milagre-de-lanciano

Autor: Pe. Juan Carlos Sack
Fonte: http://www.apologetica.org
Tradução: Carlos Martins Nabeto

– “[Durante a Santa Ceia,] a igreja (=corpo de fiéis) em que o Senhor está presente (cf. Mateus 18,20), participa – recordando através do pão e vinho, que simbolizam o corpo e sangue de Cristo – do sacrifício perfeito de Jesus na cruz do Calvário” (Guillermo Hernández Agüero, evangélico).

– “Assim, com absoluta segurança, participamos do corpo e do sangue de Cristo, porque na figura do pão te é dado o Corpo, e na figura do vinho te é dado o sangue, para que, participando do corpo e do sangue de Cristo, sejas feito concorpóreo e consanguíneo de Cristo” (São Cirilo de Jerusalén, Bispo, Século IV).

[Dando continuidade a esta Série, abordaremos hoje, Cirilo de Jerusalém, Dídimo o Cego e Ambrósio de Milão].

CIRILO DE JERUSALÉM

Testemunha insígne da fé da Igreja de Jerusalém no século IV, em particular através de suas “Catequeses Mistagógicas”.

Instruindo os recém-batizados, ensinando a fé e a vida da Igreja, comenta o relato paulino da instituição da Eucaristia; e recitando as palavras de Jesus durante a instituição, as comenta desta maneira:

– “Quando Ele mesmo declarou e disse do pão: ‘Isto é Meu corpo”, quem se atreverá a duvidar? E quando Ele mesmo garantiu e disse: ‘Isto é Meu sangue’, quem duvidará, afirmando que não é Seu sangue?” (Catequese Mistagógica 4,1).

– “Em certa ocasião, por um mero desejo Seu, converteu água em vinho durante as bodas de Caná, na Galileia. Não é digno de se crer então que Ele converte o vinho em Seu sangue?” (Catequese Mistagógica 4,2).

– “Portanto, com absoluta segurança participamos do corpo e do sangue de Cristo, porque na figura do pão se te é dado o corpo, e na figura do vinho se te é dado o sangue, para que, participando do corpo e do sangue de Cristo, sejas feito concorpóreo e consanguíneo de Cristo; pois assim somos também portadores de Cristo: tendo Seu corpo e Seu sangue distribuídos por nossos membros. Logo, segundo São Pedro, somos consortes da natureza divina” (Catequese Mistagógica 4,3).

– “Não vejas, portanto, o pão e o vinho como coisas comuns, porque são – segundo a declaração do Senhor – corpo e sangue. Pois ainda que os sentidos te sugiram isso, a Fé te assegura o contrário. Não os julgues pelo gosto, mas pelo o que a Fé te assegura indubitavelmente, tu que foste digno do corpo e do sangue de Cristo” (Catequese Mistagógica 4,6).

– “Com a certeza de que o aparente pão não é pão – ainda que o seja segundo o paladar – mas corpo de Cristo; e que o aparente vinho não é vinho – ainda que o paladar o aponte – mas sangue de Cristo (…), fortifica o teu coração, participando Dele como de um pão espiritual, rejuvenecendo a face da tua alma” (Catequese Mistagógica 4,9).

– “Após nos termos santificado através desses hinos espirituais, invocamos ao bom Deus para que faça descer o Espírito Santo sobre os dons presentes, para que o pão venha a ser o corpo de Cristo e o vinho, o sangue de Cristo” (Catequese Mistagógica 5,7).

– “Não deixeis o juízo à vossa garganta corporal, mas à Fé indubitável, porque quando [ao ter recebido a sagrada comunhão] a estais ingerindo, não é pão e vinho o que ingeris, mas o antítipo do corpo e sangue de Cristo” (Catequese Mistagógica 5,20).

As passagens acima citadas tornam totalmente impossível qualquer dúvida acerca do realismo eucarístico de Cirilo de Jerusalém. Por isso, as últimas palavras somente podem ser entendidas assim: as espécies eucarísticas (o que aparece como pão e vinho) são símbolos que nos levam à realidade que nos é dada, isto é, o corpo e o sangue do Senhor; é o que afirma um texto anteriormente citado: “na figura de pão se dá o corpo”. Esta passagem confirma a interpretação “realista” que fornecemos em outra ocasião, ao tratar dos textos que contêm a difícil expressão grega “antítipo”.

DÍDIMO O CEGO

Monge de Alexandria, mestre dos mestres. Nasceu em 313 e morreu por volta de 398. Apesar de ter perdido a visão aos 4 anos de idade, converteu-se em um dos homens mais sábios do seu tempo. Foi colocado à frente da Escola de Alexandria por Santo Atanásio. Viveu sempre como leigo na periferia de Alexandria.

Em um escrito seu, recentemente encontrado, lemos:

– “Mais condenável e abertamente prejudicial é o jejum praticado por aqueles que se afastam do pão da vida e da carne de Jesus, que são o pão da vida, o pão da verdade descido do céu. Sendo alimento da vida, não convém de maneira nenhuma abster-se dele” (Sobre Zacarias 2,121).

AMBRÓSIO DE MILÃO

Um dos mais importante Padres do Ocidente. Nasceu por volta de 339 e morreu em 397. Tendo recebido uma boa educação, chegou a ser cônsul da região italiana de Ligúria e Emília, tendo estabelecido sua residência em Milão. Quando ainda era catecúmeno, foi eleito para a sé episcopal de Milão, cargo que aceitou em razão do pedido quase que unânime dos fiéis da Diocese. Foi então batizado e ordenado sacerdote e bispo. De vida exemplar, soube conduzir os civis e os governantes segundo o Evangelho. Escreveu numerosos hinos para a celebração da liturgia. Seus sermões e seu exemplo de vida foram responsáveis pela conversão de Agostinho à Fé cristã.

São conservadas muitas expressões acerca da doutrina de Ambrósio sobre a real presença de Cristo na Eucaristia. Proponho aqui apenas algumas:

– “‘Minha carne verdadeiramente é comida e meu sangue, bebida’: Ouvís carne; ouvís sangue; conheceis os mistérios da morte do Senhor e caluniais a divindade? (…) Sempre que nós recebemos os mistérios [na celebração eucarística], que pelo mistério da sagrada oração [eucarística] se transfiguram em carne e sangue, anunciamos a morte do Senhor” (Da Fé 4,10,124).

– “Cristo é alimento para mim; Cristo é bebida; a carne de Deus é comida para mim e o sangue de Deus é bebida. Já não espero as colheitas anuais para saciar-me; Cristo me é servido todos os dias” (Exposição ao Salmo 118,15,28).

A alguém a quem poderia parecer que o milagre do maná não era superado por nada na Igreja, e que ainda poderia imaginar que na celebração eucarística o pão é um pão comum, responde:

– “Porém, esse pão é pão antes das palavras dos mistérios; quando sobrevém a consagração, do pão se faz carne de Cristo. Vamos prová-lo: como é que o pão pode ser corpo de Cristo? Pois, na consagração, com quais palavras e de quem são essas palavras? Do Senhor Jesus (…) É a palavra de Cristo que produz este sacramento” (Dos Sacramentos 4,4,14).

E oferece ainda uma resposta final:

– “Não era corpo de Cristo antes da consagração; mas depois da consagração, te digo que já é o corpo de Cristo. Ele o disse e assim Se fez; ordenou isto e Se criou” (Dos Sacramentos 4,4,16).

Prova com vários exemplos a eficácia da palavra divina e conclui:

– “Sabeis, pois, que do pão se faz o corpo de Cristo e que do vinho, que se encontra com água no cálice, se faz sangue pela consagração celeste. Direis, talvez: ‘Eu não enxergo aparência de sangue’. Mas se assemelha, pois como recebestes o símbolo da morte [mediante o Batismo], assim também bebeis o símbolo do precioso sangue, para que não tenhais horror [ao ver] sangue e, deste modo, seu efeito produza o preço da redenção. Sabeis, pois, que o que recebeis é o corpo de Cristo” (Dos Sacramentos 4,4,19-20).

Ao inegável realismo do corpo e sangue do Senhor é acrescentado aqui uma palavra de terminologia simbólica: “similitudo”, “símbolo”. Partindo da semelhança natural do vinho com o sangue, ao vinho consagrado chama “símbolo do sangue de Cristo”, não porque Ele não esteja ali realmente (não se esqueça que essa bebida, segundo Santo Ambrósio, produz efeitos redentores), mas para que a aparência do vinho evite a repugnância natural que qualquer pessoa teria de beber sangue (a objeção do catecúmeno era: “Eu não enxergo aparência de sangue”).

Mais adiante, alude às palavras da anáfora eucarística e torna a insistir:

– “Antes de consagrá-lo, é pão; mas quando sobrevêm as palavras de Cristo, é o corpo de Cristo (…) Também antes das palavras de Cristo, o cálice está cheio de vinho e água; mas quando atuaram as palavras de Cristo, ali se encontra o sangue Daquele que redimiu o povo. Vede, pois, de quantas formas a palavra de Cristo pode mudar tudo. Finalmente, o próprio Senhor nos atestou que o que recebemos é o Seu corpo e o Seu sangue. Devemos duvidar da autoridade do Seu testemunho?” (Dos Sacramentos 4,5,23).

Em vários de seus sermões Ambrósio nos oferece um exemplo claro de outro aspecto que é importante considerar na hora de compreender os escritos dos antigos Padres da Igreja e, assim, poder deduzir no que realmente acreditavam. Refiro-me à “disciplina do arcano”. O Pe. Ott assim a explica: “Existia então a ‘disciplina arcani’, que era um lei que obrigava os fiéis dos primeiros tempos da Igreja a guardar segredo acerca dos mistérios da fé, e de maneira particular, da Eucaristia. Era uma precaução lógica que tinha por objetivo evitar as calúnias dos pagãos, que podiam tergiversar o sentido da nova doutrina (=a Fé cristã); cf. Orígenes, Sobre Levítico, Homilia 9,10”. Em outras palavras: os cristãos dos primeiros séculos tentavam não tornar pública a doutrina eucarística exatamente porque acreditavam na presença real de Cristo, coisa que, se fosse conhecida dos pagãos, seria objeto de ironia ou perseguição. Um texto de Ambrósio ilustra isso muito bem; falando aos que tinham recebido recentemente o Batismo, após uma longa e consciente instrução, lhes diz:

– “Agora já é tempo de falar dos sagrados mistérios (=a Eucaristia) e explicar-vos o significado dos Sacramentos, coisa que, se o tivéssemos feito antes do Batismo, seria mais apropriadamente uma violação à disciplina do arcano do que uma instrução” (Dos Mistérios 1,7; SC 25bis,156-158).

Em sua explicação dos sacramentos cristãos, tratando da Eucaristia, propõe novamente a objeção: “Talvez direis: ‘Eu enxergo outra coisa. Como me dizes que estou recebendo o corpo de Cristo?’ É isso o que nos resta provar”. Depois de acumular exemplos onde a natureza das coisas foi alterada mediante a intercessão dos santos, responde à objeção:

– “Pois se tanto poder teve a bênção humana que mudou a natureza, o que diremos da própria consagração divina, quando o que age são as próprias palavras de Nosso Salvador? Porque o sacramento que recebeis é feito com as palavras de Cristo. E se a palavra de Elias teve tanto poder para fazer descer fogo do céu, não teria poder a palavra de Cristo para alterar a natureza dos elementos? (…) A palavra de Cristo que pôde fazer do nada o que não existia, não poderá alterar o que existe naquilo que não era [isto é, converter o pão em corpo de Cristo]? É óbvio que a Virgem deu à luz fora da ordem natural; pois também aquilo que consagramos é o corpo nascido da Virgem (…) Sem dúvida nenhuma, foi a verdadeira carne de Cristo que foi crucificada e sepultada; portanto, [a Eucaristia] é verdadeiramente o sacramento da Sua carne” (Dos Mistérios 9,50-53)[39].

E, no final de seu discurso:

– “É o próprio Senhor Jesus quem clama: ‘Isto é Meu corpo’. Antes da bênção com as palavras celestes, chama-se outra coisa [=”pão”]; após a consagração, temos o corpo. Ele mesmo disse que é Seu sangue. Antes da consagração, chama-se outra coisa [=”vinho”]; após a consagração, chama-se “sangue”. E tu dizes: “Amém”, ou seja, “É verdade”. O que a tua boca diz, confesse também o teu espírito. O que soam as palavras, sinta também o afeto” (Dos Mistérios 9,54).

Este impressionante realismo eucarístico não apenas foi expresso constantemente pelo Bispo de Milão, como também ensinado, provado e exigido por ele aos seus fiéis, como pertencente à Fé Cristã. Logo, não há razão para ser obscurecido por uma frase como esta: “Que esta oferenda Te seja agradável, porque é figura do corpo e do sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Dos Sacramentos 4,5,21). Isto porque:

1º) Parece que se trata de uma citação extraída por Santo Ambrósio de uma outra obra;

2º) Ambrósio nunca emprega a palavra “figura” para designar os ritos sagrados, preferindo “similitudo” ou “semelhança” e “símbolo”, deixando a palavra “mistério” para a realidade profunda que encerram essas “similitudo” do pão e do vinho, ou da água e do azeite etc. Recorde-se aqui o que dissemos sobre Cirilo de Jerusalém e outros Padres acerca do emprego das palavras “tipo”, “antítipo” etc.

Uma última citação:

– “É por isso também que a Igreja, tendo em suas mãos tão imensa graça, exorta os seus filhos e amigos a reunirem-se para receber os Sacramentos, dizendo: ‘Comam, meus amigos. Bebam e embriaguem-se, irmãos’ (…) Nesse sacramento [da Eucaristia] Cristo está [presente], pois é o corpo de Cristo; não é, portanto, comida corporal, mas espiritual (…) porque o corpo de Cristo é o corpo do Espírito divino (…) E, finalmente, essa comida fortalece o nosso coração; essa bebida alegra o coração do homem, como anunciou o Profeta” (Dos Mistérios 9,58).

Sirvam estas explicações do século IV também a aqueles que em pleno século XXI interpretam a Eucaristia católica como “canibalismo”, ou como um convite para comer “fibras, músculos, derme (…) plaquetas, plasma, glóbulos”, ou que creem possuir licença para supor que o convite à recepção frequente da Eucaristia – como, p.ex., o de Ambrósio de Milão, no séc. IV – é “mecanismo” para “um truque”[40]. Deve-se manter os dois extremos do mistério, sem destruir nenhum: a presença do corpo de Jesus na Eucaristia é real (não simbólica), ainda que seja dado de comer de maneira espiritual. (…)

NOTAS:

[39] Em seu artigo sobre “a teoria da transubstanciação”, Daniel Sapia menciona as palavras de um sacerdote argentino que, ao mostrar a hóstia consagrada, antes da comunhão, disse: “Este É o corpo de Jesus, O MESMO que nasceu da Santa Virgem Maria (…) Felizes os convidados para o banquete celestial”. O autor batista fica escandalizado com estas palavras, escritas sobre um momento especial, inclusive acrescentando uma breve filmagem desse instante, em que é possível ver e ouvir o referido sacerdote. Curiosamente, Ambrósio de Milão, testemunha indiscutível da Igreja primitiva, não inventou nada (está apenas transmitindo a fé recebida) e diz, dezesseis séculos antes: “[Na Eucaristia] o que consagramos é o corpo nascido da Virgem”. E se Ambrósio for considerado testemunho tardio, vamos regredir então ao século II e interpelar um discípulo dos Apóstolos: Inácio de Antioquia ensinava que a Eucaristia “é a carne de Nosso Salvador Jesus Cristo, aquela que padeceu por nossos pecados”. É claro que a expressão do sacerdote argentino está em perfeita sintonia com o que a Igreja primitiva sempre acreditou, enquanto que o autor batista está em sintonia não com a Fé da Igreja primitiva, mas com a heresia doceta, contra a qual São João Evangelista tanto lutou em suas cartas. Inácio de Antioquia nos afirma claramente: “Da Eucaristia e da oração [os docetas] se afastam, porque não confessam que a Eucaristia é a carne de Nosso Salvador Jesus Cristo, aquela que padeceu pelos nossos pecados; aquela que, por Sua bondade, o Pai ressuscitou”.

[40] As expressões entre aspas são de Daniel Sapia. Segundo a doutrina católica, o corpo que se recebe na Eucaristia é o corpo glorioso de Cristo, o corpo que se levantou no sepulcro. Trata-se do próprio corpo de Cristo, embora transformado, glorificado, que adquire dimensões que o nosso corpo atualmente não possui, mas que virá a ter por ocasião da ressurreição da carne. Tentando evitar possíveis incongruências, Sapia chega ao extremo de negar que o corpo do Cristo Ressuscitado tivesse sangue. Suas palavras são estas: “O novo corpo de Cristo, no qual Ele agora reside à direita do Pai no céu, não possui sangue”. Acredito que este “ex abrupto” teológico tenha surgido para explicar, entre outras coisas, como as “fibras, músculos, derme (…) plaquetas, plasma, glóbulos” fizeram para ingressar na casa onde estavam os discípulos com as portas fechadas. Porém, levantamos esta questão: É possível sustentar que o Ressuscitado era o próprio corpo de Cristo se, por outro lado, não possuía sangue? O que teria este “corpo” para ser realmente o corpo de Cristo? Ou por acaso o Corpo Ressuscitado foi uma simples ilusão de ótica dos Seus discípulos? Isto não é realmente negar a realidade? Ou teria mesmo sido uma farsa? O que Tomé tocou na segunda aparição aos Apóstolos? Se o que viu e tocou não era um fantasma, isto se deve ao fato de ter tocado um corpo real, com sangue e tudo o mais que um corpo possui, ainda que sob nova dimensão: a dimensão do Ressuscitado. Quem comeu diante dos Apóstolos não foi a alma de Cristo, mas Seu corpo real (Lucas 24,39 e seguintes não dá margem a fantasias). Comeu mesmo Jesus com seus discípulos após Sua ressurreição? Aceitará também o “cristianismo evangélico” – do qual Sapia se autocoloca implicitamente como porta-voz nesta questão que agora nos ocupamos – esta doutrina da não-identidade real do corpo de Cristo antes e depois da ressurreição?




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