Autor: Pe. Juan Carlos Sack
Fonte: http://www.apologetica.org
Tradução: Carlos Martins Nabeto

– “Deveríamos considerar isto: se Nosso Senhor é Santo, como Ele Se deixaria ser manejado, em um processo de transformação, por pessoas (=os sacerdotes) que são pecadoras por natureza?” (Guillermo Hernández Agüero, evangélico).

– “Por esta palavra (=’Fazei isto’), Cristo faz com que a mão do sacerdote seja a Sua [própria mão]; a boca não é minha; a língua não é minha, mas de Cristo, ainda que eu seja um patife ou um malandro (…) Por pior que seja um sacerdote, o sacramento se concretiza” (Martinho Lutero).

[Dando continuidade a esta Série, abordaremos hoje os testemunhos de uma antiquíssima Homilia, Clemente de Alexandria e Tertuliano de Cartago].

HOMILIA ANÔNIMA DO SÉCULO II OU III

Trata-se de uma homilia sobre a Páscoa. Reflete a doutrina da Igreja de seu tempo. Pode ser lida em PG 59,735-746, sendo conhecida como “In Sanctum Pascha 6”.

A segunda parte da homilia diz:

– “Esta foi a Páscoa que Jesus desejou padecer por nós. Por sua Paixão nos libertou da paixão; e por sua morte venceu a morte; e através do alimento visível, sua vida imortal nos procurou [cf. João 6,54]. Este era o desejo salvífico de Jesus; este era o Seu amor espiritualíssimo, mostrando por um lado as figuras como figuras e, de outro lado, dando aos discípulos a correspondência com Seu sagrado corpo: ‘Tomai e comei; isto é Meu corpo’; ‘Tomai e bebei; isto é Meu sangue, a Nova Aliança, derramada por muitos, para a remissão dos pecados”.

CLEMENTE DE ALEXANDRIA

Contemporâneo de Ireneu, nasceu em torno de 150 e morreu por volta de 215. Oriundo da Grécia, de família pagã. Uma vez convertido, viajou buscando instrução cristã, o que acabou encontrando junto ao cristão Panteno de Alexandria, a quem sucedeu, após sua morte, no cargo de catequista dos novos cristãos. Perseguido pelo Imperador Septímio Severo, fugiu para o Egito e, finalmente, morreu na Capadócia.

Uma homilia sua sobre Marcos 10,17-31 nos apresenta Jesus dizendo-nos:

– “Eu te regenerei (…) Eu te mostrarei a face de Deus, o Bom Pai (…) Eu sou Aquele que te alimenta, que dou a Mim mesmo no pão [do qual quem provar não experimentará a morte] e dou diariamente a Mim mesmo na bebida da imortalidade” (Quis Dives Salvetur 23).

É bastante claro o sentido realista da presença do Senhor: não é o símbolo que nos pode salvar da morte eterna, mas o próprio Senhor. E isto apesar de Clemente ser um claro representante da Escola Alegórica de interpretação. Este dado deve ser levado em conta sempre que estejamos considerando este ou outros autores alegoristas, como Tertuliano[14].

Creio que seja útil advertir, por ocasião deste texto, que as expressões simbólicas que eventualmente podem ocorrer em autores antigos ou modernos não implicam necessariamente no fato de autor negar a presença real do Senhor na Eucaristia. Por exemplo: Clemente, em sua homilia, faz o Senhor dizer: “Dou a Mim mesmo no pão”; e em nossos dias é comum ouvirmos dos lábios de pregadores católicos: “Jesus se fez pão na Eucaristia” ou expressões semelhantes. Tais expressões não significam que se está negando a presença real do Senhor, mas são na verdade expressões literárias perfeitamente compreensíveis no contexto em que são expressas: o que vemos na Eucaristia é precisamente pão e se os ouvintes ou leitores são fiéis, não é contrário à Fé Católica falar deste modo. Retornando à expressão de Clemente, não esqueçamos que Jesus diz “Dou a Mim mesmo” no pão; se quisermos ser mais exatos, diríamos: “Dou a Mim mesmo (=presença real) sob as aparências de um simples pão (=o que vemos, os acidentes, aquilo que nosso corpo consome empiricamente)”.

TERTULIANO

É a testemunha da Igreja de Cartago. Nascido de pais pagãos por volta de 155, chegou a ser advogado de excelente reputação. Converteu-se ao Senhor em 193. Autor prolífico, de enorme influência no pensamento cristão, excelente conhecedor das Escrituras, seus escritos apresentam um período católico; a seguir, um período de transição (semi-montanista, com tendências rigoristas); e, finalmente, rompe com a Igreja para professar o cisma montanista, que basicamente consistia em um Cristianismo extremamente rigorista. Morreu entre 240 e 250.

O realismo eucarístico de Tertuliano é bastante conhecido. Para ele:

– “A Eucaristia são as delícias do corpo do Senhor” (De Pudicitia 9,16).

Por não atentar-se devidamente às peculiariedades da sua linguagem, tem sido possível o paradoxo de interpretar como simbolista um escritor que com esses mesmos textos está decididamente refutando o Docetismo de Marcião[15]. Vejamos alguns textos para termos uma melhor ideia sobre a mente de Tertuliano:

– “Pelo qual já provamos com o Evangelho pelo mistério do pão e do vinho a verdade do corpo e do sangue do Senhor, ao contrário do fantasma de Marcião” (Contra Marcião 5,8,3).

Aqui, a tradicional relação entre a Encarnação e a Eucaristia é empregada não para provar a realidade – já reconhecida e aceita – da Eucaristia, mas para comprovar a verdade da Encarnação! Isto é: assim como na Eucaristia temos realmente o corpo e o sangue do Senhor – coisa que não se discute – ‘a fortiori’ se deverá aceitar que o corpo do Senhor, pela Encarnação, foi real e não um fantasma: em ambos os casos, trata-se do mesmo corpo e do mesmo sangue do Senhor.

Um texto que normalmente é citado como simbolista é o seguinte[16]:

– “Após ter declarado que desejava muitíssimo comer a Sua Páscoa (=seria indigno que Deus desejasse algo desnecessário), tomando o pão e dando-o aos discípulos, o fez Seu corpo, dizendo: ‘Isto é Meu corpo’, isto é, a figura do Meu corpo. Porém, não seria figura se não fosse um corpo verdadeiro; afinal, algo que é vazio [como um fantasma] não poderia constituir uma figura” (Contra Marcião 4,40,3).

Antes de mais nada, não devemos esquecer que o texto diz que Jesus, ao pão, “o fez Seu corpo”. Por outro lado, é certo que Tertuliano esclarece que trata-se da “figura do Meu corpo”. No entanto, este modo de falar não desvirtua em nada o realismo; ao contrário, o confirma, pois para que algo possa ser figura ou imagem de outra coisa, precisa ter em si mesmo uma realidade, não pode ser um fantasma. E o mais importante: qual é o contexto em que se encontra esta expressão de Tertuliano? Do que ele está falando?

Arguindo a partir da hipótese doceta, diz-se:

– “Se o pão se fez corpo precisamente porque Ele carecia de um corpo real (=coisa ensinada pelos docetas), então o que deveria ter sido entregue por nós era o pão [porém, na realidade o que foi entregue foi o corpo]” (Contra Marcião 4,40,3).

Uma palavra sobre os “dois elementos, o terrestre e o celeste” de que é composto o pão sobre o qual foi invocado o Espírito santo: nos grosseiros e infames ataques que a Eucaristia recebeu da parte dos gnósticos de todos os tempos, encontra-se também algum tipo de acusação de canibalismo. Porém, isso é desconhecer que a Eucaristia, uma vez pronunciadas as palavras de consagração, continua com todos e cada um dos elementos sensíveis (ou “acidentes” ou “espécies”, na linguagem filosófica posterior) que tinha quando era “pão comum”, coisa que Ireneu define como “elemento terrestre” ou que Tertuliano chama “figura” do corpo do Senhor. Com efeito, não há nenhum canibalismo, pois a presença verdadeira, real e substancial do corpo e sangue do Senhor não se dá nas suas espécies próprias de corpo e sangue de Cristo, mas em espécies alheias, isto é, as do pão e vinho. Em outras palavras: a partir do ponto de vista empírico nada mudou, ainda que a Fé indique ao fiel que, pelo poder de Deus, a substância “já não é pão comum”. Assim, toda tentativa de apontar “canibalismo” às celebrações eucarísticas demonstra uma mentalidade totalmente truncada e fechada. Convido a qualquer gnóstico moderno a apresentar uma acusação de “canibalismo” contra a Igreja Católica diante dos tribunais de seu país e ver que tipo de aceitação terá.

Ou seja: suposta a identidade do corpo físico de Jesus com Seu corpo eucarístico (identidade que para Tertuliano não é discutível porque ele não conhece senão um só e verdadeiro corpo do Senhor), esse corpo real e único cumpre precisamente na Eucaristia uma antiga “figura”: aquela que foi assinalada por Jeremias (11,19), que profetizou: “Coloquemos o lenho em seu pão”. Esta é exatamente a passagem que está sendo comentada por Tertuliano. Para ele, o Profeta Jeremias designa com “o lenho” a cruz e com “o pão” o corpo do Senhor. Como pode o pão designar o corpo do Senhor? Essa figura, cunhada pelo Profeta, é revelada por Jesus quando, com o pão nas mãos, disse: “Isto é Meu corpo”. Foi então que foi explicado o significado do pão naquela profecia. Esta doutrina de Tertuliano encontra-se em Contra Marcião 4,40,3-4 e em 3,19,3-4.

Neste sentido, é compreensível também a expressão relativa ao sangue:

– “Agora consagrou Seu sangue no vinho Aquele mesmo que então fez do vinho figura do sangue [Isaías 63,1; Gênesis 49,19]” (Contra Marcião 4,40,4-6).

Notemos a força da seguinte expressão, onde Tertuliano defende a bondade do corpo humano contra o preconceito gnóstico, de que a carne é coisa má, e proclama, através das coisas sensíveis como instrumentos – os Sacramentos que tocam o corpo – de que Deus santifica a alma:

– “Lava-se a carne [com o Batismo], para que a alma seja limpa. Unge-se a carne [pelo Batismo e Confirmação], para que a alma seja consagrada. Assinala-se a carne [pela Confirmação e Unção dos Enfermos], para que a alma seja protegida. Encobre-se a carne com a imposição das mãos [pela Confirmação e Ordem], para que a alma seja iluminada. Alimenta-se a carne com o corpo e o sangue de Cristo [pela Eucaristia] para que também a alma se sacie de Deus” (Da Ressurreição dos Mortos 8,3).

À luz destas expressões é possível enxergar também estas outras coisas:

– “Porém, é certo que Cristo até agora não reprovou a água do Criador [com a qual lava os seus fiéis], nem o óleo [com o que os unge], nem a mistura de mel e leite [com que os amamenta], nem o pão [que o tornou Seu corpo]. Até para os próprios Sacramentos é necessário mendigar ao Criador!” (Contra Marcião 1,14,3)[17].

– “Ainda que a expressão diga: ‘O pão nosso de cada dia nos dai hoje’, devemos entendê-la melhor espiritualmente, porque Cristo é o nosso pão, já que Cristo é a vida e a vida é o pão [Ele disse: ‘Eu sou o Pão da Vida’; e, um pouco antes: ‘O pão é a Palavra do Deus vivo que desceu do céu’]. Além disso, porque Seu corpo também é autoritativamente designado como ‘pão’: ‘Isto é Meu corpo'” (Da Oração 6,2).

Isto é, o corpo do Senhor é dado na forma de pão, sob as aparências de pão. Porém, o que é consumido não é pão, mas o corpo de Cristo: “Isto é Meu corpo”. Esta é a substância que o fiel consome quando participa da Eucaristia.

NOTAS:

[14] Seria o caso deste outro texto de Clemente: “O Verbo é tudo para a criança: pai e mãe; e, por sua vez, pedagogo e alimentante. Ele disse: ‘Comei o Meu corpo e bebei o Meu sangue’. Estes são os alimentos, bem apropriados para nós, que o Senhor dá: oferece Sua carne e dá Seu sangue; nada falta às crianças para que cresçam” (Pedagogo 1,6,42,3).

[15] A heresia docetista ensinava, substancialmente, que a Encarnação não fôra real, mas aparente, uma espécie de ilusão: nem o Verbo se fez carne realmente, nem morreu realmente na cruz, etc.

[16] Citado em parte por Hernández Agüero no Site “Conoceréis la Verdad”.

[17] É óbvio que Tertuliano acreditava que Jesus tinha Se convertido em pão… O contrário é que deve ser entendido, como já mencionamos em uma nota anterior, acerca do modo poético de se falar da Eucaristia. Certamente, nenhum “pão” pode nos dar nada no plano da salvação, salvo se esse “pão” agora for “o corpo do Senhor”. Nesta chave, todos os textos patrísticos podem ser compreendidos.




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