Os cristãos não devem se deixar enganar diante de «O Código Da Vinci»

Entrevista com Dom Odilo Pedro Scherer, bispo auxiliar de São Paulo e secretário-geral da CNBB

BRASÍLIA, segunda-feira, 29 de maio de 2006 (ZENIT.org).- «Podemos dizer que ?O Código Da Vinci? é um escrito apócrifo que, 2000 anos depois de Jesus, escreve uma história fantasiada sobre Jesus e o início da Igreja, em total contraste com os fatos históricos», afirma o secretário-geral da Conferência episcopal brasileira.

Segundo Dom Odilo Pedro Scherer, a «pregação dos apóstolos, no Novo Testamento, é para nós a única referência de fé sobre Jesus Cristo. Ou será que uma história inventada pela fantasia, 2000 anos depois dos fatos, merece mais crédito?»

Nesta entrevista à assessoria de imprensa da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), difundida esta segunda-feira, o secretário-geral do organismo episcopal orienta sobre o filme e o livro «O Código Da Vinci».

–O que é O Código Da Vinci?

–D. Odilo P. Scherer: É um romance escrito por Dan Brown, um autor norte-americano. Do livro foi feito um filme. Falou-se muito do livro e agora, também do filme, pois ambos trazem afirmações errôneas sobre Jesus Cristo, e Igreja e instituições ligadas à Igreja. É importante não esquecer que se trata de uma obra de ficção e as afirmações nela contidas devem ser tidas como fantasia, e não como argumentos de história.

–O que pode confundir os leitores ou quem assistir ao filme?

–D. Odilo P. Scherer: Quem pensar que o filme está retratando a história já está confundindo as coisas desde o início. O livro é ficção e o filme também é uma história inventada. Embora retrate personagens reais e faça alusões a fatos e instituições reais, a obra faz afirmações a respeito de fatos, pessoas e instituições que não têm base na história e não são verdadeiras. Mas, justamente, aqui é que está o veneno, pois Jesus e outros personagens do romance são reais; fatos e instituições que aparecem também são reais e, por vezes, fica difícil distinguir entre afirmação histórica e ficção; as pessoas são induzidas a colocar em dúvida a honestidade da Igreja na transmissão dos seus ensinamentos. É importante manter bem clara distinção entre os fatos, personagens e instituições reais e as afirmações feitas sobre eles, que são pura fantasia, sem base na história.

–Onde podemos encontrar a verdade sobre Jesus e o início da Igreja?

–D. Odilo P. Scherer: Aquilo que sabemos sobre Jesus está contido nos quatro Evangelhos e nos demais escritos do Novo Testamento, na Bíblia. Outros ?evangelhos? também foram escritos, até mesmo séculos depois da morte de Cristo; esses, desde logo, não foram tidos por verdadeiros, porque não estavam de acordo com aquilo que chamamos ?tradição apostólica? e, claramente, eram reinterpretações fantasiadas e tendenciosas dos fatos ligados à vida de Jesus. Esses ?evangelhos? foram chamados apócrifos e suas afirmações não são merecedoras de fé. O critério foi sempre o da pregação dos apóstolos sobre Jesus, pois eles conheceram pessoalmente o Mestre e foram testemunhas oculares dos fatos. Escritos apócrifos sempre existiram e não foram escondidos pela Igreja. Alguns foram redescobertos recentemente. Eles não têm a mesma validade dos quatro Evangelhos canônicos de Mateus, Marcos, Lucas e João e dos demais escritos do Novo Testamento. Podemos dizer que o Código da Vinci é um escrito apócrifo que, 2000 anos depois de Jesus, escreve uma história fantasiada sobre Jesus e o início da Igreja, em total contraste com os fatos históricos. Sobre as origens do Cristianismo e da Igreja, há farto material histórico, que pode ser pesquisado e lido.

–E o que dizer da afirmação que ?Jesus só se tornou divino? a partir do Concílio de Nicéia, em 325 d.C?

–D. Odilo P. Scherer: Essa afirmação aparece no filme. Ela não é verdadeira. O concílio de Nicéia, em 325 d.C., de fato, fez a afirmação solene da divindade de Jesus Cristo, proclamando-a como dogma, ou seja, ?verdade de fé? a ser aceita pelos cristãos. Mas esta verdade já era professada desde o começo pelos apóstolos e pelos primeiros cristãos. É só ler os Evangelhos e os demais escritos do Novo Testamento, que retratam o ensinamento de Jesus e a pregação apostólica. Os apóstolos tinham a firme convicção de que Jesus era o Filho de Deus e estavam dispostos a dar a vida por esta verdade. Eles não a inventaram, mas era algo que se lhes impunha com tanta força, que eles não a puderam negar. Portanto, os apóstolos e, com eles a primeira comunidade cristã, tinham a clara convicção de que Jesus era o Filho de Deus. Algum tempo depois apareceram grupos que negavam essa verdade. Começaram as heresias, que estavam em contraste com a pregação dos apóstolos. Por isso foi necessário reunir os responsáveis pela Igreja para discernir sobre a questão e o concílio de Nicéia fez a afirmação solene: ?É verdade central da fé da Igreja que Jesus é o Filho de Deus. Foi assim que os apóstolos testemunharam e ensinaram?. Essa verdade não foi inventada pelo Concílio de Nicéia, como se afirma no filme. Isso não condiz com os documentos históricos. Os cristãos não devem se deixar enganar.

–Em relação à afirmação dogmática da Divindade de Jesus, como argumentar teologicamente?

–D. Odilo P. Scherer – A verdade sobre a divindade de Jesus Cristo é fundamental para a Igreja, que tem consciência de que isso não significa pouca coisa e deixa em crise a lógica dos raciocínios humanos. Ele não é apenas um grande profeta ou o fundador de uma religião. A profissão de fé na divindade de Jesus Cristo vem dos apóstolos, aos quais Jesus mesmo se manifestou como Filho de Deus ao longo de sua e após sua ressurreição dos mortos. A Igreja professa que Jesus Cristo é o Filho de Deus feito homem; sem deixar sua natureza divina, viveu no mundo como verdadeiro homem, sem o esplendor da divindade. Veio ao mundo para se tornar solidário com cada ser humano e manifestar a todos o amor misericordioso de Deus; ele reconciliou a humanidade com Deus e abriu o caminho para Deus a todos os que crêem nele e o seguem. A afirmação da divindade de Jesus é central para a fé da Igreja.

–Quais seriam os principais critérios de orientação para a pessoa que assiste ao “Código Da Vinci”?

–D. Odilo P. Scherer: Quem quiser ler o livro ou assistir ao filme deve fazer um discernimento criterioso e manter clara a distinção entre verdade histórica e fantasia. E não deveria deixar de ler também os Evangelhos e os demais escritos do Novo Testamento. Se tiver a possibilidade, procure se informar com quem pode esclarecer alguma dúvida. Veja o que a Igreja ensina sobre Jesus no Catecismo. Seria até um exercício interessante confrontar as afirmações do Código da Vinci, com as dos Evangelhos, para se dar conta das diferenças. A pregação dos apóstolos, no Novo Testamento, é para nós a única referência de fé sobre Jesus Cristo. Ou será que uma história inventada pela fantasia, 2000 anos depois dos fatos, merece mais crédito? Não é pensável que alguém possa ?descobrir? a verdade sobre Jesus somente agora. Tantas pessoas ilustres, gente simples e sincera, grandes pensadores, escritores e santos sempre creram como os apóstolos pregaram e a Igreja transmitiu! Ninguém se deixe enganar, achando que a Igreja escondeu a verdade. Pelo contrário, o que a Igreja mais gostaria é que todos chegassem a conhecer bem a verdade sobre Jesus Cristo.

–Existe fundamento bíblico para afirmar uma relação de marido e mulher entre Jesus e Maria Madalena?

–D. Odilo P. Scherer: O Código da Vinci traz essa afirmação e também que Jesus teve filhos com Madalena; que a descendência de Jesus teria continuado ao longo da história e ainda hoje existiria. Isso é pura fantasia, sem nenhum fundamento bíblico e histórico. Maria Madalena foi uma discípula de Jesus, como outras mulheres também. É sobretudo no Evangelho de São João que ela aparece em várias passagens. Existe uma Maria, da qual Jesus expulsou sete demônios e alguns estudiosos acham que esta poderia ser Maria Madalena. Ela também é identificada com a pecadora bem conhecida na cidade, que perfuma os pés de Jesus e os enxuga com seus cabelos durante um banquete. Maria Madalena aparece claramente no contexto da Ressurreição, quando ela vai ao túmulo para ungir o corpo de Jesus, no terceiro dia após sua morte na cruz. Jesus se manifesta vivo a ela e lhe pede que vá anunciar aos discípulos que ele ressuscitou. O personagem Maria Madalena e também sua relação com Jesus sempre despertaram a curiosidade e a fantasia ao longo da história; e também foram explorados de maneira ideológica e indevida. A afirmação de que ela tenha sido mulher de Jesus não tem base nenhuma nos Evangelhos. Ela foi discípula de Jesus, como outras mulheres que o seguiam e das quais os Evangelhos também falam.

–O filme cita um certo ?Evangelho de Filipe?, que fala do amor especial de Jesus por Madalena. Fala que ?a palavra perfeita concebe e dá nascimento por meio de um beijo?. O que é o ?Evangelho de Filipe? e o que dizer dessa interpretação da relação mestre-discípula como se fosse a relação marido-mulher?

–D. Odilo P. Scherer: O ?Evangelho de Filipe? também é um apócrifo e não retrata a pregação e o testemunho dos apóstolos sobre Jesus. A Igreja nunca deu crédito aos apócrifos, não considerou verdadeiras as suas afirmações sobre Jesus e as origens cristãs. Era necessário estabelecer um critério para saber quais escritos podiam ser levados a sério e quais não, pois nos primeiros séculos apareciam muitas histórias sobre Jesus. Aliás, ainda hoje, como o próprio Código Da Vinci. O critério é a pregação e o ensinamento dos apóstolos, que conheceram Jesus de perto e foram as testemunhas oculares de sua pessoa e de suas obras. Seu testemunho está relatado nos 4 Evangelhos canônicos e nos demais escritos do Novo Testamento. A relação de Jesus com Madalena, como aparece no ?Evangelho de Filipe?, não concorda com a dos Evangelhos canônicos.

–O Código Da Vinci fala do Santo Graal. Existe alguma sustentação histórica para isso?

–D. Odilo P. Scherer: De fato, a trama do Código da Vinci tem no Santo Graal um elemento central. Ninguém se iluda, o Santo Graal nunca existiu. É uma lenda medieval, que aparece reciclada de vez em quando em romances e vive na fantasia popular. O Santo Graal não existiu. É uma lenda.

–Que esclarecimentos poderiam ajudar as pessoas a conhecerem realmente o Opus Dei hoje?

–D. Odilo P. Scherer: O Opus Dei (Obra de Deus) aparece no Código da Vinci como uma organização malvada e sem escrúpulos, que faz de tudo para manter o segredo em torno da verdadeira identidade de Jesus, isto é, que ele nunca foi o Filho de Deus, que casou com Madalena e teve descendentes com ela, que vivem ainda hoje. Isso é pura fantasia. O Opus Dei é uma Associação de católicos recente, que pode ser conhecida através dos escritos do seu fundador, São José Maria Escrivá, ou através das pessoas que aderem a essa Associação reconhecida pela Igreja, à qual aderem muitos leigos, padres, religiosos e bispos. Eles estão presentes em muitos âmbitos da sociedade, com a motivação da santificação pessoal e do mundo através da vida santa no trabalho e nas coisas de cada dia. Não vamos dar crédito a fantasias maldosas e carregadas de veneno. É impressionante como certas fantasias passam para o domínio público como se fossem verdadeiras. A imagem que o Código Da Vinci passa sobre o Opus Dei é maldosa e muito injusta.

–O filme fala do ?sagrado feminino?. O que vem a ser isso?

–D. Odilo P. Scherer: O sagrado feminino é um mito presente na história das religiões e na cultura dos povos. Em poucas palavras, esse mito afirma que o ser feminino, especialmente a mulher, tem algo de sagrado, de divino. Por isso, em muitas religiões são cultuadas deusas e o feminino aparece divinizado. Nesse mito, não tudo está errado. Mas, por que falar somente do sagrado feminino e não também do masculino? Na verdade, segundo a fé bíblica e a antropologia cristã, tanto o homem como a mulher são ?imagem e semelhança de Deus?. Não só o masculino, nem só o feminino. Não se trata, porém, da divinização do ser humano, mas de afirmar que homem e mulher são criaturas maravilhosas e têm algo em comum com Deus. Por isso também são capazes de acolher o divino e de entrar em relação com ele. O ser humano não está fechado para Deus, nem impossibilitado de se comunicar com Ele; nem Deus está impossibilitado de se comunicar com o ser humano. Deus não vive isolado, distante e incomunicável com o ser humano e o mundo. Toda pessoa tem a possibilidade de encontrar e acolher Deus em sua vida e de entrar em diálogo com ele. Mas não se trata da divinização do ser humano. Deus não precisa anular o que é humano para estabelecer contato com sua criatura, mas valoriza o ser humano ao tal ponto, que se lhe manifesta na condição dele. É justamente isso que afirmamos com a fé no ?mistério da encarnação? do Filho de Deus, que aparece humano na pessoa de Jesus Cristo. O humano continua humano, mas é transfigurado, transformado e enriquecido pelo divino, que vem ao seu encontro. Deus valoriza o homem enquanto homem e a mulher, enquanto mulher.

–Quem são os templários citados por Dan Brown?

–D. Odilo P. Scherer: Foram uma Ordem militar na Idade Média, que tinha inicialmente a missão de defender os lugares santos para assegurar o direito de peregrinação e veneração aos cristãos. Eram religiosos e faziam os votos de pobreza, obediência e castidade. Mais tarde foram extintos sob acusações falsas de praticarem a feitiçaria e a heresia. O rei da França estava interessado nas riquezas que a Ordem tinha acumulado ao longo dos séculos. Sobre eles, pode-se ler nos manuais de história e nas enciclopédias. O que o Código Da Vinci afirma sobre os templários é pura fantasia.

–Poderíamos dizer que o filme está apoiado numa grande campanha de marketing e suas afirmações não têm valor histórico? Trata-se apenas de uma obra de entretenimento?

–D. Odilo P. Scherer: De fato, ninguém queira encontrar no Código Da Vinci verdades históricas. Trata-se de um romance e o autor soube reunir habilmente uma série de questões e ?mistérios?, que aguçam a fantasia e a curiosidade das pessoas. Pena que a obra mexe, de maneira desrespeitosa, com tanta coisa séria e deixa no ar a suspeita de que a Igreja seja falsificadora da verdade e enganadora do povo. Isso é injusto! De resto, para os vendedores de ilusões, quanto mais polêmica, melhor. Isso vende mais! É uma questão de marketing. Mas é o caso de perguntar: Para fazer dinheiro, qualquer expediente pode ser usado? Isso é honesto?

–A Igreja considera os Meios de Comunicação Social de maneira positiva, como maravilhas da técnica, e insiste que sejam empregados em favor da verdade, justiça, solidariedade e paz.

–D. Odilo P. Scherer: Os Meios de Comunicação são maravilhosos. Mas não passam de meios, que dependem das intenções de quem faz uso deles. O seu uso também deve obedecer a critérios éticos, como qualquer atividade humana. A mídia pode ser usada para ?criar verdades?, de maneira distorcida e artificial, de acordo com interesses determinados. Por isso, os receptores devem manter vivo o senso crítico, denunciando o mau uso desses meios e a comunicação distorcida da verdade. Todos precisamos estar atentos para não nos deixar ?fazer a cabeça? pela mídia. E não se deve esquecer que a primeira e mais importante comunicação continua a ser aquela da relação humana direta, do encontro de pessoas, do diálogo, da partilha de sentimentos, afetos, idéias e exemplos. A comunicação que mais atinge seus objetivos é aquela que coloca em sintonia corações, inteligências e vontades.




Comentários no Facebook:

comments

Anteriores

Bento XVI reza pela rápida beatificação de João Paulo II

Próximo

Santa Sé anuncia grande quantidade de Movimentos Eclesiais por ocasião de Pentecostes

  1. Débora

    Eu assisti o filme e fiquei muito curiosa em saber se aquelas afirmações eram verdadeiras e resolvi pesquisar. Li muitos postes nesse blog e foi muito útil, principalmente esse. É importante saber que são afirmações falsas, ficção… Obrigada 😀

Deixe uma resposta

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén