20, ele diz que não mente. Mas Atos 9,23-27 indica que ele foi para Jerusalém, vindo de Damasco, onde Barnabé o levou para se encontrar com os Apóstolos e não apenas com Pedro e Tiago. Tanto Haley como Geisler/Howe omitem esta dificuldade em seus livros.

– Paulo escreveu que Abraão foi justificado pela fé (cf. Romanos 4,1-4), mas Tiago 2,21 diz que ele foi justificado pelas obras. Obviamente, este tem sido o [grande] problema protestante desde a Reforma, quando os Reformadores insistiram que a justificação advém em um único momento e apenas pela fé. Geisler/Howe (págs. 527-528) escrevem que Paulo e Tiago falam de justificações diferentes: Paulo escreve sobre a raiz da justificação e Tiago escreve sobre o fruto da justificação; a justificação de Paulo é a justificação perante Deus, enquanto que a justificação de Tiago é a justificação perante os homens. Os católicos, que creem que a justificação é um processo em constante andamento e não advém apenas pela fé, não enxergam contradição entre Paulo e Tiago: ambos falam da mesma justificação.

Vamos agora ver alguns problemas comumente apontados nos livros deuterocanônicos (ou apócrifos [para os protestante]) e suas soluções:

Problema histórico no livro de Judite, onde o rei da Babilônica Nabucodonosor é tido por rei da Assíria: existem duas soluções para esta dificuldade. A primeira considera Judite como uma novela teológica ou uma parábola ou alegoria que quer transmitir uma mensagem; declarando Nabucodonosor como rei da Assíria, o escritor compõe um só conquistador para ambos os reinos, do Norte (Israel) e do Sul (Judá). [Historicamente] o reino assírio conquistou o reino do Norte (Israel) em 722 a.C., enquanto que o novo império babilônio fez o mesmo, com relação ao reino do Sul, em 586 a.C. A segunda solução considera Judite como uma narrativa histórica, onde Nabucodonosor seria o nome alternativo de um rei assírio, tal como ocorre com Dario, o meda, em Daniel 5,30, que seria o general de Ciro, chamado Gobiru (que, aliás, não era meda).

– Problema ético no livro de Judite: ela mentiu para Holofernes acerca da sua verdadeira missão e, através da sua beleza, atraiu-o para a morte. O anjo Rafael, no livro de Tobias (5:12), também representou [falsamente] uma pessoa chamada Azarias: Em 1Samuel 16,1, Deus pediu para Samuel ir a Belém para ungir o próximo rei de Israel, mas ele temia que Saul o matasse. Certamente, Deus era capaz de proteger Samuel de Saul, mas Ele manda dizer que, se perguntado, havia ido lá para oferecer o sacrifício, ou seja, escondendo sua verdadeira missão. Do mesmo modo, Judite oculta de Holofernes sua verdadeira missão; e embora ela, por sua beleza, o atraia para a morte, ao contrário de Ester, não teve relação sexual [ilícita] com ele. No que diz respeito ao [anjo] Rafael representar um ser humano, conforme Hebreus 13,2, os homens, demostrando hospitalidade aos estrangeiros, podem receber anjos [cuja identidade] desconhecem (ou seja, os anjos não revelarão sua identidade; e foi exatamente isto o que o anjo Rafael fez).

– A Igreja Católica declarou os livros apócrifos como inspirados porque eles apoiam ensinamentos católicos antibíblicos, como a oração pelos mortos (2Macabeus 12,38-46) e a salvação pelas obras, mediante esmolas para libertar [as almas dos] mortos e purgar-lhes os pecados (Tobias 12,9): a oração pelos mortos está intimamente ligada ao Purgatório. Os santos no céu não precisam mais das orações dos santos na terra (que são encorajados a orar uns pelos outros) e não há sentido em orar por aqueles que estão no inferno. Mas existe um terceiro local que os católicos chamam de Purgatório, onde aqueles que morreram com pecados leves são limpos dos seus pecados. A doutrina católica sobre o Purgatório é bem difícil de ser aceita pelos protestantes e cristãos do “apenas a Bíblia”. Mas ela não se apoia apenas em 2Macabeus 12,38-46; a Bíblia se refere a Deus como “fogo purificador” (Malaquias 3,2), que purifica alguns como alguém que purifica a prata (Zacarias 13,8-9). E o que está escrito em Tobias 12,9 se relaciona com as recompensas de nossas boas obras. Ninguém pode negar que Deus recompensa nossas boas obras (Provérbios 13,13; Salmos 18,20; 2João 1,8; Apocalipse 22,12 etc.) e Ele nos recompensa inclusive com a vida eterna (João 5,28-29; Romanos 2,6-7). Os católicos compreendem estas recompensas como dons de Deus; elas NÃO são algo que mereçamos (tal como merecemos os nossos salários); também não há que se falar em salvação pelas obras no Catolicismo. Com efeito, Tobias 12,9 fala acerca das recompensas de nossas boas obras tal como 1Pedro 4,8 diz que a caridade cobre uma multidão de pecados; da mesma formas que Tiago 5,20 diz que todo aquele que converte um pecador de seu erro salvará sua alma e cobrirá uma multidão de pecados. Não soa semelhante a Tobias 12,9 se substituímos “recompensa” por “converter um pecador de seu erro”? Nenhum protestante dirá que Tiago 5,20 contradiz outros versículos que dizem que Cristo é o único Salvador, como Atos 4,12.

– Tobias encoraja a prática supersticiosa em 6,16-17, onde a fumaça produzida da queima de coração e fígado de peixe é usada para assustar o demônio: obviamente, os protestantes e cristãos do “apenas a Bíblia” têm problemas com o sistema de sacramentais católicos. Eis o motivo porque rejeitam as práticas católicas que, para eles, são supersticiosas, como essa declarada em Tobias 6,16-17, a veneração de relíquias, o uso de escapulários e até mesmo os sete Sacramentos. O sistema de sacramentais é a crença de que Deus pode derramar Sua graça e auxílio através de símbolos visíveis ou materiais. Observe que Deus pode derramar Sua graça e auxílio diretamente (Ele não está limitado a fazer uso de símbolos materiais ou visíveis), mas em certos casos Ele prefere fazê-lo e existem muitos exemplos disso na Bíblia, não somente em Tobias 6,16-17: Deus pede para Moisés fazer uma serpente de bronze e colocá-la num poste para que todo aquele que a vir, após ter sido picado por uma serpente real, possa viver [Números 21,8]; o profeta Eliseu pede para Naamã lavar-se no rio Jordão para curar sua lepra (2Reis 5,10-14); os ossos do profeta Eliseu foram capazes de trazer de novo à vida um homem que falecera (2Reis 13,21); Cristo podia curar cegos diretamente (Marcos 10,52; Lucas 18,42-43), mas em João 9,6 Ele preferiu usar terra misturada com a sua saliva; da mesma forma, muitos foram curados ao tocar a franja ou a bainha[18] das Suas vestes (Mateus 9,20; 14,36); lenços e aventais, após tocarem o corpo do apóstolo Paulo, eram capazes de curar enfermos e afastar espíritos maus (Atos 19:12).

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NOTAS:
[1] É o acrônimo de
Torah (a Lei; ou, em grego, Pentateuco), Nevim (os Profetas) e Ketuvim (os Escritos; ou, em grego, Hagiógrafos ou Escritos Sagrados).
[2] LXX ou Septuaginta é a coleção dos livros do Antigo Testamento escritos em grego. A maioria das citações do Novo Testamento são retiradas da LXX. O Antigo Testamento católico e protestante são traduzidos a partir do Texto Massorético (em hebraico), mas os livros são agrupados segundo a ordem da LXX.
[3] Conforme listagem na Bíblia de Estudo Ortodoxa; 4Macabeus e a Prece de Manassés constam do Apêndice, segundo a “Orthodox Wiki”.
[4] Cf. http://ethiopianorthodox.org/english/canonical/books.html .
[5] Livros “deuterocanônicos” e “protocanônicos”, significando “segundo” e “primeiro” cânons, respectivamente, são termos cunhados por Sisto de Siena (1520-1569).
[6] “Apócrifo” significa “oculto”; desde o tempo de S. Jerônimo (+420 d.C.) é normalmente usado para rotular os livros que podem ser encontrados na LXX mas não na Bíblia hebraica.
[7] S. Atanásio, Carta Festal 39.
[8] Papa Dâmaso (+384 d.C.): Decreto Gelasiano.
[9] S. Jerônimo, Prefácios dos Livros do Antigo Testamento da versão Vulgata. Jerônimo incluiu na Vulgata (e fez referência a eles) como livros apócrifos.
[10] Por outro lado, há boa evidência demonstrando que a coleção do Ketuvim, como um todo, assim como certos livros dentro dela, não era aceita até ser finalmente fechada no séc. II d.C.
[11] Conforme a nota acima, a prática de chamar toda a Escritura por “a Lei e os Profetas” pressupõe um lapso considerável de tempo entre a canonização da segunda e terceira partes da Bíblia. O fato de a última divisão não possuiu um nome certo aponta nessa mesma direção. E mesmo a designação finalmente adotada, “Ketuvim”, é indeterminada, visto que é empregada no hebraico rabínico em dois sentidos: para as Escrituras em geral e para trechos de textos em particular.
[12] “Encyclopaedia Judaica”, Volume 4 pág. 824.
[13] [Novamente] Raba disse a Rabbah ben Mari: “Poderia daí provir o ditado popular: ‘Um ramo ruim normalmente fará seu caminho para um bosque de árvores estéreis’?” Ele respondeu: “Esta matéria foi escrita no Pentateuco, repetida nos Profetas, mencionada uma terceira vez nos Hagiógrafos, e também constante na Mishná e ensinada em um Baraita. Foi declarado no Pentateuco, conforme está escrito, que ‘então Esaú veio até Ismael’ [Gênesis 28,9]; repetido nos Profetas, conforme está escrito: ‘E ali homens ociosos se juntaram a Jefté e saíram com ele’ [Juízes 11,3]; e mencionado uma terceira vez nos Hagiógrafos, conforme está escrito: ‘Cada ave habita perto de sua espécie e [cada] homem perto de sua igual’ [Eclesiástico 13,15]”.
[14] Talmude Babilônio, Seder Nazikin, Baba Kamma 92b
.
[15] Traduzido por E.W. Kirzner, Soncino Press (1961).
[16] “E R Aha b. Jacob disse: ‘Existe ainda um outro céu acima das cabeças das criaturas vivas, pois está escrito: E sobre as cabeças das criaturas vivas existiu algo com a semelhança de um firmamento, com a cor do terrível gelo, estendido acima de suas cabeças’ [Ezequiel 1,22]. Assim, quanto mais você tiver permissão para falar, daí em diante não terá permissão para falar, pois assim está escrito no livro de Ben Sirac: ‘Não procures as coisas que são difíceis para ti, nem as coisas que estão escondidas de ti. Penses então nas coisas que te foram permitidas e não tenhas contato com as coisas que te são ocultas’ [Eclesiástico 3,21-22]”.
[17] Talmude Babilônio, Seder Mo’ed, Hagigah 13a.
[18] Traduzido por Israel Abrahams, Soncino Press (1961).
[19] S. Jerônimo, Comentário sobre Mateus 4,27,10, in “Ancient Christian Commentary of Scripture, New Testament”, Vol. 1b, Inter Varsity Press, 2002, pág. 275.
[20] Ambrosiaster, Comentário sobre 1Coríntios, in “Ancient Christian Commentary of Scripture, New Testament, Vol. 7”, Inter Varsity Press, 2002, pág. 23. “Ambrosiaster” (=pseudo-Ambrósio) foi o nome dado pelo teólogo Erasmo (1466-1536) para o autor anônimo do séc. IV que escreveu um comentário de todas as cartas de S. Paulo.

[21] Cf. Orígenes (+251 d.C.), Dos Princípios 3,2. Nenhum manuscrito da Ascensão de Moisés sobreviveu até os nossos dias.
[22] Cf. Geisler/Howe, o nome de Deus é encontrado no livro de Ester, na forma acróstica, em quatros pontos cruciais da história (Ester 1,20; 5,4; 5,13; 7,7), duas vezes para o futuro e duas vezes para o passado (Geisler/Howe, “The Big Book of Bible Difficulties”, pág. 219).
[23] [Flávio] Josefo, Contra Apião 1,8,38-40.
[24] “Encyclopaedia Judaica”, vol. 4, págs. 829-830.
[25] Em grego, “kraspedon”; refere-se às borlas, apêndices anexados aos mantos para que os judeus pudessem se lembrar da Lei.

Questionando os Protestantes – III

A Bíblia ensina a doutrina da Sola Scriptura dos Cristãos Reformados? Ou seja, seria a Bíblia a única fonte de autoridade para o cristão?

Não. A Bíblia ensina que as Escrituras têm autoridade, mas não é a única autoridade.

Quando Jesus foi tentado por Satanás no deserto, respondeu a Satanás: “Está escrito…”, uma citação das Escrituras. Mas, também vemos Jesus participando do Hanukkah (Festa da Dedicação – cf. Jo 10,22) que está registrado em Macabeus, livro ausente do cânon protestante. Também vemos Jesus celebrando a Páscoa com uma taça de vinho (a Última Ceia), que era da tradição judaica e não das Escrituras. Por segurança, São Paulo escreveu a Timóteo:

“Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra” (2Tim 3,16-17).

Mas São Paulo também escreveu:

“Intimamo-vos, irmãos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que eviteis a convivência de todo irmão que leve vida ociosa e contrária à tradição que de nós tendes recebido” (2Tess 3,6); e

“O que aprendestes, recebestes, ouvistes e observastes em mim, isto praticai, e o Deus da paz estará convosco” (Fil 4,9).

A doutrina dos Protestantes da Sola Scriptura é-lhes necessária porque rejeitaram a autoridade existente na Igreja histórica, ordenada por Deus. A Igreja histórica sempre reivindicou que sua autoridade veio da sucessão apostólica e a verdadeira autoridade deu Jesus aos apóstolos, e mais especificadamente, a São Pedro:

“E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus; tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,18-19).

Já que os Protestantes rejeitam a autoridade da Igreja histórica, apelam para o que consideram que seja a mais alta autoridade: a Palavra de Deus. Isto pede uma pergunta, obviamente: Jesus fundou uma Igreja ou um livro? Jesus mesmo não foi, pessoalmente, autor de nenhum livro da Bíblia. As palavras atribuídas a Jesus foram escritas e testemunhadas pelos Apóstolos. As próprias Escrituras têm sua autoridade fundamentadas na autoridade para ensinar da Igreja. Sem a Igreja, não haveria a coleção de livros chamados Novo Testamento. Além disso, a doutrina da Sola Scriptura teria sido impossível sem a invenção da imprensa. Até a invenção da imprensa, a Bíblia não estava disponível a todo cristão. Agora, que qualquer um é livre para interpretar as Escrituras para si mesmo, o que acontece? Embora haja dezenas de milhares de denominações, haverá sempre mais e mais interpretações das Escrituras.

O fato verdadeiro é que Jesus fundou uma única Igreja e deu-lhe a autoridade para ensinar e emitir regras. Foi justamente por não atentar à essa verdade que os três principais Reformadores (Lutero, Calvino e Zwínglio) discordavam do sentido e efeito dos Sacramentos, da Ceia do Senhor e do Batismo, cada um ensinando uma doutrina diversa. Isto nos mostra que, em vez da autoridade ser a Sola Scriptura, é “Somente a Interpretação” a real autoridade nas igrejas que proclamam a Bíblia como sua única autoridade.

A menos que você tenha a interpretação correta, de que vale a Bíblia?

Fonte: Site “Glory to Jesus Christ!”. Tradução: José Fernandes Vidal.

Anticatolicismo é o novo passatempo nos EUA, diz arcebispo de Nova York

D. Timothy Dolan fala sobre a censura que sofreu do New York Times

NOVA YORK, terça-feira, 3 de novembro de 2009 (ZENIT.org).- “The Gospel in the Digital Age” (O Evangelho na era digital) é o nome do novo blog do arcebispo de Nova York, um instrumento comunicativo que lhe dá a voz que o New York Times negou.

Entre o dia 10 de outubro e 2 de novembro, Dom Timothy M. Dolan publicou dez posts, mas um deles, com o título “Anticatolicismo“, causou grande impacto, pois reproduz um artigo cuja publicação foi rejeitada pelo jornal mais famoso da cidade.

O arcebispo considera, em seu artigo, que o anticatolicismo converteu-se em um novo “passatempo nacional”, algo que foi confirmado por professores e acadêmicos, como Philip Jenkins, que o define como “o último preconceito aceitável”.

O artigo do arcebispo dá exemplos deste “anticatolicismo” presente no New York Times. Por exemplo, no dia 14 de outubro, o jornal denunciava 40 casos de abusos sexuais de crianças em uma pequena comunidade ortodoxa judaica do Brooklyn no último ano.

Segundo o prelado, a atitude do jornal diante desse caso não nada a ver com a que no passado manteve perante a Igreja Católica, quando houve casos de abusos de sacerdotes. O prelado reconhece que não tem a intenção nem o direito de criticar a comunidade judaica, mas denuncia “este tipo de indignação seletiva”.

Outro caso apareceu no jornal nova-iorquino dia 16 de outubro, quando publicou uma história em primeira página, como todo um desenvolvimento interno (dando mais espaço que à guerra no Afeganistão ou ao genocídio no Sudão) ao triste caso de um sacerdote franciscano que há 25 anos manteve um relacionamento com uma mulher, de que nasceu um filho.

“Nenhum clérigo de outra religião diferente da católica jamais mereceu tanta atenção”, reconhece.

No dia 21 de outubro, assinala Dom Dolan, o NYT dedicou sua manchete principal à decisão da Santa Sé de dar boas-vindas aos anglicanos que pediram a união com Roma.

O jornal atacou duramente a decisão como proselitista em momentos difíceis para o anglicanismo, apesar do cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, ter enfatizado que “não estamos pescando no lago anglicano”.

Por último, o prelado menciona o exemplo “mais explosivo”, um artigo de opinião de Maureen Dowd, publicado por esse jornal no domingo 25 de outubro, em que se fazem acusações que nenhum editor permitiria se fosse contra expoentes islâmicos, judeus ou afroamericanos.

A colunista lança todo tipo de acusações contra a Igreja Católica, que vão desde a Inquisição até o Holocausto, desde os preservativos até a obsessão por sexo e a pederastia de sacerdotes ou a opressão de mulheres, sem se esquecer dos sapatos de Bento XVI ou do fato de que, quando jovem, tenha sido recrutado à força (igualmente a todos os conterrâneos compatriotas) no Exército alemão.

E tudo isso por quê?, questiona o arcebispo. Porque a autora, como reconhece em seu artigo, não está contente com a maneira como está-se realizando a atual visita apostólica de representantes vaticanos às religiosas dos Estados Unidos.

Um “preconceito” assim, explica, não tem justificativa em “uma grande publicação de hoje”.

Após reconhecer que estes casos, “infelizmente”, não se limitam ao New York Times, Dom Dolan assegura que “a Igreja não está acima da crítica”.

“Nós, católicos, já somos muito bons para criticá-la. Isso o aceitamos e o esperamos. A única coisa que pedimos é que esta crítica seja justa, racional e adequada. É o que se espera para qualquer pessoa. A suspeita e os preconceitos contra a Igreja converteram-se no passatempo nacional que deveria ser ‘suspenso pelo mal tempo’”, concluiu.

Em outros posts de seu blog, o arcebispo enfrenta questões da vida diária, social e litúrgica, desde questões raciais e caritativas, até a defesa da vida humana ameaçada pelo aborto ou pela guerra.

Na internet: http://www.archny.org/news-events/columns-and-blogs/

Carta a um fundamentalista

Por Steve Ray
Tradução: Carlos Martins Nabeto
Fonte: Veritatis Splendor

Jesus foi judeu. Este fato escapa de alguns leitores ocasionais do Novo Testamento. No entanto, é crucial para entender Jesus e o Livro que foi escrito sobre Ele: a Bíblia. Infelizmente, estamos muito distantes do tempo da antiga cultura e vida de Israel; e, conseqüentemente, de Jesus, o Messias judeu.

Permita-me fazer algumas perguntas. Você nasceu e foi criado em Israel? Você estudou a Torah com os rabinos desde a infância? Você atravessou as colinas pedregosas e os caminhos poeirentos para celebrar as festas de guarda em Jerusalém? Você fala hebraico, aramaico e grego? Não encontrei muitos em minha paróquia católica que cumprem estes requisitos. Sem este mínimo de informação estaremos em desvantagem quando estudarmos a Palavra de Deus segundo se encontra na Bíblia.

Quando abrimos as páginas da Bíblia em nosso idioma, nos encontramos diante de um livro judaico! As cenas se desenvolvem ao redor de Israel e a adoração de Javé. Com apenas uma única exceção, os quarenta e tantos escritores da Bíblia foram judeus; e a exceção foi muito provavelmente um prosélito judeu (sabe quem é o único autor não-judeu da Bíblia? Darei algumas pistas: era médico, um dos colaboradores de São Paulo e escreveu a primeira História da Igreja).

A questão é: Como podemos entender a Bíblia e os ensinamentos que giram em torno de Nosso Senhor Jesus e a salvação sem compreender seu povo, sua cultura e sua identidade judaica?

David H. Stern, um judeu-messiânico, escreve: “A morte substituitória do Messias tem suas raízes no sistema sacrificial judaico; a Ceia do Senhor tem suas raízes na Páscoa tradicional judaica; o batismo é uma prática judaica; de fato, em sua totalidade o Novo Testamento encontra-se construído sobre a Bíblia hebraica com suas profecias e sua promessa de uma Nova Aliança. De tal maneira que o Novo Testamento sem o Antigo é tão impossível quanto o segundo andar de uma casa sem o seu primeiro andar. Ainda mais: muito do que está escrito no Novo Testamento é incompreensível quando separado do Judaísmo” (“Restoring the Jewishness of the Gospel”. Jerusalem: Jewish New Testament Publications, 1998, p.62).

Ainda que um cético ignorasse a importância dos judeus no plano de Deus para a salvação, o que seria ridículo, isso não mudaria o fato de que a Bíblia é judaica e que o Cristianismo brota de raízes puramente judaicas. O estudo da Bíblia se vivifica quando a brisa fresca do entendimento do judaico sopra sobre as suas páginas.

Quando se lê um bom livro, é difícil beneficiar-se de sua leitura se não nos submergimos no ambiente e no espírito do “relato”. Enquanto lêem “E o vento levou…”, os leitores tiram proveito de sua imersão na história, adentrando na cultura e ambiente que rodeia os protagonistas. Ninguém começa a ler o romance a partir do meio porque, se fizer isto, ficará privado da base assentada pelo início do relato, tornando impossível a apreciação do cenário, da trama, do tom e das personagens. O mesmo ocorre quando o Novo Testamento é lido com a falta de familiaridade dos primeiros “capítulos” da história judaica de Deus, que começa vários milênios antes, nos pactos e na vida do Antigo Testamento.

Tomemos um exemplo que é muito caro ao coração dos católicos. São Mateus registra uma profunda troca de palavras entre Jesus e Simão, o pescador. Jesus muda o nome deste discípulo de Simão para “Pedra”, o que na tradição judaica significa uma mudança de situação. Para nós, isto não significa muito porque somos ocidentais a mais de dois milênios de distância e não entendemos a importância que os semitas dão ao nome próprio. Entretanto, para o reduzido grupo de discípulos de Jesus, todos descendentes de Abraão, a mudança de nome tem um sentido profundo e comovedor. O próprio Abraão recebera uma mudança de nome da parte de Deus; tal mudança correspondia à ratificação da Antiga Aliança. O nome Abrão (que significa “pai”) foi alterado para Abraão (“pai das nações”), significando uma nova condição ou situação diante de Deus.

A mudança do nome de Simão é significativa. Porém, ainda mais importante é aquilo que foi mudado. Um judeu perceberia imediatamente o que a maioria dos leitores [ocidentais] não consegue notar. O nome “Pedro” é a versão portuguesa da palavra grega que significa “pedra”. Jesus falava aramaico e a palavra empregada para atribuir o novo nome a Simão foi a palavra aramaica “kefa”, que também significa “pedra”. É por isso que Simão é chamado de “Cefas” em certas passagens do Novo Testamento (p.ex. João 1,42; 1Coríntios 15,5; Gálatas 1,18). Ninguém fôra chamado “pedra” anteriormente, a não ser Deus (e Abraão). Abraão é referido como a pedra da qual os judeus saíram (Isaías 51,1). No entanto, Deus é o único a ser chamado “pedra”. Pedro agora compartilha este nome. O que pensaria um judeu ao ver que é outorgado semelhante nome a um simples homem?

Na mesma passagem encontramos outro exemplo surpreendente da necessidade de se conhecer o espírito judaico da Bíblia. Encontra-se na frase de Mateus 16,19, que menciona as “chaves do Reino”. Em parte, devido à falta de conhecimento da cultura judaica, esta passagem é entendida freqüentemente da forma incompleta, reduzindo-se o conceito das “chaves do Reino” simplesmente à pregação, por parte de Pedro, durante o Pentecostes (outra palavra desconhecida fora da religião judaica), “abrindo com as chaves as portas dos céus”. Muitos protestantes cometem este erro ao tentar compreender esta passagem sem contar com o benefício de um “antecedente judaico”. O que representavam as “chaves” para os judeus que realmente ouviram a Palavra de Deus? Qual interpretação daria um judeu da imagem das chaves que o Rei Jesus entregou a Pedro? Os fariseus memorizavam grandes partes do Antigo Testamento, se é que não memorizavam todo o “Tanakh”. O judeu de conhecimento médio conhecia profundamente as Escrituras. Quando Jesus disse a Pedro que ele receberia as “chaves do Reino dos céus”, os judeus imediatamente recordariam Isaías 22 e o despacho monárquico do Mordomo Real que administrava a casa do Rei.

Leia você mesmo a Isaías 22 e pense no cargo do Mordomo Real “da casa” do reino de Davi. Para aqueles judeus que creriam logo da primeira vez em Yeshua, o Messias que logo se sentaria no Trono do Pai Davi e receberia um reino eterno (Daniel 7,13-14; Lucas 1,26-33), estas eram palavras de grande profundidade. Quando fosse entronizado o novo Rei, os súditos judeus não esperariam que o Rei designasse seu Administrador Real? Aleluia! A Simão foi dado [por Jesus] o nome de Pedra, o nome israelita que implicava o poder de Deus, e a ele são confiadas também as chaves do Mordomo Real, para governar o império do Rei Jesus. Ah! Os Judeus compreenderam! E o que podemos dizer dos homens e mulheres do século XX/XXI? Isto não deveria nos dissuadir de ler a Bíblia; pelo contrário, nos deveria estimular a melhorar o nosso conhecimento das Escrituras, seus antecedentes e o mundo do povo judeu.

A Igreja cresce a partir da raiz judaica; a Igreja e as Escrituras são judaicas. Que o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó nos ilumine e nos faça amar a Palavra de Deus tal como está nas Escrituras e na Sagrada Tradição da Igreja.

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Observações:
[1] Durante o holocausto nazista, para demonstrar sua solidariedade com os judeus, o Papa Pio XII relacionou a fé católica com a fé de “nosso Pai” e em um discurso declarou enfaticamente: “Espiritualmente somos semitas”. A expressão do Papa Pio XII de que “todos nós somos semitas em espírito” tem conotações muito mais profundas do que alguém normalmente possa pensar. Repito: tudo o que existe nas fundamentais, permanentes e constitutivas instituições da Igreja é de origem judaica. Assim como o “Apóstolo” cristão provém diretamente do judaico “Shaliah”, o “Bispo” cristão é herdeiro do “Meqaber” de Qumran e do sumo-sacerdote de Jerusalém. O “Presbítero” cristão se origina do “Presbítero” (Ancião) judaico. O “Diácono” cristão, no “Levita” e “Hyperetes” das sinagogas. Até mesmo o “Leigo” cristão tem fundamento no “sacerdócio” aarônico (Louis Bouyer, The Church of God. Electronic Media: Welcome to the Catholic Church, produzido por Harmony Media, Inc., 1996).
[2] “Porque eu mesmo poderia desejar ser anátema de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne; Que são israelitas, dos quais é a adoção de filhos, e a glória, e as alianças, e a lei, e o culto, e as promessas; Dos quais são os pais, e dos quais é Cristo segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém” (Romanos 9,3-5).
[3] “O Novo Testamento tem que ser lido à luz do Antigo [Testamento]. A catequese dos primeiros cristãos empregava de forma permanente o Antigo Testamento. Como expressa um antigo dito, ‘o Novo Testamento jaz oculto no Antigo Testamento e este se revela no Novo'” (Catecismo da Igreja Católica §129).

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Bibliografia:
1. Jewish New Testament Commentary, David H. Stern. Clarksville, Maryland: Jewish New Testament Publ. 1992.
2. The IVP Bible Background Commentary: New Testament, Craig Keener. Downer’s Grove, Illinois, InterVarsity Press, 1993.
3. Christianity is Jewish, Edith Schaeffer. Wheaton, Illinois: Tyndale House, Publ. 1981.
4. Ancient Israel: It’s Life and Institutions, Fr. Roland De Vaux. Grand Rapids, Michigan, William B. Eerdmans Publishing Co.).
5. Daily Life in the Times of Jesus, Henri Daniel-Rops. New York: Hawthorn Books, 1962.
6. Commentary on the New Testament from the Talmud and Hebraica, em quatro volumes, John Lightfoot. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publ. 1995.

Atualidade de São Paulo em um mundo multirreligioso, segundo Papa

Primeira catequese do novo ciclo sobre o apóstolo dos gentios

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 2 de julho de 2008 (ZENIT.org).- Em um mundo multicultural e multirreligioso, São Paulo tem uma mensagem particularmente atual, considera Bento XVI.

O pontífice apresentou nesta quarta-feira o exemplo de apóstolo dos povos, em particular sua capacidade para assimilar os grandes valores filosóficos de sua época e de harmonizá-los sem trair no mínimo a sua fé em Jesus Cristo.

Deste modo, começou um novo ciclo de catequeses –em seu encontro semanal com os fiéis– dedicado a Paulo de Tarso, por ocasião do Ano Paulino (de 28 de junho de 2008 a 29 de junho de 2009), que ele mesmo convocou para celebrar os dois mil anos de nascimento do apóstolo.

Sua primeira intervenção, celebrada na Sala Paulo VI do Vaticano, com a participação de quase dez mil peregrinos, se concentrou em apresentar uma análise do ambiente na qual o santo viveu, pois – como assinalou – «o contexto sócio-cultural de hoje não é muito diferente do de então».

O bispo de Roma apresentou São Paulo como «homem de três culturas», «levando em conta sua origem judaica, seu idioma grego e sua prerrogativa de “civis romanus”, como testemunha também o nome de origem latina».

«A visão universalista típica da personalidade de São Paulo, ao menos do Paulo cristão que surgiu após a queda no caminho de Damasco, deve certamente seu impulso básico à fé em Jesus Cristo, enquanto a figura do Ressuscitado supera todo particularismo», reconheceu o pontífice.

De fato, «para o apóstolo, “já não há judeu nem grego; nem escravo nem livre; nem homem nem mulher, já que todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas3, 28). No entanto, a situação histórico-cultural de seu tempo e ambiente também influíram em suas opções e compromisso».

Em particular, o Papa mencionou como Paulo acolheu os valores positivos da filosofia estóica, que ainda que de maneira marginal, influiu no cristianismo das origens.

«Tudo o que há de verdadeiro, de nobre, de justo, de puro, de amável, de honrável, tudo o que for virtude e coisa digna de elogio, tudo isso levai-o em conta», diz o apóstolo em Filipenses (4, 8).

Um filósofo como Sêneca, superando todo ritualismo exterior, ensinava que «Deus está perto de ti, está contigo, está dentro de ti» (Cartas a Lucilio, 41, 1), recordou Bento XVI.

Do mesmo modo, quando Paulo se dirige a um auditório de filósofos epicuristas e estóicos no Areópago de Atenas, diz textualmente que «Deus… não habita em santuários fabricados por mãos humanas…, pois nele vivemos, nos movemos e existimos» (Atos dos Apóstolos 17, 24.28).

«Deste modo, ele se faz certamente eco da fé judaica em um Deus que não pode ser representado em termos antropomórficos, mas se põe também em uma longitude de onda religiosa que seus ouvintes conheciam bem», declarou o Papa.

Após seu olhar sobre o ambiente cultural do século I da era cristã, o Papa concluiu constatando que «não é possível compreender adequadamente São Paulo sem situá-lo no contexto tanto judeu como pagão de seu tempo».

«Mas tudo isso é igualmente válido para o cristianismo em geral, do qual o apóstolo Paulo é um paradigma de primeiro plano, de quem todos temos ainda tanto que aprender e este é o objetivo do Ano Paulino: aprender de São Paulo a fé, aprender dele quem é Cristo, aprender, em definitivo, o caminho para uma vida reta», concluiu.

Na tarde desta quarta-feira, o Papa se trasladou à residência pontifícia de Castel Gandolfo, a 30 quilômetros de Roma.

A partir desta semana, como é já habitual, o Santo Padre dirigirá a oração do Angelus dos próximos domingos no pátio interno do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo.

Bento XVI viajará de 12 a 21 de julho a Sydney, na Austrália, para presidir a Jornada Mundial da Juventude.

O Celibato de Jesus

O conceito teológico de um clero celibatário é baseado na crença da Igreja de que o modelo de celibato é o próprio Cristo.

Alguns têm argumentado que o celibato voluntário era desconhecido entre os homens judeus do tempo de Jesus. Embora pudesse ser pouco comum, não era de todo desconhecido. Não será provável que João Baptista tenha sido casado, e provas quase contemporâneas indicam que pelo menos alguns membros da comunidade Judaica dos Essénios eram celibatários.

Outra prova indirecta do estado celibatário de Jesus são as suas próprias palavras acerca dos que se mantém célibes. Depois de rejeitar o divórcio tal com era aceite na Lei de Moisés, os seus discípulos dizem-lhe que “será melhor não casar” (Mt.19:10). Jesus fala então daqueles incapazes de casar “porque nasceram assim do ventre de sua mãe” de outros “a quem os homens fizeram tais” e ainda daqueles que “renunciaram ao casamento por causa do reino dos céus. Quem puder compreender isto, compreenda”( Mt.19:12).

São Paulo, que escreve aos Coríntios, “Imitem-me, como eu imito Cristo”( 1 Cor.11:1); e também escreve, “Digo isto aos solteiros e às viúvas: é bom ficarem como estão, tal como eu, mas se não conseguirem controlar-se deverão casar-se, pois é melhor casarem-se do que abrasarem-se”( 1 Cor7:8-9).

Este chamamento ao celibato não diminui a importância do casamento. O Matrimónio, tal como a Ordem, é um sacramento, um dos sete sinais indeléveis através dos quais Cristo manifesta a sua presença permanente na Sua Igreja. No casamento, a relação espiritual e física entre marido e mulher torna-se um símbolo sagrado do amor de Cristo pela Igreja. (Efésios 5:25-33).

Fonte: Jesus Decoded

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